Civilização romana/A fundação mítica de Roma

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A Fundação Mítica de Roma[editar | editar código-fonte]

A fundação de Roma está rodeada de lendas. Os historiadores contam que Rômulo e o seu irmão, Remo, abandonados nas margens do Tibre pouco depois de nascerem, foram milagrosamente amamentados por uma loba saída dos bosques. Ela fora, evidentemente, enviada pelo deus Marte, que era o pai dos Gêmeos, e os Romanos, até ao final da sua história, gostarão de se chamar "os filhos da Loba". Recolhidos por um pastor, o bom Fáustulo - cujo nome é por si só um augúrio favorável, já que deriva defavere -, Rômulo e Remo foram criados por sua mulher, Acca Larentia. Por detrás dos nomes de Fáustulo e da mulher escondem-se nomes de divindades; o primeiro assemelha-se muito a Fauno, o deus pastoril que habitava os bosques do Lacio, o segundo recorda o dos deuses lares, protetores dos lares romanos, e em Roma existia mesmo um culto a uma tal Mãe dos Lares que bem poderia ter sido, afinal, a excelente ama dos Gêmeos - a não ser que, como é mais provável, a lenda tenha utilizado nomes divinos para conferir uma identidade aos seus heróis.

A cabana de Fáustulo, segundo a tradição, erguia-se no Palatino e, no tempo de Cícero, os Romanos apontavam-na orgulhosamente, ainda de pé com o seu telhado de colmo e as suas paredes de adobe. Pode pensar-se que a lenda de Fáustulo se incrustou nesta cabana, último vestígio da mais antiga aldeia de pastores que se fixaram na colina e conservada como testemunho sagrado da inocência e da pureza primitivas. A cabana do Palatino não era, de resto, a única que subsistia da Roma arcaica. Havia outra no Capitólio, em frente do templo "maior" da Cidade, o de Júpiter Muito Bom e Muito Grande, e como as lendas não tem quaisquer preocupações de coerência, garantia-se que esta cabana capitolina também abrigara Rômulo ou o seu colega na realeza, o sabino Tito Tácio. Não foi só desta vez que se multiplicaram as relíquias sagradas. No entanto, neste caso, as recordações lendárias são plenamente confirmadas pela arqueologia. Os restos de aldeias postos a descoberto no Palatino e necrópole do Fórum remontam, como demonstram os caracteres da cerâmica encontrada no local, a meados do século VIII a.e.c. e esta data corresponde à primeira ocupação do solo romano.

É sabido que, depois de adultos, os Gêmeos se fizeram reconhecer pelo avô, cujo reinado restabeleceram, e partiram para fundar uma cidade no local que tão favorável lhes fora. Para consultar os deuses, Rômulo escolheu o Palatino, berço da sua infância. Remo, porém, instalou-se do outro lado do vale do Grande Circo, no Aventino. Os deuses favoreceram Rômulo enviando-lhe o presságio extraordinário de um vôo de doze abutres. Remo, por seu lado, viu apenas seis. Coube, portanto, a Rômulo a glória de fundar a Cidade, o que fez de imediato, traçando, a roda do Palatino, um sulco com uma charrua; a terra revolvida simbolizava a muralha, o próprio sulco o fosso e, no local das portas, a charrua erguida simulava uma passagem.

É certo que os Romanos não acreditavam nesta história, mas aceitavam-na; sabiam que a sua cidade não era apenas um conjunto de casas e templos, mas um espaço de solo consagrado (o que as palavras pomerium e templum exprimem, em diversos casos), um local dotado de privilégios religiosos, onde o poder divino se encontra particularmente presente e sensível. A continuação da lenda afirmava, de forma dramática, a consagração da Cidade: Remo, trocista, escameceu da "muralha" de terra e do seu ridiculo fosso; transpô-los de um salto, mas Rômulo lançou-se sobre ele e imolou-o, dizendo: (Assim morrerá quem, de futuro, transpuser as minhas muralhas). Gesto ambíguo, criminoso, abominável, já que se tratava do assassínio de um irmão e atribuía ao primeiro rei a mancha de um parricídio, mas gesto necessário, pois determinava de forma mistica o futuro e assegurava, talvez para sempre, a inviolabilidade da Cidade. Deste sacrificio sangrento, o primeiro oferecido a divindade de Roma, o povo guardará para sempre uma recordação assustadora. Mais de setecentos anos depois da Fundação, Horácio ainda o considerará uma espécie de pecado original cujas conseqüências provocariam, inevitavelmente, a perda da cidade ao levarem os seus filhos a massacrarem-se uns aos outros.

Em todos os momentos críticos da sua história, Roma interrogar-se-á angustiadamente, julgando sentir pesar sobre si uma maldição. Tal como, ao nascer, não estivera em paz com os homens, também não o estava com os deuses. Esta ansiedade religiosa pesará sobre o seu destino. É fácil - demasiado fácil - opô-la a boa consciência aparente das cidades gregas. E, no entanto, Atenas também conhecera crimes: na origem do poder de Teseu estava o suicídio de Egeu. A própria história mítica da Grécia está tão repleta de crimes como a lenda romana, mas os Gregos devem ter considerado que o funcionamento normal das instituições religiosas bastava para apagar as maiores manchas. Orestes foi absolvido pelo Areópago, sob a presidência dos deuses. E, além disso, a mácula que Edipo inflige a Tebas é limpa pelo banimento do criminoso; o sangue que, mais tarde, correrá como expiação, será apenas o dos Labdácidas. Roma, pelo contrário, sente-se desesperadamente solidária com o sangue de Remo. Parece não ter sido capaz do otimismo grego; Roma treme, tal como mais tarde Eneias, no qual Virgilio quererá simbolizar a alma da sua pátria, tremerá perante a. expectativa de um presságio divino.

A lenda dos primeiros tempos de Roma está, assim, repleta de "sinais" que os historiadores atuais tentam decifrar. Seja qual for a origem das diferentes lendas (o rapto das Sabinas, o crime de Tarquínio, a luta dos Horácios e dos Curiácios e muitas outras), quer se trate de recordações de fatos reais, de velhos rituais interpretados ou de vestígios ainda mais antigos, provenientes de teogonias esquecidas, estes relatos refletem outras tantas convicções profundas, atitudes determinantes para o pensamento romano. É por isso que todo aquele que tente descobrir o segredo da romanidade os deve ter em conta, já que representam outros tantos estados de consciência sempre presentes na alma coletiva de Roma. Veja mais...

Referências Bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  • J. BERNARD, La Conlonisalion grecque de l'Italie méridionale et de la Sicile dans l'Antiquité, l'histoire et la légende: 2 ed., Paris, 1957;
  • J. WHATMOUGH, The Foundations of Roman Italy: Londres, 1937;
  • R. BLOCH, Le Mystère étrusque: Paris, 1957;
  • R. BLOCH, Les Origines de Rome: Paris, 1965.