Sociologia e Comunicação/Modernidade II

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ANTHONY GIDDENS (1938 - )

No que diz respeito à vida moderna, podemos dizer que ela se revela como um “mundo em disparada” que tende a um “desenraizamento” das antigas formas comunitárias pré-modernas.

Três conjuntos de elementos contribuem para esse processo.

O primeiro deles é gerado pela separação entre espaço e tempo, ou melhor, o aparecimento de uma certa dimensão vazia de tempo que se descola da passagem do tempo ligadas ao ritmo da natureza ou ao ritmo da própria vida da comunidade.

Essa condição cria, ainda, uma percepção do espaço que se descola do lugar (da experiência direta das pessoas nos locais em que vivem). As organizações passam a depender da coordenação da ação de pessoas que estão distantes umas das outras.

Nessa nova ordem, faz-se necessária, cada vez mais, uma nova articulação entre o tempo comum dos encontros e os diferentes espaços em que as pessoas se encontram.

Tudo isso produz o que Giddens chama de  “desencaixe das instituições sociais”. Essa nova ordem social, moral, política e econômica precisa estabelecer as condições para que  novas relações institucionais de confiança e segurança sejam estabelecidas.

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Vamos explorar essa ideia.

Esse desencaixe das instituições pode ser percebido no aparecimento de um “sistema abstrato” caracterizado pela presença, cada vez maior, das chamadas “fichas simbólicas” e dos “sistemas especializados”.

SISTEMA ABSTRATO = FICHAS SIMBÓLICAS + SISTEMAS ESPECIALIZADOS

O dinheiro é a forma mais comum de ficha simbólica. Ele se torna uma espécie de equivalente universal que pode ser trocado por qualquer coisa em qualquer lugar.

Os sistemas especializados podem ser identificados na divisão social do trabalho presente no mundo moderno.

Giddens observa que o médico, o analista e o terapeuta tornam-se tão importantes como sistemas especialistas quanto um cientista, um técnico ou um engenheiro.

Tanto as fichas simbólicas (como o dinheiro) quanto os sistemas especialistas dependem de um elemento fundamental: um novo sistema de produção da confiança.

A confiança torna-se fundamental em um mundo em que as pessoas não se conhecem e relacionam-se em lugares muito distantes daqueles onde vivem ou trabalham. Ou, até mesmo, são obrigadas a confiar em pessoas que detêm um conhecimento técnico que desconhecem (médicos, mecânicos, advogados etc.)

Para que o mundo moderno não se desestruture, faz-se necessária a construção de novas arenas capazes de gerar um sentimento de segurança relativa na vida social. Uma dimensão importante dessa nova ordem moderna é que a tradição não lhe serve mais de referência.

A reflexividade passa a ser uma dinâmica importante da vida nessa nova configuração histórica. Tudo está sujeito a intensa revisãoà luz de novos conhecimentos – normalmente produzidos pelos sistemas especialistas. A ciência passa a ser uma dimensão fundamental dessa reflexividade, pois é baseada justamente no princípio da dúvida, ou seja, todo conhecimento está sujeito a revisão ou pode ser descartado diante de novas descobertas ou mudanças de paradigma.

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O próprio Eu ou o Self passa a ser construído reflexivamente. Como no mundo moderno a tradição perdeu a sua força, esse eu deve ser construído, ao menos em tese, em meio a diversas opções e possibilidades que podem ser revistas com o tempo.

Como esse Eu precisa ser construído reflexivamente, como foi dito acima, o aparecimento de “especialistas” na sua construção passam a ser cada vez mais requisitados. Quanto mais se aumentam as possibilidades de escolha, aumenta-se, também, a incerteza quanto as decisões consideradas “corretas”.

A modernidade pode ter reduzido consideravelmente os riscos em determinadas esferas da vida, mas introduziu não somente novos riscos – de que nem sequer tem ideia ainda -, mas novas formas de avalia-los e antecipa-los. Formas que não existiam em épocas anteriores.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: UNESP, 1991

GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002 (Introdução e Cap. I)

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ULRICK BECK (1944-2015)

Para o sociólogo alemão, Ulrick Beck, o mundo moderno foi caracterizado por uma simbiose histórica entre capitalismo e democracia que se apresentou como um modelo civilizatório dominante. No entanto, ele tenta avaliar os riscos que a ampliação desse modelo civilizatório em escala global pode trazer sobre o consumo dos bens naturais e sobre as culturais locais e as formas sociais de existência dos demais povos.

