Retórica e argumentação/Imprimir

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Índice

Introdução

Retórica é a arte de elaborar textos e discursos persuasivos, a qual é estudada desde a antiguidade, tanto no ocidente quanto no oriente.

Esta arte tem óbvias aplicações em diversas carreiras; como direito, política, propaganda, docência etc. Ainda assim, a retórica não se restringe a estas áreas, sendo útil a todos, quer seja para elaborar uma boa redação em um concurso; persuadir colegas, patrões ou empregados; ou mesmo participar de discussões na internet.

Ademais, ter conhecimento de retórica é útil para defender-se intelectualmente de toda sorte de sofistas, demagogos, embromadores e charlatães que queiram usá-la contra nós.

Método Socrático

Sócrates foi um filósofo ateniense que viveu por volta dos anos 469 AEC – 399 AEC. Ele não deixou nenhuma obra escrita e tudo o que sabemos sobre sua filosofia e sua vida provém de trabalhos do outros pensadores, principalmente seu discípulo Platão (c. 428 AEC – Atenas 348 AEC).

Platão descreveu Sócrates como o homem mais sábio de Atenas justamente por ter consciência da própria ignorância, enquanto seus conterrâneos eram arrogantes que presumiam saber muito mais do que realmente sabiam. Esta sabedoria socrática é fundamental à filosofia e até mesmo à ciência, uma vez que só podemos aprender, pesquisar e investigar, se admitirmos a nós mesmos que não temos a resposta para tudo.

Assim, de acordo com Platão, Sócrates andava por Atenas e iniciava conversas com outras pessoas, questionando todas suas alegações sem embasamento até que estas admitissem a ignorância no assunto que supunham ter conhecimento. Esta atitude inquisitiva ficou conhecida como método socrático e pode ser aplicada tanto aos outros, quando debatemos, ou a nós mesmos, quando refletimos sobre nosso posicionamento intelectual.

Ao questionarmos nossa própria posição, ou seremos capazes de responder as questões, o que fortalece nosso posicionamento, ou seremos incapazes, o que nos permite rever ou descartar crenças sem embasamento. De qualquer forma, saímos ganhando. Já quando questionamos os outros, ou eles serão capazes de responder as questões, o que nos permite aprender, ou serão incapazes, revelando a falta de embasamento de suas posições. Mais uma vez, saímos ganhando de qualquer forma, excepto pelo fato de que as pessoas tendem a ficar irritadas ao serem questionadas. O próprio Sócrates teria irritado tanto seus conterrâneos que ele foi condenado à morte por envenenamento, sob as acusações de corromper a juventude e negar a religião ateniense.

Quais questionamentos são pertinentes dependerá da posição ou alegação questionada, mas há três questões que frequentemente são úteis:

  • (1) "Como você define o conceito que está utilizando?" Em várias obras de Platão, os interlocutores de Sócrates arrogantemente alegam dominar um assunto, mas sequer são capazes de definir o conceito debatido. Sócrates teria questionado Hípias sobre o que é a beleza, e Mênon sobre o que é a virtude; mas nenhum dos dois foram capazes de dar uma definição apropriada, apenas citar exemplos de coisas belas e ações virtuosas; ainda que pretendessem saber muito sobre o assunto. Em A República, Sócrates questiona seus interlocutores sobre o que é a justiça; em O Banquete, sobre o que é o amor; e em Eutifron, o que é a piedade. Nenhum dos seus interlocutores foram capazes de prover uma definição adequada a estes conceitos, ainda que falassem cheios de pompa sobre o assunto. Ora, sem uma definição precisa e correta, como podemos saber se estamos aplicando um conceito corretamente ou mesmo se nosso interlocutor entende nossa posição? Digamos que duas pessoas debatam se uma certa ação é justa ou não; sem uma definição de "justiça" que ambos aceitem, há o risco de que cada um tenha um entendimento completamente diferente do outro da questão, tornando o debate improdutivo.
  • (2) "Como você sabe disto?" É comum as pessoas fazerem alegações de forma categórica, mas, quando questionadas sobre como elas sabem o que estão alegando, acabarem revelando (ainda que inintencionalmente) que o aquilo que alegaram não passava de dogmatismo, opinião, palpite ou algo que não foi concluído segundo uma metodologia adequada.
  • (3) "Como implementar/aplicar suas ideias?"/"Como evitar que a implementação de suas ideias acarrete em tais e tais problemas?". Esta não é uma questão que Sócrates costumava a fazer, ao menos segundo Platão, o qual preferia questões teóricas e abstratas a questões práticas e concretas. Ainda assim, é uma questão muito útil, uma vez que muita gente adere a ideais políticos, teorias econômicas e princípios morais sem terem a menor ideia de como implementá-los ou como lidar com as consequências. Desta forma, quando o oponente de uma tese faz esta pergunta ao proponente, este se vê forçado a lidar com problemas concretos. Ao ser incapaz de resolvê-los, é como se o proponente ouvisse um "não!" da própria realidade, ao invés de meramente do oponente. Inclusive há um estudo de Harvard demonstrando que este tipo de questionamento é mais eficiente em fazer radicais políticos a reverem suas opiniões.

Modos de Persuasão segundo Aristóteles

Platão, do qual falamos anteriormente, conviveu com os sofistas, os quais não passavam de professores de retórica que colocavam o estilo acima do conteúdo e a persuasão acima da verdade. Isto levou Platão a ter um completo desdém pelo estudo da arte da persuasão; o que não significa que seus textos eram medíocres ou deselegantes, muito pelo contrário, mas Platão tinha um estilo mais lacônico e menos pomposo ou magniloquente.

Aristóteles (385 AEC - 322 AEC), por sua vez, não via problemas em estudar como ser persuasivo e elegante, contanto que sempre fosse dada prioridade à verdade. Em sua obra, Retórica, Aristóteles descreve três modos nos quais as pessoas são persuadidas.

  • Logos: Persuasão baseada na razão. Neste modo, são utilizados argumentos dedutivos - isto é, argumentos que, segundo a Lógica, garantem que as conclusões são verdadeiras, se as premissas forem verdadeiras. A premissas destes argumentos devem ter sua veracidade sustentada pela razão. Extrapolando o conceito aristotélico para um contexto contemporâneo, argumentos baseados em metodologia científica, probabilidade e estatística também podem ser classificados como logos.
  • Ethos: Persuasão baseada na credibilidade. Apesar do cético radical (ou do cínico) questionar a validade deste modo de persuasão - uma vez que até uma pessoa considerada honesta e capaz pode mentir ou se enganar, enquanto uma pessoa considerada desonesta pode eventualmente dizer uma verdade - o fato, reconhecido por Aristóteles, é que humanos são animais sociais, os quais precisam colaborar e confiar um nos outros para viver. O que não significa que esta confiança deva ser cega. Devemos utilizar o bom senso para saber em quem confiar e em quem desconfiar, e em qual medida. Boa parte da retórica se foca em como fortalecer o ethos.
  • Pathos: Persuasão baseada nas emoções. Devemos evitar sermos demasiadamente emotivos ou piegas em questões melhor abordadas à luz da razão. Ainda assim, este modo de persuasão tem seu lugar, uma vez que as emoções nos conduz à ação. Uma pessoa apática ou desesperada em face dos problemas e adversidades dificilmente executará a ação propícia. O próprio Aristóteles considerava que a pessoa virtuosa tem a reação emocional apropriada às situações; o que legitima o modo pathos.

Os 5 Cânones da Retórica

  • Invenção
    • Tópicos de invenção
      • Definição
      • Divisão
      • Comparação
      • Relação (causa/efeito, antecedente/consequente, contrariedades, contraditoriedades)
      • Circunstâncias
      • Testemunho
  • Arranjo
    • Exordium (Introdução)
    • Narratio (Narrativa)
    • Divisio (Divisão)
    • Confirmatio (Prova)
    • Refutatio (Refutação)
    • Peroratio (Conclusão)
  • Estilo
    • Virtudes de estilo
      • Correção
      • Clareza
      • Evidência
      • Propriedade
      • Ornamentação
    • Níveis de estilo
      • Supa/Magniloquens (alto estilo)
      • Aequabile/Mediocre (médio estilo)
      • Infinum/Humile (baixo estilo)
  • Memória
  • Entrega


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Os 5 Cânones da Retórica/Invenção

A invenção consiste em elaborar o que falar ou escrever, a criação de conteúdo. É o cânone mais importante da retórica e também o mais difícil. Até autores e oradores experientes podem sofrer de bloqueio criativo. Para ajudar a ter ideias, alguns tópicos de invenção são sugeridos.

Tópicos de invenção[editar | editar código-fonte]

  • Definição: Defina os conceitos mais obscuros ou complicados do seu discurso. Isto informa sua audiência e auxilia na articulação lógica do discurso.
  • Divisão: Elenque as partes constituintes do assunto tratado. Descreva as questões mais pertinentes. Ao tratar de um conjunto pequeno de entidades, descreva cada uma destas (ou ao menos as mais importantes). Já ao tratar de um conjunto grande, descreva os subconjuntos mais interessantes.
  • Comparação: Compare os assuntos abordados, as partes divididas. Compare assuntos insólitos com assuntos mais familiares à audiência. Confira as figuras de estilo analogia e disanalogia.
  • Relação: Descreva como os assuntos ou entidades tratadas se relacionam. Algumas relações interessantes são as de causa e efeito, condição e consequência, oposição etc. Confira as figuras de estilo antimetábole e aetiologia.
  • Circunstâncias: A audiência pode não ter a reação intelectual ou emocional adequada a um discurso se este for muito vago ou muito abstrato. Assim, descreva vividamente circunstâncias e dê exemplos concretos de situações. Confira as figuras de estilo martírio, paradeigma, enargia, digressio e adhortatio.
  • Testemunho: Quem de credibilidade está de acordo com você? Como você pode utilizar isto ao seu favor? Confira as figuras de estilo dialogismo e martírio.

