Sociologia e Comunicação/Modernidade I

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Nesta postagem vamos encontrar algumas formas de abordagem do mundo moderno.

Vamos falar de novos modos de produção, novas formas de circulação de bens e pessoas e novas formas de consumo. Vamos falar, ainda, das diversas formas de se pensar essas transformações.

As mudanças morais e políticas, socio-econômicas, cognitivas, sensoriais. Quanto a essas mudanças sensoriais vamos ver como são abordadas por Walter Benjamin, um influente intelectual que nos ajudou a pensar a modernidade e a experiência urbana.

No final do texto, vamos encontrar algumas impressões e observações irônicas feitas pelo escritor João do Rio sobre a modernização do Rio de Janeiro.


Vamos começar falando das transformações pela qual passa esse mundo moderno.

a) um novo modo de produção baseado na “maquinaria”, na fábricas, na produção industrial “em massa” é produzido em meio a uma série de conflitos sociais entre o capital e o trabalho

b) um novo modo de circulação de bens e informações que produz mudanças radicais nos sistema de transporte “de massa” e nos sistemas de transmissão de informação (telefone, telégrafo, imprensa etc.)

c) novos espaços e modos de consumo, baseados nos centros de compras, na publicidade e no consumo “de massa”

Todas essas transformações podem ser complementadas por algumas outras abordagens. Para Ben Singer, em Modernidade, Hiperestímulo e o Início do Sensacionalismo Moderno, a modernidade pode ser pensada a partir das transformações produzidas em várias esferas da vida:

a) na ordem moral e política, ao representar uma força de ruptura com o mundo tradicional, suas normas e valores e produzir uma centralização do poder político nos chamados Estados-Nação e todo o seu sistema de representação, o individualismo de ordem liberal etc,

b) na ordem cognitiva. ao acentuar o desenvolvimento de um tipo particular de racionalidade (a racionalidade instrumental), o domínio da natureza por meio da técnica e pela crença na ideia de progresso . Na visão moderna da relação homem-natureza, encontramos a ênfase na sua capacidade de conhecer, prever, planejar/controlar. (o que um sociólogo como Max Weber irá chamar de “desencantamento do mundo”).

Essa vontade de controle sobre a natureza e sobre todos os aspectos da vida humana é orientada pela ideia de progresso como uma espécie de domínio sobre certas forças poderosas e desconhecidas com a finalidade de direciona-las a um propósito civilizador de emancipação do homem.

Essa crença revelou-se ingênua e suas consequências, em alguns casos, foram terríveis (desigualdade, opressão, massacres, poluição, acidentes nucleares etc.)


Se você quiser ter uma ideia de como a razão instrumental pode ser pensada nos dias de hoje, veja este artigo de Carlos Merigo. O futuro da criatividade não é “data-driven”: Em tempos de dominância do discurso racional e busca incessante por performance, precisamos reencontrar as raízes emocionais da nossa profissão


c) na ordem socio-econômica. ao alterar o modo de produção que passa assumir a forma industrial (centrada na forma capital-assalariamento) baseadas, justamente, na associação entre ciência, técnica e produção (racionalidade instrumental), centrada no mercado. Desenvolvem-se, ainda, a urbanização com uma nova rede de transportes e novos espaços de consumo. O mercadoaparece como um sistema autônomo que organiza a vida social.

d) a ordem neurológica, com alterações na estrutura da experiência como a aceleração da vida cotidiana na vida da metrópole, a experiência do choque, a presença da multidão, um bombardeio de estímulos. Esse aspecto é bastante desenvolvido em autores com Walter Benjamin e Georg Simmel. Simmel observa que, para se defender desse turbilhão de sensações, o homem urbano moderno deseenvolve uma atitude blasè.

O hiperestímulo sensorial é o meio no qual o sensacionalismo dos jornais impressos prolifera. (Singer, 2001). Benjamin observa que:

No interior de grandes períodos históricos, a forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo que seu modo de existência. O modo pelo qual se organiza a percepção humana, o meio em que ela se dá, não é apenas condicionado naturalmente, mas também historicamente (Benjamin, 1989 p. 169).

O mundo ocidental moderno promete aventura, liberdade, poder, mobilidade, velocidade, uma transformação constante de si mesmo e do mundo ao redor, fazendo com que a vida social se intensifique, mas, ao mesmo tempo, ameaçam romper com tudo o que construímos ou conhecemos de uma hora para outra.