Nossa modernidade produziu uma Sociedade de Risco, um modelo de sociedade na qual os riscos sociais, políticos, econômicos, culturais e individuais tendem a escapar do controle e da proteção oferecido até um certo momento pelas instituições modernas. A noção de risco nem sempre foi pensada nesses termos.

Em um primeiro momento, esse modelo de sociedade produziu efeitos que não eram vistos imediatamente como ameaças à sua própria existência. Essas ameaças e riscos, algumas vezes vislumbrados, não chegavam a se tornar questões públicas e não apareciam no centro dos conflitos políticos.

Mas, há um segundo momento, quando os perigos desse modelo de sociedade industrial aparecem na agenda do debate público e dão início a uma série de conflitos não somente em termos políticos como começam a afetar uma série de decisões da vida privada.

Essas preocupações tomam, então, a forma de uma teoria social e de um diagnóstico de cultura: a noção de  “Sociedade de Risco”.

Sociedade de risco passa a designar um estágio da modernidade em que essas ameaças não apenas tornam-se visíveis como são alvos de debate público. Os padrões de desenvolvimento que vigoraram até esse momento passam a ser questionados.

É preciso definir, então, uma autolimitação a eles e reconfigurar todos os parâmetros até então conhecidos de responsabilidade, segurança, avaliação, controle de danos e distribuição das responsabilidades. No entanto, uma questão torna-se fundamental: como avaliar as ameaças e os danos uma vez que eles, muitas vezes, escapam à nossa percepção, à nossa imaginação ou, até mesmo, à própria ciência.

Percebe-se, então que a definição da ameaça e do perigo é uma construção cognitiva e social.

Essa construção só se torna possível a partir do momento que a sociedade e suas instituições tornam-se reflexivas, transformando-se em um “problema” para elas mesmas. Uma sociedade que precisa imaginar os riscos que gera, encontrar formas de dimensioná-los e avaliar os controles possíveis que serão exigidos para enfrentá-los.

Um conflito involuntário entre engenheiros de segurança e especialistas em seguros indicam como essa nova ordem funciona: qualquer risco poderia ser plenamente dimensionado e tornar-se alvo de um “seguro”? (ver: Fukushima)

Encontramos especialistas capazes de produzir todos os tipos de relatórios – inclusive que se opõem. Políticos encontram resistência dos consumidores em tomadas de decisões inovadoras e esses mesmo consumidores, por outro lado, são capazes de se organizar contra políticas inadequadas das empresas. (ver filme: “Obrigado por fumar”)

Para Beck, a primeira modernidade e a modernidade da sociedade de risco estão se encontrando sem que uma parte possa ser representada na outra. Isso se traduz em políticas sem direção, muitas vezes, caóticas, marcadas por jogos de poder (com interesses de curto prazo), em práticas e arenas institucionais desgastadas (crise das formas tradicionais de participação política).

Há um esvaziamento das formas tradicionais da representação política, enquanto há um renascimento do político sob novas formas.

Assim, entramos em uma sociedade onde tudo deve ser escrutinado, as polêmicas estão em todos os níveis, tudo deve ser inspecionado, analisado em detalhes, discutido e debatido incansavelmente para que, no final, nenhuma das partes participantes do processo considere-se satisfeita com o resultado. No pior dos casos, enfrenta-se uma paralisia geral.

Estamos vendo nascer, portanto, uma modernidade de novo tipo.

Seria este o preço (transitório?) que ela nos cobra por ser uma sociedade de autocriação constante, que se julga capaz de inventar tudo, mas que não pode ter certezas sobre como fazê-lo ou quem seriam os atores dessas invenções?

É como se a sociedade de risco anunciasse a possibilidade de muitas modernidades em que sejam possíveis novas articulações entre a verdade e beleza, entre a tecnologia e arte, entre os negócios e a política etc., mas que,  no fundo, gera uma profunda indecisão sobre a direção coletiva que deveríamos tomar.