Os 5 Cânones da Retórica/Arranjo

Arranjo consiste na articulação e disposição dos argumentos no discurso. A retórica clássica prescreve que o discurso seja dividido em seis partes.

  • Exordium (Introdução): Na primeira parte a audiência é informada sobre o que o discurso se trata. Este momento é crucial para captar a atenção da audiência. Deve-se mostrar a ela o que o assunto é relevante ou interessante. Também é o momento de estabelecer seu ethos.
  • Narratio (Narrativa): Esta parte consiste em descrever os fatos relevantes ao discurso, os quais podem cativar ainda mais a audiência e servir de premissas para a argumentação. Algumas figuras bastante utilizadas nesta parte são apodixe, martírio, enargia, paradeigma, digressio e dialogismo.
  • Divisio (Divisão): Nesta parte, o autor ou orador explica à audiência quais pontos abordará em seus discurso. Isto ajuda a audiência a acompanhar os passos da argumentação. Podem ser de ajuda neste quesito as figuras de estilo eutrepismo e diálise.
  • Refutatio (Refutação): Nesta fase do discurso, o autor ou orador deve
    • objetar ou refutar o posicionamento dos adversários, responder à criticas e objeções ao seu posicionamento, ou mesmo antecipar tais críticas. Figuras úteis neste momento são aphorismus, apodioxe, diasirmo, disanalogia, paromologia.
    • admitir os pontos fracos de seu posicionamento e as questões em aberto deixadas por este. Por mais contraprodutivo que isto pareça, honestidade intelectual ajuda em muito a construir o ethos. Ademais, a audiência pode ficar ainda mais interessada em um assunto ao saber que ele não está completamente resolvido e ainda tem problemas em aberto a serem trabalhados.
  • Peroratio (Conclusão): Este é o momento de, além de reiterar seu posicionamento e razões, utilizar de apelos emocionais (pathopoeia) para que o discurso fique marcado em sua audiência.

Os 5 Cânones da Retórica/Estilo

Estilo consiste na forma do discurso.

Níveis de estilo[editar | editar código-fonte]

A retórica clássica classifica o estilo em três níveis:

  • Alto estilo (Supa/Magniloquens): Nível mais adequado à comoção e à exortação.
  • Médio estilo (Aequabile/Mediocre): Nível mais adequado ao entretenimento.
  • Baixo estilo (Infinum/Humile): Nível mais adequado à educação e instrução.

Virtudes de estilo[editar | editar código-fonte]

Virtudes de estilo são as práticas que o autor ou orador deve adotar e cultivar a fim de aprimorar a qualidade de seus discursos.

  • Correção: O domínio da língua na qual o discurso é elaborado; em evitar vícios de linguagem, erros gramaticais e erros ortográficos ou de pronúncia.
  • Clareza: A capacidade de ser compreendido pela audiência.
  • Evidência: A capacidade de mostrar fatos e indícios que provem ou corroborem sua posição.
  • Propriedade: O discernimento ao escolher o nível de estilo adequado em cada situação. O estilo apropriado para uma sala de aula, por exemplo, não será o mesmo que o estilo adequado para um tribunal ou um funeral.
  • Ornamentação: A capacidade de formular um discurso bonito e elegante, digno de ser lembrado e reproduzido.

Os 5 Cânones da Retórica/Memória

O cânone da memória mira em três pontos:

  • Técnicas de memorização de discursos.
  • A memorização de toda sorte de informação que possa ser utilizada em um debate não ensaiado.
  • Elaboração de um discurso que fique gravado na memória da audiência.

Vejamos cada um destes pontos.


Técnicas mnemônicas[editar | editar código-fonte]

Uma das técnicas mnemônicas mais populares entre os oradores da antiguidade era a técnica loci (do Latim, "locais"). Pense em um local com o qual você seja familiarizado - sua casa, por exemplo - e atribua a cada parte do discurso uma parte ou cômodo do local escolhido. No momento de proferir o discurso, imagine a si próprio caminhando por este local.

Em uma variação desta técnica, o local escolhido é o próprio local no qual o discuso será proferido. Assim, basta bater o olho na parte do local atrelada à parte do discurso para lembrar-se desta.

Memorização de informação[editar | editar código-fonte]

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Elaboração de discursos memoráveis[editar | editar código-fonte]

Para um discurso ser memorável, seu conteúdo deve ser relevante à audiência e sua forma deve ser elegante a ponto de merecer ser citada e reproduzida.

Não há muito o que possamos falar aqui sobre o conteúdo. Para a forma, dê uma boa estudada nas figuras de estilo. Segue abaixo alguns outros truques que valem a pena serem mencionados.

  • Descrições vívidas: Utilize uma linguagem que estimule a imaginação da audiência. Substantivos são meros rótulos atrelados as coisas; utilize adjetivos para dar mais vida a um discurso (repare que muita gente, ao contar um filme, esquece o nome das personagens e as designa por adjetivos). Verbos são mais vívidos do que substantivos, mas podem ficar ainda mais vívidos se acompanhados por advérbios.
  • Brincadeiras fonéticas com a linguagem: Rimas, aliterações e outras formas de assonância são ótimos recursos mnemônicos. Exemplos:
    • "Vozes veladas, veludosas vozes,/Volúpias dos violões, vozes veladas,/Vagam nos velhos vórtices velozes/Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas." (João da Cruz e Sousa, Violões que Choram)
    • Muitos autores de ficção nomeiam suas personagens de forma que seus nomes não sejam esquecidos: Clark Kent, Lois Lane, Lex Luthor, Wonder Woman, Mickey Mouse, Donald Duck, Peter Parker, Bruce Banner etc.

Método de argumentação Nyåya


Nyåya consiste em uma corrente de pensamento indiana fundada por Gautama (c. 200 E.C.) cujo enfoque é em questões referentes ao conhecimento: epistemologia, percepção, inferências, argumentação, erros de raciocínio etc. Vejamos como alguns dos ensinamentos Nyåya podem nos ajudar a nos tornar argumentadores melhores.

A escola de pensamento Nyåya prescrevia que os argumentos fossem divididos em cinco partes:

  • pratijña: Declarar a tese a ser defendida.
  • hetu: Razão que justifica a tese.
  • udaharaa: Regra geral que legitima a relação entre razão e tese, acompanhada de exemplos positivos e negativos.
  • upanaya: Reiterar a razão para aplicar a regra geral.
  • nigamana: Concluir a tese.

Exemplo:

  • pratijña: Há fogo na colina.
  • hetu: Pois há fumaça.
  • udaharaa: Onde há fumaça, há fogo; tal como em uma cozinha, mas não como em um lago.
  • upanaya: Pode-se ver que há fumaça na colina.
  • nigamana: Portanto há fogo.

Phakkika-sastra (Erros de raciocínio ou argumentação)[editar | editar código-fonte]

A escola de pensamento Nyåya classificou as falácias em cinco categorias:

  • savyabhicara (inconclusivo): O hetu não fornece razão suficiente para a tese. Ex: ‘Jéssica passou por aqui, pois eu sinto seu perfume’. Outras pessoas além de Jéssica podem utilizar o mesmo perfume.
  • viruddha (contraditório): O hetu fornece razão para algo inconsistente com a tese. Ex: ‘Ivanhoé não é corajoso, pois ele vai muito bem armado para as batalhas’. Bem ou mal armado, participar de batalhas é sinal de coragem.
  • prakaranasama (controverso): O hetu fornece uma razão sem qualquer relação com o pratijña. Ex: ‘Este xampu deve ser bom, pois na propaganda há mulheres lindas e famosas defendendo seu uso’.
  • sadhyasama (contraquestionado): Existe forte evidência contrária ao hetu. Ex: ‘Jerônimo deve ser genial, pois ele tem o lobo frontal avantajado’. Acontece que a frenologia (determinação da personalidade pelas medidas do crânio) já foi refutada pela ciência.
  • kalatia (desbalanceio): Apesar do hetu oferecer razão para a tese, existe evidência ainda mais forte para a tese contrária. Ex: ‘Bianca deve ser uma pessoa inteligentíssima, pois foi muito bem na prova de matemática’. Acontece que Bianca só foi bem em uma matéria e reprovou em todas demais.

Figuras de estilo/Aetiologia


Aetiologia consiste em uma figura de estilo na qual se justifica uma declaração, geralmente depois desta ter sido feita. Quando se intercala cada parte da sentença com uma justificativa dessa, a figura é chamada de prosapodose.

Exemplo 1: “Os penhoristas na Inglaterra têm o hábito, quando obtém um relógio de bolso, de riscar os números da cautela com um alfinete no interior da caixa. É mais conveniente que uma etiqueta, pois não há perigo de o número se perder ou ser trocado.” (Sir Arthur Conan Doyle, The Sign of the Four)

Exemplo 2: “Ora, para aquele que está entre os vivos há esperança (porque melhor é o cão vivo do que o leão morto). Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao esquecimento. ... Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.” (Ecl 9, 4.5.10)

Exemplo 3: “Todas as guerras são civis, porque é sempre homem contra homem, que espalha o seu próprio sangue.” (François Fénelon, Oeuvres de Fénélon)

Exemplo 4: "Eu não o temo como acusador, porque sou inocente; nem como rival, porque sou Antônio; nem espero vê-lo como cônsul, porque ele é Cícero." (Quintiliano citando Gaio Antônio, Institutio Oratoria)

Exemplo 5: "Homens civilizados são mais descorteses que os selvagens, pois esses sabem que podem ser rudes sem ter seus crânios partidos, geralmente." (Robert E. Howard, The Tower of the Elephant)


Uso na retórica: Obviamente, aetiologias provém fundamentação ao que é alegado, quer esta fundamentação seja causal, lógica, jurídica ou de qualquer outra natureza.

