A Cidade do Rio de Janeiro no Século XVII/Segunda metade

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Em 1659, monges capuchinhos franceses iniciaram a construção no morro da Conceição que viria a resultar no futuro palácio Episcopal.[1] Em 1660, teve início a revolta da Cachaça. A produção de cachaça era proibida pela coroa portuguesa, por ser uma concorrente ao vinho importado da metrópole. Porém o governo do Rio de Janeiro, visando a aumentar a arrecadação de impostos, legalizou a produção de cachaça e instituiu-lhe pesadas taxas. Revoltados contra os altos impostos de uma atividade até então sem cobrança de impostos, por ser ilegal, os donos de engenho da margem oposta da baía de Guanabara (Freguesia de São Gonçalo do Amarante, atuais municípios de São Gonçalo e Niterói) marcharam em armas até a cidade do Rio de Janeiro e depuseram o governador Tomé de Sousa Alvarenga, instituindo um novo governo, liderado por Agostinho Barbalho. Porém, no ano seguinte, o poder foi retomado por tropas vindas de São Paulo e Baía. Vale destacar que o cultivo de cana-de-açúcar e a produção de açúcar eram as principais atividades econômicas no Brasil na época.

Dos engenhos de açúcar da cidade na época, vieram os nomes de vários bairros atuais da cidade: Engenho de Dentro, Engenho Novo, Engenho da Rainha, São Cristóvão (que era o nome de um engenho de açúcar dos padres jesuítas), Tijuca (que também era o nome de um engenho[2]) etc. O próprio ícone carioca, o morro do Pão de Açúcar, foi nomeado desta forma por se assemelhar ao pão de açúcar, o bloco de açúcar que é formado durante o processo de fabricação de açúcar. O vizinho morro da Urca foi nomeado desta forma porque urca era o nome do tipo de navio utilizado na época para o transporte dos pães de açúcar para a Europa. Como o morro se localizava ao lado do morro do Pão de Açúcar, o povo passou a nomeá-lo morro da Urca.[3]

À esquerda, o Pão de Açúcar e, à direita, o morro da Urca

Como consequência da revolta da Cachaça, a produção de cachaça foi finalmente liberada, resultando em desenvolvimento econômico da região e em aumento do comércio com Angola, onde a cachaça era trocada por escravos.

Em 1663, foi lançado, ao mar, o galeão Padre Eterno, na época o maior navio do mundo. O galeão havia sido construído na Ilha do Governador, num local que passou a ser conhecido como Ponta do Galeão, originando o atual bairro do Galeão.

Em 1671, o português Antônio Caminha esculpiu uma imagem de Nossa Senhora da Glória e a colocou numa ermida de taipa no alto de um morro no começo da praia de Uruçumirim (atual praia do Flamengo). Tal ermida daria origem, no século seguinte, à igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro.[4] No mesmo ano, terminaram as obras da igreja de Nossa Senhora de Montserrat, no morro de São Bento.

Em 1673, foi criada a freguesia de Campo Grande.[5] Nesse ano, a Câmara Municipal da cidade começou a canalizar o rio Carioca em direção ao Centro da cidade, com a finalidade de abastecer, de água potável, o Centro. Os ainda toscos canais desembocavam próximo ao convento de Santo Antônio. No século seguinte, os canais seriam aperfeiçoados, com a construção do aqueduto da Carioca (os arcos da Lapa).[6]

Em 1676, com a criação da Diocese do Rio de Janeiro, a igreja de São Sebastião, no morro do Castelo, tornou-se a catedral, ou sé, da cidade. Também foi criada a freguesia de Guaratiba.[7]

Em 1679, a lagoa que se localizava no sopé do Morro de Santo Antônio foi aterrada, dando origem ao atual largo da Carioca. Para a drenagem da lagoa, foram abertos uma vala e um cano para escoamento da água, dando origem às ruas da Vala e do Cano: respectivamente, as atuais ruas Uruguaiana e 7 de Setembro.[8][9]

Nessa época, grande parte da população branca da cidade era composta por cristãos-novos, ou seja, por judeus convertidos à força ao cristianismo. Porém, como a repressão religiosa era branda, os cristãos-novos continuaram a manter suas tradições religiosas judaicas, ao lado das práticas cristãs. Os cristãos-novos da cidade se dedicavam a diferentes profissões: eram médicos, artesãos, funcionários públicos, donos de engenhos de açúcar etc.[10]

Por volta de 1680, o tesoureiro da sé, o padre Clemente Martins de Matos, comprou terrenos no atual bairro de Botafogo e nomeou o morro que limitava sua propriedade como Dona Marta, em homenagem a sua mãe, que havia falecido alguns anos antes.[11][12].

Uma interessante rua da cidade nessa época era a rua dos Ourives, que concentrava grande quantidade desses profissionais que trabalhavam a prata trazida legal ou ilegalmente do Peru (durante grande parte do século, Portugal esteve unido à Espanha através da União Ibérica. Isso favoreceu os intercâmbios comerciais através do continente, pois diminuíram os controles fronteiriços entre a América portuguesa e a espanhola[13]). Hoje, a rua tem o nome de Miguel Couto e se localiza no Centro da cidade[14]. Esses comerciantes de prata, frequentemente de nacionalidade boliviana ou peruana, construíram uma capela em homenagem a Nossa Senhora de Copacabana, a padroeira da Bolívia, sobre um rochedo na praia, dando origem ao atual bairro de Copacabana. Até então, o bairro era conhecido pelo nome tupi Sacopenapã, que significa Caminho dos Socós (um tipo de ave comum na região).[15]

A partir de 1693, o forte de Santiago passou a servir de calabouço para escravos que tivessem cometido alguma falta. Por esse motivo, a ponta na qual estava instalado o forte passou a ser chamado de ponta do Calabouço.[16]

Em 1695, uma esquadra francesa comandada por De Gennes que explorava o Atlântico Sul foi bombardeada pelas fortalezas da cidade.[17]

Em 1696, foi inaugurada a igreja de São Francisco da Prainha, no morro da Conceição. Como o nome diz, na época, a igreja se localizava à beira-mar. Atualmente, com os sucessivos aterros, a igreja se localiza bem distante do mar.[18]

Igreja de São Francisco da Prainha
Placa na fachada da igreja de São Francisco da Prainha, informando o ano do início de sua construção: 1696.

Em 1697, um caminho que atravessava um areal ao lado do morro de Santo Antônio começou a ser transformado em rua: era a rua do Egito (a atual rua da Carioca).[19]

A atual rua da Carioca

Referências