Se tudo é política, como estamos acostumados a dizer, é preciso lembrar, que na modernização reflexiva,  tudo é cultura e economia também.

BECK, Ulrick . A reinvenção da política: rumo a uma teoria da modernização reflexiva” In: GIDDENS, Anthony, BECK, Ulrick, LASH, Scott. Modernização reflexiva. São Paulo: Unesp, 1997

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ZYGMUNT BAUMAN (1925-2017)

Para o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, inspirado em uma frase de Beck, as épocas históricas poderiam ser muito bem definidas pelo tipo de “demônios íntimos” que passam a assombrá-las e atormentá-las.

Diante das questões levantadas pelo mundo contemporâneo, que ele chama de modernidade líquida, o sociólogo pergunta se as nossas respostas, nossas instituições e os nossos conceitos não se parecem mais com ‘categorias zumbi’ e ‘instituições zumbi’(‘mortas e ainda vivas’). Devemos dar a elas um enterro digno?

Ao usar o termo “modernidade líquida”, Bauman tenta identificar uma mudança no interior da própria dinâmica do mundo moderno.

Marx já dizia, no século XIX, que a burguesia havia criado um mundo em que o sagrado corria sempre o risco de ser profanado e que tudo o que nos parecia sólido se desmanchava no ar.

O mundo moderno sempre foi um mundo marcado pela mudança e pela transformação, mas em que sentido, agora, ele se tornaria líquido? Para o sociólogo, na primeira modernidade, cada mudança dava origem a novas estabilizações (sólidos) que a cada momento de revolução das forças produtivas se desmanchava.

O que há de novo, na modernidade líquida, é que não há estabilizações e os fluxos passam a ser a marcas da dinâmica social. Os fluídos tem uma outra lógica: “Os fluidos se movem facilmente. Eles  ‘escorrem’, ‘esvaem-se’, ‘respingam’, ‘transbordam’, ‘vazam’,’inundam’, ‘borrifam’, ‘pingam’; são ‘filtrados’, ‘destilados’; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos …”

Essa mobilidade é vista como leveza, como uma ordem social menos rígida, flexível, difusa e em rede.

Por isso, para quem vive nos dias de hoje, aquela primeira modernidade parece ‘pesada’, ‘sólida’, condensada e‘sistêmica’- impregnada da tendência aos sistemas totalitários. Entre os seus signos estão a fábrica fordista capaz de reduzir as atividades humanas a movimentos simples, rotineiros e predeterminados … ligada a modelos burocráticos de gestão e a uma sistema de vigilância muito particular: o panóptico.

A modernidade que nos acompanha desde os anos 1970 é outra. Ela não é mais ou menos moderna, mas moderna de um jeito diferente.

Duas características marcam essa diferença:

Em primeiro lugar, não se acredita mais que a história esteja caminhando para algum lugar (um telos) a partir de alguma forma de mudança histórica.

Em segundo lugar, ocorreu uma forma de desregulamentação e privatização daquelas tarefas coletivas atribuídas à razão humana– energias coletivas de mudança – que passaram a ser deixada à administração pessoal e individual.

A individualização da primeira fase da modernidade implicava em uma libertação ou emancipação das amarras da tradição, da dependência e da vigilância imposta pela formas comunitárias. Hoje, no entanto, ela é reduzida a um dado ou uma tarefa à qual os indivíduos estão encarregados de construir.

A identidade não é algo construído coletivamente rumo à emancipação, mas algo em constante mudança. É preciso sempre buscar tornar-se o que se é como se isso fosse uma busca apenas individual.

Resta ainda uma situação a ser analisada. Se Max Weber via no início do capitalismo uma ética do trabalho que previa um adiamento da satisfação e do prazer, o que vemos hoje não é a realização livre dos nossos desejos mas a nossa completa impossibilidade de atingir qualquer satisfação.

Isso acontece porque não vemos mais um “horizonte” para realiza-la. Não há mais uma “linha de chegada” mesmo que provisória.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. , 2001

Zygmunt Bauman. Entrevista (Youtube +PDF)/Zygmunt Bauman. Entrevista (Observatório da Imprensa)

Giles Lipovetsky. Rumo ao turboconsumidor

Stuart Hall. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade cap.1