Figuras de estilo/Aphorismus

Aphorismus consiste em uma figura de estilo na qual se questiona a aplicabilidade de uma palavra ou termo a uma situação específica. Geralmente vêm na forma de uma pergunta retórica.

Exemplo 1: Você diz que me ama, mas quem ama não faz o que você fez comigo.

Exemplo 2: “Tu me confundiste este tempo todo. Eu vivo de pão como tu, sinto necessidade, experimento tristeza, preciso de amigos. Um súdito, portanto. Como podes me dizer que eu sou um rei?” (William Shakespeare, Richard II)

Exemplo 3: “Quando ouvi a resposta, eu disse a mim mesmo ‘o que o deus quer dizer [com isto]?’ e ‘qual a interpretação deste enigma?’. Pois eu sei que não tenho sabedoria, pequena ou grande. O que ele quer dizer quando diz que eu sou o mais sábio entre os homens?”(Platão, Apologia)

Uso na retórica: Aphorismus é útil para exigir rigor terminológico do interlocutor ou coerência entre palavras e ações. Também serve para mostrar modéstia, o que ajuda a construir o ethos com a audiência. Contudo, seu abuso também pode corroer o ethos, pois é muito comum esta figura transmitir falsa modéstia, pedância, preciosismo ou afetação. Também corre-se o risco, ao utilizar o aphorismus, de incorrer na falácia do escocês.

Figuras de estilo/Apodioxe

A apodioxe consiste na rejeição enfática de um argumento ou alegação por esta ser patentemente falsa, inválida, impertinente, imoral, irrelevante etc.

Exemplo 1: “Como sentistes, homens de Atenas, ao ouvirem os discursos de meus acusadores, não posso dizer; mas eu sei que suas palavras persuasivas quase me fizeram esquecer quem eu sou, tal foi o seu efeito; e ainda assim eles mal disseram uma palavra verdadeira.” (Platão, Apologia de Sócrates)

Exemplo 2: “Entre os absurdos de que regurgita o mundo, não é dos menores este [maniqueísmo], que pode entrar no rol dos nossos males: imaginar dois seres todo poderosos duelando-se para ver quem dá mais de si ao mundo.” (Voltaire, Dicionário Filosófico)

Exemplo 3: "Pensas que Fausto é tão dócil a ponto de imaginar que depois desta vida há qualquer dor? Bah, isto é uma bagatela e mera fábula." (Christopher Marlowe, Dr. Faustus)

Uso na retórica: A apodioxe serve para fortalecer o ethos, uma vez que esta mostra à audiência a reação apropriada a ideias indignas. Também serve para forçar o interlocutor a dialogar em terreno comum consigo. É muito comum que a apodioxe seja abusada por aqueles de má vontade, arruinando toda possibilidade de diálogo.

Figuras de estilo/Apodixe


Apodixe consiste em justificar uma declaração alegando se tratar de conhecimento comum.

Exemplo 1: "É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de uma boa fortuna deve estar em busca de uma esposa." (Jane Austen, Pride and Prejudice)

Exemplo 2: "Ora, como qualquer um sabe, as coisas desconhecidas amedrontam mais do que as conhecidas." (Giacomo Leopardi, Pensieri)

Uso na retórica: A apodixe serve para fundamentar alegações e sinalizar ao interlocutor ou audiência que se está argumentando em terreno comum com ela. O abuso da apodixe pode corroer o ethos, pois soa arrogante considerar conhecimento específico ou mesmo opiniões pessoais como conhecimento comum. Ademais, a utilização da apodixe pode incorrer na falácia de argumentum ad populum.

Figuras de estilo/Martírio


O martírio consiste em justificar uma alegação com base na experiência pessoal.

Exemplo 1: "Acreditai em mim, eu que vos falo com total conhecimento dos fatos e que vos digo que nada está perdido para a França." (Charles de Gaule, Apelo de 18 de Junho)

Exemplo 2: "Vi ainda todas as opressões que se fazem debaixo do sol: vi as lágrimas dos que foram oprimidos, sem que ninguém os consolasse; vi a violência na mão dos opressores, sem que ninguém consolasse os oprimidos. Pelo que tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e não viu as más obras que se fazem debaixo do sol. Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do vento." (Ecl. 4, 1-4)

Uso na retórica: Esta figura é muito eficiente quando se tem o ethos muito bem estabelecido com a audiência. Infelizmente, o martírio é muito propício a ser abusado, carregando testemunhos enviesados, evidência anedótica ou mentiras.

Figuras de estilo/Pergunta retórica, hipófora e diaporesis

Uma pergunta retórica é qualquer pergunta cujo intento do autor não seja obter informação. Geralmente, o autor sabe a resposta da pergunta e a utiliza para afirmar ou negar o que está sendo perguntado. Quando a pessoa que lançou a pergunta retórica a responde em seguida, chamamos a figura de estilo de hipófora. Já quando a pessoa que lançou a pergunta retórica está deliberando com si própria, chamamos a figura de diaporesis.

Exemplo 1: “Eu sou um judeu. Um judeu não tem olhos? Um judeu não tem mãos, orgãos, dimensões, sentidos, afeições, paixões? Alimentado pela mesma comida, ferido pelas mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado da mesma maneira, aquecido e resfriado pelo mesmo verão e inverno que um cristão? Se vós nos espetardes, não sangramos? Se vós nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos envenenardes, não morremos? E se nos fizerdes mal, não devemos nos vingar? Se somos como vós no resto, também nos assemelharemos nisto. Se um judeu fizer mal a um cristão, qual é sua humildade? Vingança. Se um cristão fizer mal a um judeu, qual deveria ser sua resignição pelo exemplo cristão? Vingança. A vilania que me ensinais, executarei, e será tão dura que superarei a lição.” (Shakespeare, O Mercador de Veneza)

Exemplo 2: “Não é um prazer, uma vez que se aprendeu algo, colocá-lo em prática nas horas certas? Não é uma alegria ter amigos que vêm de longe? Não é cavalheiresco não se ofender quando os outros falham em apreciar suas habilidades?” (Confúcio, Analectos)

Exemplo 3: “Poderás tirar com anzol o Leviatã, ou apertar-lhe a língua com uma corda? Poderás meter-lhe uma corda de junco no nariz, ou com um gancho furar a sua queixada? Porventura te fará muitas súplicas, ou brandamente te falará? Fará ele aliança contigo, ou o tomarás tu por servo para sempre? Brincarás com ele, como se fora um pássaro, ou o prenderás para tuas meninas? Farão os sócios de pesca tráfico dele, ou o dividirão entre os negociantes? Poderás encherlhe a pele de arpões, ou a cabeça de fisgas?” (Jó 41, 1—7)

Exemplo 4: “É esta a região, o solo, o clima — disse o arcanjo perdido — este o assento que devemos trocar pelo Céu? Esta penumbra lúgrube por aquela luz celestial? Que seja... O que importa onde, se eu ainda for o mesmo? E o que eu deveria ser, além de tudo fora Ele a quem o trovão fez maior?” (John Milton, Paradise Lost)

Uso na retórica: Como o próprio nome sugere, questões retóricas são bastante utilizadas na arte da persuasão. Elas fazem o texto ou discurso soar menos como uma pregação e mais como uma investigação. Menos ‘ouça o que eu tenho a dizer’ e mais ‘pense comigo’. Assim, o discurso soa mais convidativo e menos presuçoso ou arrogante. Deve-se ter cuidado em apenas lançar perguntas retóricas quando se está seguro do terreno comum com seus interlocutor ou audiência. Caso contrário, o interlocutor pode começar a responder as perguntas retóricas de forma contrária ao esperado.

Figuras de estilo/Analogia e argumentos analógicos (homoiotes)

Uma analogia é a transferência de informação de um assunto para outro por meio de comparações que focam na similaridade entre as coisas comparadas. Um argumento analógico, também chamado de homoiotes, é um argumento no qual a premissa descreve semelhanças reconhecidas entre dois assuntos e a conclusão afirma a existência de mais semelhanças. “Se somos como vós no resto, também nos assemelharemos nisto.”(Shakespeare, O Mercador de Veneza). Basicamente, o raciocínio analógico segue o esquema: ‘X e Y tem tais e tais propriedades em comum. X tem uma propriedade P. Logo, Y também tem a propriedade P.’

Dos exemplos abaixo, (3) e (4) são argumentos analógicos, enquanto os demais são meras analogias sem a pretensão de se extrair uma conclusão.

Exemplo 1: “Uma tensão elétrica (voltagem) alta pode não ser danosa se a corrente (amperagem) for baixa, assim como uma mangueira de jardim jorrando molha mais que uma mangueira de incêndio gotejando.”

Exemplo 2: "Guerrear pela paz é como fornicar pela castidade."

Exemplo 3: "Eu já demonstrei, por meio de álgebra, que, dados um quadrado e um retângulo irregular de perímetros idênticos, o quadrado encerra a maior área. Isto me leva a crer que eu também possa demonstrar que, dado um cubo e um prisma de base retangular não-regular cujas áreas de superfície são idênticas, o cubo encerra o maior volume."