Como Marx destaca, um mundo em que tudo o que parece sólido pode se desmanchar no ar de uma hora para outra.

Em Sobre alguns temas em Charles Baudelaire, Walter Benjamin (1989) observa que a grande cidade causava medo, repugnância e horror aos que, pela primeira vez, deparavam com ela. Mas, ao mesmo tempo, um novo processo civilizatório começa a ganhar forma.

UM SISTEMA AUTOMIZATIZADO OU VOLTADO PARA A AUTOMATIZAÇÃO DA VIDA

Esse processo civilizatório traz consigo uma série de “sintomas” identificados em um sistema que aparenta funcionar por si só,“sem atritos dos mecanismos sociais”. Constata ainda que, a cada aperfeiçoamento desse mesmo mecanismo, dever-se-ia pressupor, também, a eliminação de determinados tipos de comportamento e de certas emoções.

Para Benjamin:

O conforto isola. Por outro lado, aproxima mais do mecanismo aqueles que dele dispõem. Com a invenção dos fósforos em meados do século assiste-se à entrada em cena de uma série de inovações que têm um aspecto em comum: desencadeiam com um só gesto um processo complexo composto por uma série de momentos (Benjamin, 1989 p. 127).

Esse tipo particular de automação amplia-se para várias áreas da vida social. Isso se dá com o telefone e sua interface muito particular: um transmissor, um receptor e um discador (e todo o domínio técnico-científico sobre a conversão de sinais sonoros em sinais elétricos).

Na esteira desse processo, a fotografia desencadeia – com um simples gesto – um “choque póstumo” ao mundo. Um novo modo de arquivamento, processamento e distribuição marca essa experiência fotográfica e a posição do observador no mundo moderno.

A fotografia e as formas de reprodução técnica, em geral, são vistas como “conquistas de uma sociedade em que a atividade prática está em declínio”, em que a memória se exterioriza, demandando um novo tipo de domínio e alterando as condições de representação e fruição.

Essas novas condições de produção, circulação e recepção são um fator relevante em um mundo em que a imagem é “destacável e transportável” para onde possa ser vista. Os atores, diretores e produtores sabem que estão diante de um dispositivo técnico (a câmera), mas que sua relação é, “em última instância”, com os espectadores. Essas condições de recepção interferem, portanto, nas próprias condições de produção.

“Muito se escreveu, no passado, de modo tão sutil como estéril, sobre a questão de saber se a fotografia era ou não uma arte, sem que se colocasse sequer a questão prévia de saber se a invenção da fotografia não havia alterado a própria natureza da arte” (Benjamin, 1994 p. 176).

Precisamos lembrar que quadros nunca foram pintados para serem visto por multidões. Quando isso acontece, anuncia-se o sintoma de uma crise da pintura.

O cinema, que é um outro sistema de notação, aparece, como o sintoma dessa ampla sucessão de novas experiências óticas. A presença da técnica como elemento constitutivo da experiência moderna acaba por obrigar o sistema sensorial humano a se submeter a um treinamento complexo. Uma espécie de letramento sociotécnico.

Por mais paradoxal que possa parecer, o filme – que é produto de uma ação mecânica e técnica – é percebido como o resultado de um ato “natural” de registro do mundo, quando, de uma forma complexa, produz um tipo particular de acontecimento mediado. Do mesmo modo que o cirurgião, o cinegrafista penetra as vísceras da realidade e a recompõe segundo novas leis ao “penetrar, com os aparelhos, no âmago dessa realidade” (Benjamin, 1989 p. 187).

Mas, a câmera não é apenas uma extensão do olhar, ela abre possibilidades jamais disponíveis a ele. Não se pode ver com o olho humano aquilo que se vê com a câmera. Ela abre a possibilidade de um “inconsciente ótico” e ela nos possibilita, por meio das formas mais ou menos grotescas, enfrentar as contradições e pressões do processo civilizatório moderno.

Cafés, ruas, escritórios, quartos, estações, fábricas representavam – cada um a seu modo – novos ambientes de aprisionamento. E o que o cinema fez? Ele explode esse universo “carcerário” e altera as possibilidades de fruição pela presença do dispositivo técnico.

