Iniciação à Pesquisa Científica em Saúde/ REPOSITÓRIO DE EXERCÍCIOS RESOLVIDOS/ Exercício 65: Glicemia capilar e Diabetes

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Questão 65 - Glicemia capilar e Diabetes[editar | editar código-fonte]

Para resolver esse desafio você deve primeiro ler o artigo científico: O Papel da Glicemia Capilar de Jejum no Diagnóstico Precoce do Diabetes Mellitus: Correlação com Fatores de Risco Cardiovascular. Cruz-Filho et al. Acessível em: link

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Faça uma análise crítica da metodologia cientifica utilizada, seguindo o roteiro:

a) Qual foi a questão da pesquisa a ser respondida, ou seja, o objetivo do estudo?

b) Como os autores planejaram o estudo: delineamento da pesquisa e grupos de estudo. A amostra foi aleatória?

c) Analise a Tabela 4. Perfil lipídico nos grupos com diabetes e intolerantes à glicose. Qual foi o teste estatístico utilizado, a hipótese nula e a interpretação do p-valor?

d) Sugira um detalhe na metodologia para melhorar a qualidade da metodologia cientifica desse estudo

Explique suas respostas e fundamente-as com referências bibliográficas.

Resposta da questão:[editar | editar código-fonte]

a)    O objetivo de um estudo, ou sua questão de pesquisa, é a incerteza que o pesquisador se propôs a investigar (3). O estudo em questão buscou determinar a confiabilidade e a eficácia  da dosagem da glicemia capilar de jejum (GCJ) para diagnóstico e screening de Diabetes Mellitus (DM), associando o diagnóstico precoce à possibilidade de reduzir os prejuízos à saúde associados à doença, tanto para impedir a evolução da intolerância à glicose para diabetes quanto para prevenir fatores de risco cardiovascular em pacientes já diabéticos através do tratamento adequado da doença.

Screening (ou rastreamento): “exame de indivíduos assintomáticos para a identificação presuntiva de doença não reconhecida anteriormente” (1).

b)    O delineamento de uma pesquisa é a maneira como ela é estruturada, em todas as suas etapas (3). O estudo em questão é observacional transversal, desenho no qual o pesquisador avalia um grupo de sujeitos em um único momento ou um curto período de tempo, define-se o grupo de estudos e investiga-se a distribuição das variáveis na amostra coletada (3). Para um pleno entendimento do assunto, são importantes ainda dois outros conceitos: a variável preditora e a variável de desfecho. No estudo transversal, esses dois tipos de variáveis não seguem uma sequência temporal, ou seja, elas não têm uma distinção quanto ao momento em que são obtidas, sendo definidas apenas segundo as hipóteses de causa-efeito do pesquisador de forma que o desfecho seja causado ou influenciado pela preditora.

No estudo em questão, o grupo de sujeitos foi inicialmente avaliado por meio da glicemia capilar em jejum, medidas antropométricas (peso, altura, cintura abdominal e quadril), aferição da pressão arterial e respostas a um questionário (que continha perguntas sobre história familiar de DM e dados pessoais). Feito isso, os indivíduos cuja GCJ foi menor ou igual a 96mg/dl foram descontinuados do estudo, e aqueles que tiveram GCJ maior que 96mg/dl prosseguiram para a segunda fase da pesquisa. Nesta fase, o grupo foi submetido a exames para avaliação da glicemia plasmática de jejum, glicemia 2 horas após 75g de dextrosol, colesterol total, HDL e triglicerídeos. Uma vez obtidos todos os dados, estes foram analisados estatisticamente pela comparação das médias e desvios-padrão de todos os parâmetros aferidos entre os indivíduos com GCJ > 96mg/dl e os demais. Sendo assim, as variáveis de desfecho podem ser definidas como o diagnóstico de DM ou de intolerância à glicose, e as variáveis preditoras são todos os parâmetros avaliados pelos pesquisadores no decorrer do projeto: idade, peso, índice de massa corporal, circunferência abdominal e do quadril, GCJ, glicemia plasmática de jejum e 2 horas após 75g de dextrosol.