Exemplo 4: “Em sua declaração você alega que nossas ações, ainda que pacíficas, devem ser condenadas por precipitarem violência. Contudo, isto é uma alegação lógica? Isto não é como condenar a vítima de assalto por sua posse de dinheiro precipitar o ato vil do assalto? Isto não é como condenar Sócrates por seu inabalável comprometimento com a verdade e suas investigações filosóficas precipitarem o ato da população equivocada que o forçou a tomar cicuta? Isto não é como condenar Jesus por sua consciência divina única e sua incessante devoção à vontade de Deus precipitarem o ato vil de sua crucificação? Devemos enxergar que, assim como os tribunais federais consistentemente afirmaram, é errado exigir que um indivíduo cesse seus esforços em obter seus direitos constitucionais básicos por sua busca poder precipitar violência” (Martin Luther King, Letter from Birmingham Jail)

Exemplo 5: “Empirismo puro está para o pensamento como comer está para a digestão e absorção. Quando o empirismo se vangloria que sozinho, por meio de suas descobertas, fez progredir o conhecimento humano, é como se a boca se vangloriasse que a existência do corpo fosse trabalho só seu.” (Arthur Schopenhauer, Parerga e Paralipomena)

Exemplo 6: “O soberano que governa por meio da virtude é como a estrela polar que permanece no seu lugar, enquanto as demais lhe giram em torno.” (Confúcio, Analectos)

Uso retórico: O uso mais óbvio de uma analogia é efetuar argumentos analógicos. Deve-se tomar cuidado com este tipo de argumento pois eles não são dedutivos, ou seja, mesmo que as premissas sejam verdadeiras, não há garantias que a conclusão também o seja. Com base na analogia do exemplo 1, alguém poderia erroneamente concluir que a tensão elétrica pode ser aumentada pelo aumento da espessura da fiação.

O que um bom argumento analógico garante é que a conclusão é plausível em vista da verdade das premissas. Contudo, plausibilidade é altamente subjetiva. Considere o exemplo 1 do tópico anterior, perguntas retóricas. Na citação de Shakespeare, o personagem Shylock efetua um argumento analógico: dadas as semelhanças anatômicas entre judeus e cristãos, a vontade desses de vingar uma ofensa será semelhante a destes. Alguém que considere que a psicologia e o comportamento humanos são predominantemente influenciados pela biologia, consideraria a analogia boa. Já alguém que considere que a psicologia e o comportamento humanos são predominantemente influenciados pela cultura e pelo ambiente, consideraria a analogia ruim.

No final das contas, precisamos utilizar do nosso bom–senso para avaliar argumentos analógicos. Ainda assim, algumas heurísticas podem ser delineadas:

  • Quanto mais forte a relação entre as semelhanças reconhecidas nas premissas com a semelhança concluída, mais forte é a analogia. De nada adianta levantar um monte propriedades em comum entre duas coisas se essas nada tem a ver com a propriedade que se deseja concluir que estas tenham em comum.
  • A força do argumento analógico é proporcional à proximidade dos assuntos comparados. Por exemplo, uma analogia entre dois assuntos de biologia é mais forte que uma analogia comparando um assunto de biologia com uma de astronomia.
  • Argumentos analógicos com conclusões modestas são mais fortes que argumentos analógicos com conclusões presunçosas.
  • Argumentos analógicos envolvendo similaridades estruturais são mais fortes que aqueles envolvendo similaridades superficiais.

Sobre a uso de analogias sem a pretensão de extrair uma conclusão, analogias podem conferir um teor poético ou humorístico a um discurso. Uma analogia bonita, engraçada ou intelectualmente estimulante será mais lembrada e reproduzida que outra sentença que expresse a mesma ideia. Certamente, o exemplo 2 é mais memorável que a sentença ‘guerrear pela paz é uma atitude incoerente’.

Ademais, analogias possuem um alto potencial didático, na medida que estas permitem transportar informação de assuntos conhecidos e familiares para assuntos insólitos, tal como foi feito nos exemplos 1 e 5.

Figuras de estilo/Diasirmo


Diasirmo consiste em objetar ou refutar um argumento comparando-o com outro estruturalmente análogo que seja ridículo ou evidentemente inválido.

Exemplo 1: Negar o aquecimento global porque hoje é um dia frio é o mesmo que o marido traído negar a traição da esposa porque neste momento não há outro homem em sua cama.

Exemplo 2: Frequentemente ouço aqueles que negam a teoria da evolução das espécies objetarem o fato de que os humanos descendem de outras espécies de primatas dizendo coisas como "meu avô não era um macaco". Ora, isto é tão ridículo quanto negar o fato de que a língua portuguesa descende do Latim dizendo "meu avô não era um legionário romano".

Uso na retórica: O diasirmo combina irreverência com o poder didático da analogia e o rigor do raciocínio dedutivo, o que faz dele uma ferramenta retórica poderosa e eficiente. Deve-se acautelar para que os argumentos ou alegações comparadas tenham a mesma estrutura; caso contrário, se está a cometer falácia do espantalho. Também deve-se lembrar que objetar ou refutar um argumento não é o mesmo que objetar ou refutar a conclusão visada por este argumento.

Figuras de estilo/Disanalogia


Disanalogias são comparações que focam nas diferenças entre as coisas comparadas.

Exemplo 1: “Você pensa que cachaça é água? Cachaça não é água não. Cachaça vem do alambique e água vem do ribeirão” (Marinósio Trigueiros Filho, Cachaça não é água)

Exemplo 2: “As horas de tolice são medidas pelo relógio, mas as de sabedoria nenhum relógio pode medir” (Willian Blake, Marriage of Heaven and Hell)

Exemplo 3: "Quando um homem se sente superior aos outros e com um tipo de elação interior, isto é chamado de orgulho. Isto difere da vaidade na medida que vaidade significa consciência de sua elação, enquanto orgulho requer um sujeito, um objeto e um sentimento de elação. Suponha que um homem nasça solitário no mundo, ele pode sentir vaidade, mas não orgulho, pois o homem orgulhoso se considera superior aos outros por certas qualidades suas." (Al-Ghazali, Orgulho e Vaidade)

Uso na retórica: Dentre os usos da disanalogia na arte da persuasão, vale mencionar:

  • Contrastar as coisas comparadas, geralmente com o intento de elevar uma ou rebaixar outra.
  • Refutar/objetar argumentos analógicos.
  • Construir argumentos disanalógicos, isto é, argumentos nos quais as premissas descrevem diferenças reconhecidas entre dois assuntos e a conclusão afirma a existência de mais diferenças.

Figuras de estilo/Diálise


A diálise consiste em um argumento dedutivo no qual se demonstra que todas as alternativas convergem para a mesma conclusão.

Exemplo 1: "Por que eu deveria criticá-lo? Se você for um homem correto, não merece crítica. Se você for maligno, não será comovido." (Ad Herennium)

Exemplo 2: "Por que eu deveria me vangloriar de minhas realizações? Se você se lembra delas, vou aborrecê-lo. Se você as esqueceu, fui ineficiente na minha ação. Logo, como você seria afetado por minhas palavras?" (Ad Herennium)

Exemplo 3: "Se devemos filosofar, devemos filosofar; e se devemos não filosofar, devemos filosofar. Em qualquer caso, consequentemente, devemos filosofar. [Pois] se filosofia existe, certamente devemos filosofar, porque filosofia existe; e se ela não existe, ainda assim devemos examinar porque ela não existe, e ao fazê-lo, filosofaremos; pois o exame é o que faz a filosofia." (Aristóteles, Protéptico)

Exemplo 4: "Nas montanhas da verdade, você nunca escalará em vão: ou você chegará mais alto hoje, ou você exercitará suas forças de forma que será capaz de chegar mais alto amanhã". (F. Nietzche, Humano, Demasiadamente Humano)

Uso na retórica: A diálise permite provar uma tese sem se comprometer com qualquer alternativa ou possibilidade. Isto é útil para trabalhar em terreno comum com a audiência ou interlocutor. Também serve para compensar falta de informação ou incerteza. Deve-se tomar cuidado para não negligenciar alternativas, o que consistiria falácia da falsa dicotomia.

Figuras de estilo/Dialogismo


Dialogismo consiste em mencionar/citar o que outros disseram, antecipar o que outros dirão ou especular o que outros diriam. Quando se reproduz, além das palavras, a entonação, o sotaque, a gesticulação e outros aspectos do discurso, chamamos a figura de mimesis.

Exemplo 1: "Já agora descansa e está sossegada toda a terra. Todos exultam de júbilo. Até os ciprestes se alegram sobre ti, e os cedros do Líbano exclamam: Desde que tu caíste, ninguém já sobe contra nós para nos cortar. O além, desde o profundo, se turba por ti, para te sair ao encontro na tua chegada; ele, por tua causa, desperta as sombras e todos os príncipes da terra e faz levantar dos seus tronos a todos os reis das nações. Todos estes respondem e te dizem: Tu também, como nós, estás fraco? E és semelhante a nós? ... Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo. Os que te virem te contemplarão, hão de fitar-te e dizer-te: É este o homem que fazia estremecer a terra e tremer os reinos?" (Isa 14, 7-10.13-16)

Exemplo 2: "Por que Vossa Majestade usa a palavra 'benefício'? Tudo o que me importa é a benevolência e a retidão. Se Vossa Majestade diz 'como posso beneficiar meu Estado?', seus ministros dirão 'como posso beneficiar minha família?', e os oficiais e os populares dirão 'como posso me beneficiar?'... nunca existiu uma pessoa benevolente que negligenciou seus pais ou uma pessoa correta que colocou seu senhor em último lugar. Sua majestade talvez dirá agora 'tudo o que me importa é a benevolência e retidão. Por que mencionar benefício?' " (Mencius)

Uso na retórica: Há várias aplicações do dialogismo, dentre as quais convém mencionar:

  • Levantar argumentos de outros em seu favor.
  • Expor argumentos e críticas que outros levantaram para então os responder.
  • Antecipar críticas (procatalepse).
  • Descrever detalhadamente situações (enargia).

Figuras de estilo/Apófase


Apófase é quando se menciona e descarta razões fracas em favor de uma tese, para então mencionar uma razão forte em favor da mesma.