“O filme serve para exercitar o homem nas novas percepções e reações exigidas por um aparelho técnico cujo papel cresce cada vez mais em sua vida cotidiana. Fazer do gigantesco aparelho técnico do nosso tempo o objeto de inervações humanas – é essa a tarefa histórica cuja realização dá ao cinema seu verdadeiro sentido (Benjamin, 1994 p. 174)”

Embora as vanguardas artísticas tenham explorado as “inervações” entre as técnicas e os sentidos humanos, o cinema foi considerado fundamental para o “treinamento perceptivo” das massas nesse novo mundo. Para Furtado (2007), o cinema foi acolhido não apenas como um entretenimento barato e acessível, mas como uma espécie de passaporte para o mundo moderno e sua nova ordem maquínica.

Com a imprensa, ocorre o mesmo. Um número cada vez maior de leitores passa a entrever a possibilidade de se tornar um escritor e, para Benjamin, a diferença essencial entre autor e público “está a ponto de desaparecer. Ela se transforma numa diferença funcional e contingente. A cada instante, o leitor está pronto a converter-se num escritor”(Benjamin, 1989 p. 184).

Na relação com as máquinas, os operários também são obrigados a um novo tipo de “adestramento” que se desenvolve a partir de “instruções” que vêm de fora de sua experiência. Reduzido a um otimizador de tarefas específicas e isoladas de um sistema, o trabalhador vê-se “domesticado” pela máquina.

Essa uniformidade do processo de automação afeta o comportamento social, a sociabilidade moderna – o keep smiling, recomendado como técnica corporal para o homem moderno, funciona como um “amortecedor gestual”.

Entretanto, não se deve esquecer, também, que a “proletarização dos homens contemporâneos e a crescente massificação são dois lados do mesmo processo” e que massa, guerra, fascismo, proletarização integram-se a um novo processo domesticação e estetização da política. A “massa” para Benjamin produz um “novo modo de participação”.

A multidão é vista, também, como outro sintoma do processo civilizatório e é acompanhada, quase sempre, de uma reação moral e, ao mesmo tempo, estética. A multidão e a metrópole complementam-se de forma tão marcante que, na poesia de Baudelaire, ela não é praticamente descrita. É o ambiente em que a vida moderna está mergulhada e, como ambiente, tende a desaparecer.

Esse movimento assume uma forma paradoxal: por um lado, anuncia uma nova estética e uma nova promessa civilizatória, trazida pelo progresso e pelas possibilidades de uma ordem mecânica e, por outro, deixa entrever a desumanização e abertura das comportas de pulsões destrutivas dessa própria humanidade refundada. A sedução e o dilaceramento marcam, profundamente, a literatura desse momento. Quando não, a ironia.

A MODERNIDADE NOS TRÓPICOS

Agora, vale muito a pena conhecer algumas observações e impressões feitas pelo escrito João do Rio sobre a modernidade na cidade do Rio de Janeiro.

Em A vida vertiginosa, coletânea de crônicas de João do Rio, pode ser encontrada a crônica A era do automóvel, anunciando a chegada desse novo aparato móvel à cidade do Rio de Janeiro do início do século.

João do Rio observa que o seu irrompimento nas ruas da cidade do Rio de Janeiro “tudo transformou com aparências novas e novas aspirações”. Para que fosse possível vislumbrar a chegada dessa Nova Era, foi necessária, antes de mais nada, a total transfiguração da cidade. E essa transfiguração veio sob os “tantãs do Satanás” e fez “surgir as avenidas” e “cair as taxas aduaneiras” que permitiram ao automóvel fazer a sua entrada no mundo moderno.

A imprensa é vista como um dispositivo de treinamento dos leitores nos conhecimentos da nova ordem maquínica. Eles são os “arautos do progresso”. A apropriação social dos novos aparatos não passa despercebida por eles. Ela fica clara na revelação do esnobismo dos “precursores da era automobilística”.

O automóvel aparenta carregar propriedades “técnicas” muito particulares: a atração por parte do sexo oposto. Ele é sedutor. Ele é a tradução dos valores da era da velocidade e da “delirante e inebriante época de fúria de viver, subir e gozar”. Agora, é preciso acabar logo. E completa: somos todos “motoristas morais”.

João do Rio observa que a metrópole e o automóvel fazem parte de um mesmo sistema. Ele é a demanda civilizatória de uma era que se anuncia a partir de um objeto cultural-sócio-técnico:

“O automóvel ritmiza a vida vertiginosa, a ânsia das velocidades, o desvario de chegar ao fim, os nossos sentimentos de moral, de estética, de prazer, de economia, de amor” (Rio, 2006 p. 9).