A seleção de um grupo de estudos, ou amostra, deve respeitar dois princípios básicos: ser suficientemente grande e ter seus constituintes selecionados ao acaso. Somente assim será possível extrapolar os resultados da amostra selecionada para a população à qual ela pertence, de forma que a informação obtida no estudo não se restrinja apenas aos indivíduos investigados e tenham confiabilidade (4). Nesse estudo, o grupo (de 277 pessoas, sendo 202 mulheres e 55 homens) foi selecionado aleatoriamente em um posto de saúde de Niterói por meio dos seguintes critérios, que todos os indivíduos deveriam cumprir: estar em jejum, ter idade maior ou igual a 30 anos, não estar grávida e não possuir história de DM. Em outras palavras, gestação, diagnóstico prévio de DM e idade menor que 30 anos foram os critérios de exclusão.

c)     A Tabela 4 compara separadamente cada parâmetro do perfil lipídico dos indivíduos que receberam o diagnóstico de DM com aqueles que foram identificados com intolerância à glicose, mais especificamente colesterol total, HDL-colesterol, LDL-colesterol e triglicerídeos. Para se analisar os dados obtidos no estudo e determinar se estes podem ser generalizados para a população de onde a amostra foi retirada, os pesquisadores realizam um teste estatístico. Nesse processo, faz-se duas hipóteses: a primeira, conhecida como hipótese nula (H0), é de que não há diferença entre os dados, ou seja, as discrepâncias entre os valores encontrados na verdade se devem ao acaso e não à relação entre as variáveis investigadas. A outra hipótese, a alternativa (H1), é de que os dados são de fato diferentes entre si. Uma vez realizado, então, o teste estatístico fornece um p-valor, que permite determinar probabilisticamente se a hipótese nula deve ser rejeitada ou não. Por convenção, quando p < 0,05, rejeita-se a hipótese nula, o que quer dizer que a probabilidade de a diferença observada ser ao acaso é suficientemente pequena (menor do que 5%) para se afirmar que ela é verdadeira e estatisticamente significante (2, 4).

No caso do estudo em questão, foi realizado o teste t de Student, comparando as médias e desvios-padrão de cada parâmetro do perfil lipídico entre os dois grupos (DM e intolerância à glicose), tendo cada um desses parâmetros um p-valor próprio. A hipótese nula era de que o perfil lipídico dos indivíduos que receberam o diagnóstico de DM não era diferente do perfil dos intolerantes à glicose. O -valor obtido no teste estatístico mostrou que os indivíduos com DM apresentaram colesterol total mais alto e LDL-colesterol e triglicérides mais baixos (em todos esses, p < 0,01). Por outro lado, a diferença do HDL-colesterol entre os dois grupos não foi estatisticamente significante (p > 0,05).

d)    Minha primeira crítica é sobre a forma como foi feita a compilação dos dados obtidos: a seção de MATERIAL E MÉTODOS do artigo informa que, no primeiro momento do estudo, aferiu-se a pressão arterial de todos os indivíduos, um importante marcador de risco cardiovascular já que a hipertensão arterial sistêmica é o mais importante fator de risco para doença coronariana e insuficiência cardíaca (5). Todavia, nos RESULTADOS, nada se fez com essa informação, que traria uma conclusão a mais sobre a questão da pesquisa e complementaria os demais dados coletados. Além disso, eu sugeriria não descontinuar os indivíduos com GCJ < 96mg/dl logo na primeira medição realizada, visto que isso gera dados incompletos e parâmetros sem correspondência, como observado na Tabela 1, na qual não há valores de glicemia em jejum e glicemia 2h para os indivíduos GCJ < 96mg/dl que, caso presentes, poderiam oferecer um panorama ainda mais amplo da realidade investigada.

Indexadores do tema deste exercício[editar | editar código-fonte]

Comparação entre grupos amostrais em saúde

Testes de hipóteses

Teste de médias

Bioestatística computacional

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

1.     Eluf-Neto, José, & Wünsch-Filho, Victor. (2000). Screening faz bem à saúde?. Revista da Associação Médica Brasileira46(4), 310-311. https://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302000000400028.

2.     Vieira, S. (2011). Introdução à Bioestatística. Rio de Janeiro: Elsevier.

3.     Hulley, S. B., Cummings, S. R., Browner, W. S., Grady, D. G., & Newman, T. B. (2008). Delineando a Pesquisa Clínica - Uma abordagem epidemiológica. Porto Alegre: Artmed.

4.     Filho, U. D. (1999). Introdução à Bioestatística: para simples mortais. São Paulo: Negócio Editora.

5.     Simão AF, Précoma DB, Andrade JP, Correa Filho H, Saraiva JFK, Oliveira GMM, et al. Sociedade Brasileira de Cardiologia. I Diretriz Brasileira de Prevenção Cardiovascular. Arq Bras Cardiol. 2013: 101 (6Supl.2): 1-63

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