Exemplo 1: O eleitor merece, nestas eleições, não ser obrigado a escolher o melhor entre candidatos ruins. Por isto, não discutirei o quão incompetentes e corruptos os demais candidatos são. Ao invés disto, apresentarei minhas propostas.

Exemplo 2: Devemos fazer isto não porque a lei nos obriga, tão pouco porque obteremos vantagens, mas porque é a coisa moralmente correta a ser feita.

Uso na retórica: Um uso bastante comum da apófase é o sarcasmo. Traz-se um assunto à tona ao negar que ele deva ser trazido à tona, tal como no exemplo 1. Cuidado com este uso. Sarcasmo é um tanto quanto sobrevalorizado. Ele não demonstra tanta esperteza e desenvoltura argumentativa quanto alguns engraçadinhos acham que ele demonstra.

A apófase também pode ser utilizada quando se tem várias razões em favor de uma tese, sendo uma muito mais forte que as demais, mas não se pode elaborar todas. Alguns motivos para não se elaborar todas as razões em mãos a favor da sua tese são:

  • Seu tempo pode ser limitado, assim como a paciência da sua audiência.
  • Pega mal ter seus argumentos refutados. Aos olhos da sua audiência ou de seu interlocutor, pode parecer que você está perdendo o debate apenas porque as razões mais fracas foram objetadas.
  • Mesmo pessoas que concordam com a sua tese podem achar ruim que você coloque razões fracas no mesmo patamar que razões fortes.
  • Você discordar das razões que outros proponentes da mesma tese apresentam em favor desta. A apófase é um recurso clarificar isto à audiência.
  • Seu interlocutor ou audiência podem já reconhecer as razões fracas, basta lembrá-los delas.


Assim, a apófase serve como instrumento para salientar a razão forte, enquanto ainda deixa no ar as razões mais fracas.

Figuras de estilo/Expeditio

O expeditio consiste em um argumento no qual se elimina alternativas/possibilidades e se conclui a restante. Em Lógica, este tipo de argumento é chamado de silogismo disjuntivo ou modus tollendo ponens.


Exemplo 1: "Sabendo que Deus omnipotente tem em suas mãos todas as coisas que precisamos, como viemos a possuí-las? Não podemos tomar nada d'Ele pela força, pois Ele é o mais forte e poderoso; nem conseguir qualquer coisa dele pela fraude, pois Ele é o mais sábio e providente; e se O desafiássemos pela lei, Ele provaria que nos deve nada. Logo, ou Ele nos dá aquilo que precisamos, ou devemos ficar sem isto" (Henry Peachum, The Gardem of Eloquence)

Exemplo 2: "Se a substância das coisas não é encontrada em lugar algum, nas causas, nas condições, ou na combinação das causas com as condições, e se ela não é separável destas, então é dito que todas as coisas são vazias. Pois o broto não existe na semente que lhe causa; nem existe na terra, na água, no fogo, no vento e assim por diante, o que se concorda serem suas condições; nem existe na combinação de condições, nem na combinação de causas e condições... Dado que substância não existe em lugar algum, o broto é sem substância e, consequentemente, vazio... da mesma forma que todas as coisas são vazias também por sua falta de substância" (Nāgārjuna, Dissipador de Disputas)

Figuras de estilo/Paromologia

Paromologia, também chamada de consessio, consiste em admitir um ponto contrário a sua tese para, então, minimizá-lo ou contrapô-lo a um ponto favorável mais forte.

Exemplo 1: “Mesmo artes menores têm aspectos válidos, mas o cavalheiro não se aventura com elas, pois o medo do homem que tem um longo caminho a percorrer é ser barrado por algo.” (Confúcio, Analectos)

Exemplo 2: “Tenho o seguinte a dizer sobre toda a nação dos gregos; reconheço seu aprendizado, reconheço seu conhecimento de várias artes; não lhes nego a graça da fala, da astúcia, a eloquência singular. Além do mais, se eles se desafiarem em qualquer outra coisa, não lhes negarei. No entanto, quanto à religião e a fé, esta nação nunca as favoreceu. Sobre a virtude, a autoridade, a medida que há sobre estas questões, eles nada sabem.” (Cícero, Pro Flacco)

Exemplo 3: “Mas há apenas trezentos de nós, você objeta. Trezentos, sim, mas homens, mas armados, mas espartanos, mas nas Termópilas. Nunca vi trezentos tão numerosos.” (Sêneca sênior, Suasoriae)

Exemplo 4: "VERDADE! - nervoso - muito, muito terrivelmente nervoso eu estive e estou; mas por que você diz que estou louco? A doença aguçou meus sentidos - não destruiu - não os entorpeceu." (Edgar Allan Poe, The Tell-Tale Heart)

Exemplo 5: "Verdades da ordem física podem possuir grande significado externo, mas significado externo elas tem nenhum". (Arthur Schopenhauer, Sobre a Natureza Humana)

Uso na retórica: Não se pode levar a sério um sujeito soberbo e arrogante que não reconhece o mérito de críticas, evidências ou argumentos contrários a sua tese. A paromologia pode ser utilizada para demonstrar reconhecimento do mérito desses, ainda que um mérito menor do que os oponentes da tese atribuem. A paromologia também pode ser utilizada para levantar criticismos em potencial antes que estes sejam levantados pelo oponente ou pela audiência (o que chamamos de procatalepse). Isto serve tanto para desarmar o oponente quanto para mostrar que seu posicionamento foi bem refletido antes de ser defendido.

Figuras de estilo/Antimetábole

Antimetábole consiste em repetir certos termos ou conceitos estipulando uma relação inversa da original. Frequentemente (mas não obrigatoriamente) uma das relações é negada.

Exemplo 1: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelo seu país". (John F. Kennedy, Discurso Inaugural)

Exemplo 2: " Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você". (Friedrich Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal)

Exemplo 3: "Prefiro questões que não podem ser respondidas do que respostas que não podem ser questionadas". (Citação apócrifa frequentemente atribuída a Richard Feynman)

Exemplo 4: "Não há erro mais perigoso do que confundir a conseqüência e a causa... A fórmula geral que se encontra na base de toda moral e religião é: 'Faça isso e aquilo, não faça isso e aquilo — assim será feliz!' ... Em minha boca essa fórmula se converte no seu oposto... um ser que vingou, um “feliz”, tem de realizar certas ações e receia instintivamente outras... A Igreja e a moral dizem: 'o vício e o luxo levam uma estirpe ou um povo à ruína'. Minha razão restaurada diz: se um povo se arruína, degenera fisiologicamente, seguem-se daí o vício e o luxo... O leitor de jornais diz: esse partido se arruína cometendo tal erro. Minha política mais elevada diz: um partido que comete tais erros está no fim — já não tem sua segurança de instinto." (Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos)

Exemplo 5: "Aquilo que não pode ser expresso pela fala, mas pelo qual a fala é expressa... aquilo que não pode ser não pode ser apreendido pela mente, mas pelo qual, dizem, a mente é apreendida... aquilo que não pode ser percebido pelos olhos, mas pelo qual os olhos são percebidos... aquilo que não pode ser ouvido pelo ouvido, mas pelo qual a audição é percebida; apenas isto é o Brahma e não esta coisa que as pessoas aqui idolatram." (Kena Upanishad)


Uso na retórica: Antimetáboles são ferramentas interessantes para conferir a um discurso o teor poético e o incitamento intelectual que o torna memorável e o faz ser reproduzido. Ademais, a antimetábole funciona como uma espécie de paromologia: 'você estava correto em assumir que estas coisas estão relacionadas, mas errado em como elas se relacionam'.

Figuras de estilo/Entimema

Existem duas concepções de entimema:

  • (1) Um silogismo (ou qualquer outra forma de raciocínio dedutivo) no qual uma ou mais premissas muito óbvias são omitidas.
  • (2) Um raciocínio que, apesar de não ser dedutivo - ou seja, as premissas não garantem necessariamente que a conclusão é verdadeira -, ainda assim, a conclusão é altamente provável ou plausível em vista das premissas.

Exemplo 1: "Sócrates é humano. Logo, ele é mortal."

Análise do exemplo: Este é um silogismo válido que omite uma premissa óbvia, "todos humanos são mortais".


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Figuras de estilo/A fortiori


Até ácido sulfuroso corrói este material. Logo, ácido fluorantimônico também o corroerá facilmente.

Dado que sequer ácido fluorantimônico corrói este material, não será ácido sulfuroso que o fará.


Até eu consigo levantar esta pedra. Logo, Brian Shaw também consegue levantá-la.

Nem Brian Shaw consegue levantar esta pedra; não sou eu que a levantarei.



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Figuras de estilo/Adhortatio

Esta figura consiste em uma exortação à ação por meio de promessas ou ameaças.


Exemplo: "Vocês e eu, cavalheiros, compartilhamos a labuta e compartilhamos o perigo, e as recompensas são para todos nós. Os territórios conquistados pertencem a vocês; dentre suas fileiras os governantes desses são escolhidos; uma grande parte destes tesouros passam para suas mãos, e quando toda Ásia for invadida, então irei além que a mera satisfação de suas ambições: as maiores esperanças de riqueza e poder que um dia vocês desejaram serão superadas, e quem desejar retornar à casa será permitido, seja comigo eu sem mim. Eu farei aqueles que ficaram a inveja daqueles que retornaram." (Alexandre Magno, discurso às margens do rio Hydaspes)

Figuras de estilo/Epítrope

A epítrope, também conhecida como permessio, é uma figura de estilo na qual o orador/autor concede uma permissão ao interlocutor ou audiência. Os intuitos ao se utilizar a epítrope podem ser vários:

  • Barganhar com o interlocutor (Podes fazer isto contanto...)
  • Exortar o interlocutor ou audiência a engajar-se com a questão (Não precisais acreditar em mim. Podeis constatar o que digo por vós próprios.)
  • Expressar sinceramente confiança (Faças o que achares melhor. Confio em teu julgamento.)
  • Expressar sarcasticamente indiferença ou desdém (Faça como quiseres. Não fará diferença)
  • Expressar sarcasticamente desafio, ameaça, alerta ou provocação (Vai em frente! Vejamos o que te acontece!)