É urgente guiar o seu próprio veículo, apropriar-se dele, fazer do aparato técnico o objeto de inervações humanas, como destacou tempos depois Walter Benjamin. A paisagem desaparece diante da velocidade e o mundo natural prostra-se diante do aparato técnico com inveja: “A natureza recolhe-se humilhada” (Rio, 2006 p. 13).

Outra surpresa causada pelo automóvel é o “tipo novo que ele cria”. A sua medialidade atinge a linguagem: F.I.A.T. 60 HP (Fabrica Italiana de Automóveis de Turim – carro com 60 cavalos de potência); A.C.B. (Automóvel Clube do Brasil) etc. Entre acrônimos e abreviações, esse artefato móvel impõe a sua própria forma de expressão.

Essa mesma análise aparece em outra coletânea de crônicas reunidas sob o título: “O Cinematógrafo”. Eis que nada se faz mais com tempo, tudo se faz com “falta de tempo”. O carro, o fonógrafo e a imprensa, mas, antes de tudo, o cinematógrafo anuncia uma etapa dessa evolução moderna que culmina no homo cinematographicus: “Nós somos uma delirante sucessão de fitas cinematográficas. Em meia hora de sessão tem-se um espetáculo multiforme e assustador cujo título geral é: – Precisamos acabar depressa (Rio, 2009 p. 268)”

O cinematógrafo é a tradução da imaginação para o homem moderno e sua vida não passa de uma sucessão de fitas cinematográficas:

Tudo quanto o ser humano realizou não passa de uma reprodução ampliada da sua própria máquina e das necessidades instintivas dessa máquina. O cinematógrafo é uma delas” (João do Rio, 2006 p.5).

Ben Singer. Modernidade, Hiperestímulo e o início do sensacionalismo moderno

Outra versão do mesmo texto (uma página por folha): Modernidade, Hiperestímulo e o início do sensacionalismo moderno

+ referências


CRÔNICA/POESIA Leia ao menos um dos textos.

João do Rio. O automóvel (incrível capacidade de observação de João do Rio sobre o significado do automóvel no mundo moderno. As mudanças que o automóvel anuncia)

_________. Pressa de Acabar (O cinematógrafo) Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).

Terra desolada – T.S. Elliot

Ode Triunfal (incrível tradução da experiência moderna)

Manifesto Futurista – Marinetti

Moving Pictures: Magic Lanterns, Portable Projection, and Urban Advertising in the Nineteenth Century – Dec 19, 2016 By: Ellery E. Foutch – Volume 1, Issue 4 – © 2016 Johns Hopkins University Press

Ser moderno – Vinícius de Moraes (Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 31/12/1969)


Para entender a modernidade e o modo pelo qual o cinema passa pelo tema. Raimo Benedetti conta o que é o Cinema das Atrações

Propagandas (século XIX)

Government corruption and the Progressive Era

A Mobilidade como objecto sociológico – Emília Rodrigues Araújo

O que é FoMO? ‘Fear of missing out’ revela o medo de ficar por fora nas redes sociais – Isabela Giantomaso – TechTudo, 27/05/2017

Ramadã, uma preocupação para o Liverpool e sete seleções que vão à Copa – Luís Augusto Monaco – Chuteira F.C. 06/05/2018


Sinal Fechado - Paulinho da Viola

Olá, como vai ? / Eu vou indo e você, tudo bem ?/Tudo bem eu vou indo correndo

Pegar meu lugar no futuro, e você ?/Tudo bem, eu vou indo em busca

De um sono tranquilo, quem sabe …/Quanto tempo… pois é…/Quanto tempo…

Me perdoe a pressa/É a alma dos nossos negócios

Oh! Não tem de quê/Eu também só ando a cem

Quando é que você telefona ?/Precisamos nos ver por aí

Pra semana, prometo talvez nos vejamos/Quem sabe ?/Quanto tempo… pois é… (pois é… quanto tempo…)

Tanta coisa que eu tinha a dizer/Mas eu sumi na poeira das ruas

Eu também tenho algo a dizer/Mas me foge a lembrança

Por favor, telefone, eu preciso/Beber alguma coisa, rapidamente

Pra semana/O sinal …/Eu espero você/Vai abrir…

Por favor, não esqueça,/Adeus…


Seria possível pensar o moderno e o tradicional neste trecho da música de Zé Geraldo?

Zé Geraldo : Reciclagem

“A moda na cidade é grande O medo é grande também A corrida do cheque encoberto O saldo não teve e não tem Os valores trazidos da terra Enfrentando as cancelas Do “pode-não-pode” A força falsa de um cartão de crédito Ao invés de um fio de bigode”