Exemplo 1: "Vá em frente! Faça meu dia!" (Clint Eastwood como Dirty Harry, Sudden Impact)

Exemplo 2: "Deixe que professores, sacerdotes e filósofos se debrucem sobre questões acerca da realidade e ilusão. Eu sei o seguinte: se a vida for uma ilusão, então eu também o sou, e assim sendo, a ilusão é real para mim." (Robert E. Howard, Queen of the Black Coast)

Exemplo 3: "Alegra-te, mancebo, na tua mocidade, e anime-te o teu coração nos dias da tua mocidade, e anda pelos caminhos do teu coração, e pela vista dos teus olhos; sabe, porém, que por todas estas coisas Deus te trará a juízo." (Ecl 11, 9)

Figuras de estilo/Eutrepismo

Eutrepismo consiste em listar e enumerar itens.

Exemplo 1: "Primeiro ao mercador de vinho / É que bebem os libertinos / Uma vez aos prisioneiros / Depois bebem três vezes aos vivos / Quatro a todos os cristãos / Cinco aos fiéis defuntos / Seis às irmãs perdidas / Sete aos guardas florestais / Oito aos irmãos desgarrados / Nove aos monges errantes / Dez aos navegantes / Onze aos brigões / Doze aos penitentes / Treze aos viajantes / Tanto ao Papa quanto ao rei / Bebem todos sem lei" (Carmina Burana, In Taberna Quando Sumus)

Exemplo 2: "Há três coisas que os homens cobiçam gananciosamente e buscam arduamente: Riquezas, prazeres e honras. Riquezas são as amas do pecado e iniquidade, prazeres são as filhas da desonestidade e guias que levam à miséria, honras são mães e amas da pompa mundana e vaidade." (Henry Peachum, The Garden of Eloquence)

Exemplo 3: "Há sete causas de preocupação para um estado. Quais são estas sete causas? Quando as muralhas externa e interna de uma cidade são indefensáveis, esta é a primeira causa. Quando um estado inimigo se aproxima e ainda assim seus vizinhos não prestam ajuda, esta é a segunda preocupação. Quando os recursos do povo foi todo gasto em empreitadas inúteis e presentes gastos com homens incapazes... esta é a terceira preocupação. Quando os oficiais valorizam apenas seus salários, e os sofistas apenas a amizade, e quando os subordinados não ousam argumentar contra leis persecutórias do governante, esta é a quarta preocupação. Quando o senhor superestima sua própria sabedoria e não busca aconselhamento... esta é a quinta preocupação. Quando os confiados são desleais e os leais não são confiados, esta é a sexta preocupação. Quando as colheitas não são o suficiente para alimentação... e as recompensas não fazem as pessoas felizes nem as punições as fazem temer, esta é a sétima preocupação." (Mozi, Livro I)

Exemplo 4: "Saiba, então, que há três tipos de orgulho: (1) contra Deus, (2) contra profetas e santos, (3) contra seus semelhantes. Contra Deus se deve à tolice de criaturas bípedes que se consideram mestres do universo. Contra profetas e santos se deve à auto-estima injustificada daquele que considera a obediência a qualquer mortal como algo que rebaixa sua própria posição. Contra semelhantes [ocorre quando] um homem orgulhoso se considera um ser superior e gostaria que todos se aviltassem perante ele." (Al-Ghazali, Orgulho e Vaidade)

Figuras de estilo/Enargia

Enargia é uma descrição vívida de algo. Há vários tipos de enargia, classificados pelo tema da descrição.

  • Topografia: Descrição de um local. Se o local for imaginário, a figura é chamada de topothesia.

Exemplo: "Chegaram a um litoral combinando lodo, limo e construções de alvenaria ciclópica coberta de ervas daninhas que outra coisa não poderia ser senão a substância tangível do supremo horror sobre a Terra — a pavorosa cidade-defunta de R’lyeh..." (H.P. Lovecraft, The Call of Cthulhu)

  • Astrotesia: Descrição das estrelas e fenômenos celestes.

Exemplo: "Nós a tinhamos sempre sobre nós, a Lua, enorme: quando era lua cheia — noites claras como o dia, mas de uma luz cor de manteiga — parecia que nos esmagaria; quando era lua nova, rolava pelo céu como um guarda-chuva preto carregado pelo vento; e na lua crescente avançava seus chifres tão baixos que parecia que se infincaria em um promontório e se ancoraria." (Italo Calvino, Le Cosmicomiche)

  • Characterismus: Descrição de uma pessoa. Se esta descrição for estritamente física, a figura é chamada de effictio. Caso a descrição seja estritamente comportamental, a figura é chamada de ethopoeia.

Exemplo: "[Esposo:] Como és formosa, querida minha, como és formosa! Os teus olhos são como os das pombas e brilham através do teu véu. Os teus cabelos são como o rebanho de cabras que descem ondeantes do monte de Gileade. São os teus dentes como o rebanho das ovelhas recém-tosquiadas, que sobem do lavadouro, e das quais todas produzem gêmeos, e nenhuma delas há sem crias. Os teus lábios são como um fio de escarlata, e tua boca é formosa; as tuas faces, como romã partida, brilham através do véu. Teu pescoço é como a torre de Davi, edificada para arsenal; mil escudos pendem dela, todos broquéis de soldados valorosos. Os teus dois seios são como duas crias, gêmeas de uma gazela, que se apascentam entre os lírios... [Esposa:] O meu amado é alvo e rosado, o mais distinguido entre dez mil. A sua cabeça é como o ouro mais apurado, os seus cabelos, cachos de palmeira, são pretos como o corvo. Os seus olhos são como os das pombas junto às correntes das águas, lavados em leite, postos em engaste. As suas faces são como um canteiro de bálsamo, como colinas de ervas aromáticas; os seus lábios são lírios que gotejam mirra preciosa; as suas mãos, cilindros de ouro, embutidos de jacintos; o seu ventre, como alvo marfim, coberto de safiras. As suas pernas, colunas de mármore, assentadas em bases de ouro puro; o seu aspecto, como o Líbano, esbelto como os cedros. O seu falar é muitíssimo doce; sim, ele é totalmente desejável. Tal é o meu amado, tal, o meu esposo, ó filhas de Jerusalém."(Ct 4, 1-5; 5, 10-16)

  • Cronografia: Descrição de uma época, um evento histórico ou um evento recorrente (como estações do ano).
  • Pragmatografia: Descrição de uma ação.

Exemplo: "O meu amado meteu a mão por uma fresta, e o meu coração se comoveu por amor dele. Levantei-me para abrir ao meu amado; as minhas mãos destilavam mirra, e os meus dedos mirra preciosa sobre a maçaneta do ferrolho. Abri ao meu amado, mas já ele se retirara e tinha ido embora; a minha alma se derreteu quando, antes, ele me falou; busquei-o e não o achei; chamei-o, e não me respondeu... O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros de bálsamo, para pastorear nos jardins e para colher os lírios." (Ct 5, 4-6; 6, 2)


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Figuras de estilo/Pathopoeia

Pathopoeia consiste em um apelo apelo emocional forte.

Exemplo: "Diga ao general Howard que eu conheço seu coração. O que ele me disse antes, eu tenho no meu. Estou cansado de lutar. Nossos chefes estão mortos; Looking Glass está morto, Ta Hool Hool está morto. Os velhos estão mortos. São os jovens que dizem 'sim' ou 'não'. Aquele que liderava os jovens está morto. Está frio e não temos cobertas; as criancinhas estão congelando até a morte. Meu povo, alguns deles, correreu para as colinas e não tem cobertas, nem comida. Ninguém sabe onde estão, talvez congelando até a morte. Eu quero ter tempo de procurar meus filhos e ver quantos deles posso encontrar. Talvez eu os encontre entre os mortos. Escutem-me, meus chefes! Eu estou cansado, meu coração está doente e triste. A partir de onde o Sol está agora, eu não lutarei, nunca mais." (Hinmatóowyalahtq̓it (Chefe Joseph), discurso de rendição)


Uso na retórica: A pathopoeia é utilizada para comover a audiência. Deve-se tomar cuidado para não soar piegas ou ser demasiadamente passional em uma questão melhor tratada racionalmente.

Figuras de estilo/Laconismo

Um discurso lacônico é aquele curto, direto ao ponto e espirituoso; aquilo que os anglófonos chamam de "witticism" e os francófonos, "bon mot".

O termo se refere à Lacônia, região na Grécia na qual se localiza Esparta. Segundo o historiador grego Plutarco, os espartanos eram adeptos deste tipo de discurso.


Exemplos na cultura espartana:


"Quando Felipe [da Macedônia] escreveu aos espartano: 'se entrarmos em vossos territórios, destruiremos todos vós, para nunca mais vos erguereis'; eles o responderam com uma única palavra: 'se'." (Plutarco, De garrulitate)

"Quando alguém disse [a Leônidas] 'devido às flechas dos bárbaro, é impossível ver o Sol', ele respondeu 'não será ótimo, então, se nós lutarmos à sombra?'." (Plutarco, Apophthegmata Laconica)

"Quando Xerxes escreveu 'entreguei vossas armas', ele [Leônidas] escreveu em resposta 'vem e tome-as'." (Plutarco, Apophthegmata Laconica)

"Ao ser perguntado quanto território os espartanos controlam, ele [Arquídamo] respondeu 'tanto quanto eles alcançam com suas lanças'." (Plutarco, Apophthegmata Laconica)

"Alguém perguntou [a Licurgo] porque ele permitia sacrifícios aos deuses tão parcos e triviais. Ele repondeu 'para que sempre tenhamos algo a ofertar' (Plutarco, Vida de Licurgo)

Exemplos em outras culturas:


Zhuangzi: As carpas nadam tão livremente, seguindo as aberturas onde quer que as encontrem. Tal é a felicidade do peixe. Huizi: Tu não és um peixe, então como sabes sobre a felicidade do peixei? Zhuangzi: Tu não és eu, então como sabes que não sei sobre a felicidade do peixe?


Zen budismo

“wherever my feet take me” "where would he go if he had no feet" “where are you going?”

“wherever the wind blows”.
where he would go if there was no wind. 

“to market”!


Neodaoismo


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Falácias/Argumentum ad Hominem

Argumentum ad Hominem é tentativa de descreditar o adversário por meio de ofensas ou detalhes de sua vida sem relevância para o assunto debatido.

Exemplos:

  • Quem é você para dar conselhos matrimoniais? Você já se divorciou duas vezes!
  • É claro que você vai dizer que carne vermelha não faz mal à saúde. Você é dono de um açougue!
  • Rousseau descreve em Emílio sobre como educar crianças. Mas como podemos levar a sério neste assunto alguém que colocou todos seus filhos para a adoção?

Exceções e controvérsias

  • Se o que está em discussão é o caráter ou aptidão de uma pessoa, apontar suas falhas não consiste em falácia ad hominem.
  • Ao avaliar um testemunho, é legítimo levantar pontos que coloquem em dúvida a credibilidade da testemunha. O mesmo vale nas situações em que a credibilidade do argumento depende da credibilidade do argumentador.
  • É comum, mesmo entre filósofos, atacar ideias apontando que elas não são seguidas à risca sequer entre aqueles que as defendem. Por um lado, pode-se dizer que estes argumentos são falaciosos, uma vez que o mérito das ideias independe do fato delas terem sido aplicadas à risca. Por outro lado, pode-se atacar ideias por sua inaplicabilidade e apontar como evidência disto o fato delas não serem aplicadas sequer entre seus defensores. Àqueles que forem utilizar este tipo de argumento, tenham os seguintes pontos em mente:
    • Tenha certeza de compreender corretamente às ideias atacadas, ou, além de falácia ad hominem, corre-se o risco de incorrer em falácia do espantalho.
    • Preferencialmente, aponte as razões segundo às quais as ideias debatidas são inaplicáveis. Então, utilize o argumento como um exemplo.
  • Quando os argumentos de uma pessoa demonstram total ignorância ou falta de perspectiva sobre o assunto debatido, é comum ela receberem respostas que visam lhe conferir alguma perspectiva ou colocá-la em seu lugar. Este tipo de argumento é perigoso. Pode-se ter sucesso em fazer a pessoa tomar consciência da própria ignorância ou conferir-lhe perspectiva. Contudo, é provável que ela interprete a hostilidade como falta de razão e fique ainda mais convicta de sua posição. Além do mais, pode-se estar errado sobre a pessoa nestes casos, cometendo-se assim uma gafe enorme.

Autodefesa: Uma forma de se defender de um argumento ad hominem é por meio de paromologia, ou seja, admitir a crítica e minimizá-la:

  • Eu posso não ser um perito, mas sou informado o suficiente para ter uma opinião educada sobre o assunto.
  • Ainda que eu tenha interesse pessoal na questão, os meus argumentos tem méritos os quais você(s) é(são) capaz(es) de julgar objetivamente.

Falácias/Envenenar o poço

Envenenar o poço é uma forma de ad hominem não dirigida a alguém em específico, mas a qualquer adversário em potencial.

Exemplos:

  • A maioria dos críticos da psicanálise sofrem de problemas psicológicos e temem serem expostos por ela.
  • As pessoas contrárias ao desarmamento civil são um bando de psicopatas que desejam uma sociedade onde qualquer um possa andar por aí com um instrumento letal.
  • As pessoas favoráveis ao desarmamento civil são um bando de fascistas que querem entregar ao estado total controle sobre nossas vidas.

Falácias/Tu quoque

A falácia tu quoque é uma forma de ad hominem na qual o criticismo é retornado para o próprio crítico.

Exemplos:

  • Quem é você para criticar as coisas que eu faço? Você fez de tudo o que eu faço quando tinha a minha idade.
  • Antes de falar do meu tabagismo, vá resolver o seu problema com álcool.

Falácias/Falácia do Espantalho


Na Falácia do Espantalho, se ataca não a posição exata do adversário, mas uma versão distorcida desta, mais fácil de refutar.

Exemplo: Segundo a teoria da evolução, espécies surgem a partir de outras. Mas eu nunca vi uma gorila parir um ser humano.

Análise do Exemplo: A evolução é um processo gradual que leva muitas gerações para produzir novas espécies. Não existe sequer uma geração que possamos dizer que é de uma espécie diferente de seus progenitores. Portanto, o argumento falha em refutar a teoria da evolução darwinista.


Observação: Aquele que não expressar seu posicionamento de forma clara pode culpar ninguém além de si mesmo no caso ser mal compreendido. Inclusive, é perfeitamente legítimo utilizar a falácia do espantalho para obrigar o proponente de uma tese a elaborá-la melhor. Por exemplo:

“Trasímaco — Ouve, então. Eu digo que a justiça é simplesmente o interesse do mais forte. Então, que esperas para me aplaudir? Vais-te recusar!

Sócrates — Em primeiro lugar, deixa que eu compreenda o que dizes, porque ainda não entendi. Pretendes que justiça é o interesse do mais forte. Mas como entendes isso, Trasímaco? Com efeito, não pode ser da seguinte maneira: Se Polidamas é mais forte do que nós e a carne de boi é melhor para conservar suas forças, não dizes que, também para nós, mais fracos do que ele, esse alimento é vantajoso e ao mesmo tempo, justo?” (Platão, A República)



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Falácias/Falácia da Liberdade de Expressão


Incide na falácia da Liberdade de Expressão aquele que em sua argumentação utiliza um conceito distorcido de liberdade de expressão, como, por exemplo, ao rebater qualquer criticismo como violação da sua liberdade.

Exemplo 1:

– Homossexuais são uma abominação aos olhos de Deus!

– O seu discurso homofóbico é repulsivo.

– E daí? Eu tenho direito de expressar minha opinião! Não venha tirar este direito de mim!


Exemplo 2: O humorista perdeu seu emprego após fazer uma piada politicamente incorreta no programa que apresentava. Vê-se como a liberdade de expressão não é valorizada neste país.


Análise: A liberdade de expressão é o direito de se expressar sem ser perseguido pelo governo ou estado. Mesmo em democracias este direito tem limites. É proibido ou restrito em muitas jurisdições democráticas, por exemplo: discurso calunioso, discurso de ódio, incitação ao crime, obscenidade, propaganda enganosa, violação de propriedade intelectual, violação de privacidade, vazamento de informação confidencial etc.

Liberdade de expressão não significa o direito de não ser criticado. Muito pelo contrário, a crítica é exercício da liberdade de expressão. Também não significa direito a uma audiência. Ninguém é obrigado a lhe dar ouvidos e os meios de comunicação em massa, em geral, não são obrigados a lhe dar espaço.

Falácias/Petição de Princípio


Alguém comete falácia de Petição de Princípio (também conhecida como raciocínio circular) quando as premissas utilizadas para justificar a conclusão precisariam da mesma justificativa que a própria conclusão.

Exemplo 1: Devemos eleger Ludovico para o cargo porque ele é o mais apto.

Análise do Exemplo 1: A única razão legítima – ou seja, além de interesse pessoal, nepotismo etc. – para eleger uma pessoa para um cargo é por ela ser a mais apta. Assim, se já aceitássemos que Ludovico é o mais apto, não precisaríamos de um argumento para nos convencer elegê-lo; e se precisamos de um argumento para elegê-lo é porque ainda não o reconhecemos como o mais apto.

Exemplo 2: A boate está cheia porque entraram mais pessoas do que saíram.

Análise do Exemplo 2: Uma explicação satisfatória para o fato de uma boate estar cheia é justamente a motivação para tantos terem entrado e tão poucos terem saído.

Exemplo 3: Dado um triângulo de lados a, be c, seja θ o ângulo oposto a c, a Lei dos Cossenos diz que . Se θ for um ângulo reto temos

O que prova o Teorema de Pitágoras.

Análise do Exemplo 3: Este é um ótimo exemplo de argumento válido e com premissas verdadeiras, mas que ainda assim é um argumento ruim. A Lei dos Cossenos é um teorema da trigonometria, área da matemática que se baseia nas propriedades geométricas do triângulo retângulo. Portanto, a Lei dos Cossenos já pressupõe o Teorema de Pitágoras.

Falácias/Derrapagem


Uma derrapagem – também conhecida como ‘declive escorregadio’ ou ‘bola de neve’ – é um argumento encadeado no qual ao menos um dos elos é muito fraco, comprometendo todo argumento.

Exemplo 1: Se legalizarmos a maconha, em breve todos começariam a se drogar. Então teríamos motoristas dirigindo sob efeito da droga, médicos realizando cirurgias drogados, professores dando aulas chapados... seria a anarquia!’

Exemplo 2: Se o aborto for permitido em certos casos, em breve passará a ser permitido em qualquer caso. Não demoraria muito para que o infanticídio também passasse a ser legalizado.

Falácias/Argumentum Ad Populum


Chamamos de argumentum ad populum quaisquer argumentos que visam provar que algo é verdadeiro, bom ou correto em vista de sua popularidade; ou provar que algo é falso, ruim ou incorreto em vista da sua impopularidade.

Exemplos:

  • Mais de 2 bilhões de cristãos mundo a fora não podem estar errados.
  • Se a banda é tão ruim quanto você diz, então por que eles tem tantos fãs?
  • Este campo de estudos não deve ser muito relevante, dado que existem tão poucos pesquisadores na área.

Falácias/Argumentum Ad Consequentiam


Uma falácia de argumentum ad consequentiam pretende provar que algo é verdadeiro por ter (supostas) consequências desejáveis ou refutar algo por ter (supostas) consequências indesejáveis.

Exemplos:

  • Se a teoria da evolução for verdadeira, nós humanos não passamos de uma espécie de animal como qualquer outra, sem qualquer lugar especial na criação. Não teríamos nenhuma responsabilidade moral uns com os outros e deixar os doentes e fracos morrerem seria apenas a sobrevivência dos mais aptos em ação.
  • Deve existir vida-após-a-morte pois, se não houver nada após a morte, nada faz sentido antes dela. Todas nossas realizações morreriam conosco. Pessoas boas e más teriam o mesmo destino, a inexistência.

Falácias/Apelo à ignorância


Apelo à ignorância é tomar a falta de evidência de uma posição como evidência para a posição contrária.

Exemplo:

  • Você não é capaz de provar que Deus existe. Portanto, Deus não existe.
  • Você não é capaz de provar que Deus não existe. Portanto, Deus existe.
  • Nunca detectamos evidência de existência de vida inteligente fora da Terra. Logo, não deve existir vida inteligente alienígena.

Falácias/Apelo à autoridade


Um argumento de apelo à autoridade dá, como suporte para uma conclusão, a opinião de uma (suposta) autoridade.

Exemplos:

  • O mais proeminente físico vivo, Stephen Hawking, tem sérias preocupações quanto a possibilidade de máquinas inteligentes se voltarem contra nós. Portanto, deveríamos cortar todas as verbas destinadas para o desenvolvimento de inteligência artificial.
  • Tal celebridade usa tal produto. Portanto, nós também deveríamos comprar tal produto.

Discussão: A rigor, deveríamos sempre avaliar as razões que uma autoridade tem para defender sua posição, e não tomar o mero fato da autoridade ter a posição como uma razão desta. Contudo, existem muitas áreas de especialização que não dominamos, o que nos obriga a confiar nos especialistas destas áreas. Por exemplo, se seus conhecimentos de medicina são pífios, então você precisa confiar em uma autoridade médica quando precisar de um diagnóstico. Assim, faz necessário adotar critérios para qualificar e desqualificar pretensas autoridades. Ou seja, em algumas circunstâncias, argumentos de apelo à autoridade e ad hominem não são falaciosos. Utilize os seguintes critérios:

  • O caráter falacioso de um apelo à autoridade é inversamente proporcional a (1) a aptidão da autoridade no assunto debatido, (2) a falta de interesses pessoais da autoridade no assunto.
  • O caráter falacioso de um argumentum ad hominem é diretamente proporcional a (1) a aptidão da autoridade no assunto debatido, (2) a falta de interesses pessoais da autoridade no assunto, (3) a irrelevância do questionamento para o assunto em questão.

Falácias/Falsa dicotomia ou falso dilema

Incorre em falácia de falsa dicotomia quem presume que haja apenas duas alternativas mutuamente exclusivas e geralmente radicais, quando de fato há mais alternativas.

Exemplo 1: “Ou você está conosco, ou está com os terroristas.” (George W. Bush)

Análise do Exemplo 1: Definitivamente existem posicionamentos bem mais razoáveis além de apoiar o terrorismo ou apoiar de forma acrítica a política americana de combate ao terrorismo.

Exemplo 2: "Se Deus não existe, ninguém perde nada por acreditar n’Ele, enquanto se deus existe, perde-se tudo por não acreditar." (Blaise Pascal, Pensées)

Análise do Exemplo 2: O argumento é falacioso porque presume que as únicas alternativas são: (a) Deus não existe (b) existe um Deus que recompensaaqueles que n’Ele acreditam. E se existir um Deus que não dá a mínima importância se acreditamos ou não n’Ele? Ou ainda, um Deus que pune a crença cega ou interesseira?

Falácias/Evidência anedótica


Esta falácia consiste defender uma tese apresentando como evidência um ou alguns poucos casos particulares. O problema com este tipo de argumento é:

  • dependendo da tese defendida, alguns poucos casos não relevância estatística para suportá-la;
  • existe um fenômeno cognitivo chamado ‘viés de confirmação’, o qual consiste na tendência das pessoas em reparar e lembrar com facilidade as evidências favoráveis às suas crenças, ignorar e esquecer evidências desfavoráveis, ou ainda interpretar evidência ambígua como evidência favorável;
  • pode ser difícil verificar os casos mencionados.

Exemplo 1: Mulheres são péssimas condutoras. Hoje mesmo eu vi uma mulher fazendo barbeiragem no trânsito.

Exemplo 2: Homeopatia funciona. Eu mesmo fui curado de uma sinusite por tratamento homeopático.

Exemplo 3: Hoje foi um dia frio. Portanto, não estamos vivenciando um período de aquecimento global.

Falácias/Falácia de Composição e de Divisão

A falácia de composição é um argumento no qual, a partir da premissa que as partes [não] tem certa propriedade, conclui-se que o todo composto por estas partes [não] tem a mesma propriedade.

Exemplo 1: As nações membros da OTAN são predominantemente democráticas. Portanto, a OTAN é predominantemente democrática.

Exemplo 2: Nenhum dos membros da equipe é capaz de realizar a tarefa sozinho. Logo, a equipe não é capaz de realizar a tarefa.

A falácia de divisão é um argumento no qual, a partir da premissa que todo [não] tem certa propriedade, conclui-se que as partes que compõe o todo [não] tem a mesma propriedade.

Exemplo 1: João não gosta de feijoada. Portanto, João não deve gostar de carne de porco e nem de feijão.

Exemplo 2: A nação brasileira é sincrética e pluralista. Portanto, cada cidadão brasileiro é sincrético e pluralista.

Análise: O todo não consiste apenas na mera soma das partes, mas também na interação entre estas. Por exemplo, tanto grafite quanto diamante são feitos de carbono, mas têm rigidez, cor e condutividade elétrica distintas, pois a forma como os átomos de carbono estão ligados em cada material é distinta. Os argumentos em questão são falaciosos justamente por negligenciarem esse fato.

Exceções: Algumas propriedades consistem na somatória de suas partes, sendo o exemplo mais óbvio a massa. Nestes casos, o argumento por composição não é falacioso.

Falácias/Imprecisão deliberada ou Palavras ocas

Pode-se considerar um discurso deliberadamente impreciso como falacioso pelas seguintes razões:

  • Em geral, alegações imprecisas são difíceis de conferir, objetar ou refutar.
  • A alegação imprecisa pode ser verdadeira, mas sugerir outra coisa, talvez algo sem relevância ou falso.

Exemplo 1: Pesquisadores encontraram evidências de que no passado existiram civilizações pré-humanas na Antártica.

Análise do exemplo: Que pesquisadores? Que evidências? Quando foram achadas? Sua pesquisa foi publicada em algum lugar?

Exemplo 2: A Miskatonic University está estre as três maiores universidades de Massachusetts.

Análise do exemplo: Geralmente isto é um eufemismo para ‘terceira maior’.

Exemplo 3: A minoria das pessoas está de acordo com a resolução.

Análise do exemplo: Minoria quanto? 1%? 10%? 49,999%?

Falácias/Profundice

Uma profundice consiste em uma sentença ambígua na qual um dos sentidos é verdadeiro, mas banal; enquanto outro sentido é falso ou vazio de conteúdo.

Esta ambiguidade faz a sentença soar profunda, mesmo que ela não passe de uma bobagem. O conceito (‘deepity’ no original em Inglês) foi cunhado pelo filósofo americano Daniel Dennett.

Exemplo 1: ‘Amor’ é só uma palavra.

Análise do exemplo: Se o sujeito da sentença se refere a sequência de letras (‘a’, ‘m’, ‘o’, ‘r’) ou fonemas, então a sentença é verdadeira, o que não passa de uma banalidade. Contudo, se estivermos falando do sentimento, a sentença é falsa.

Exemplo 2: A imaginação é parte da realidade.

Análise do exemplo: Em uma interpretação trivial da sentença, ela é verdadeira, pois a imaginação é um fenômeno da mente humana e humanos estão inseridos na realidade. Contudo, na interpretação da sentença segundo a qual os elementos da imaginação se concretizam na realidade, ela é falsa (ao menos para a maior parte dos elementos da imaginação).

Exemplo 3: Não existe ‘eu’ em ‘equipe’.

Análise do exemplo: Neste caso, talvez o sentido não banal da sentença — que devemos por interesses pessoais de lado ao trabalhar em equipe — não seja falso. O problema é que a sentença é utilizada para exortar as pessoas sem oferecer qualquer argumento ou evidência além do fato de que o ditongo ‘eu’ não ocorre na palavra ‘equipe’. Ou seja, vazio de conteúdo.

Discussão e exceções: O problema com as profundices ocorre quando as pessoas, ao invés de apresentar argumentos e evidências para suas posições, utilizam meros jogos de palavras acreditando serem profundos ou sagazes. Nenhum problema jogos de palavras serem utilizados para fins literários.

Bibliografia

Créditos

Este livro é resultado do conhecimento, do empenho e da dedicação de várias pessoas, que acreditam que o conhecimento deve ser de todos os que aspiram obtê-lo, sendo a doação um ato que é recompensado pela satisfação em difundir o saber.

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