Sociologia e Comunicação/Modernidade I

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Uma Nova Ordem Mundial[editar | editar código-fonte]

Vamos começar falando das transformações pela qual passa esse mundo moderno.

Para Ben Singer, em Modernidade, Hiperestímulo e o Início do Sensacionalismo Moderno, a modernidade pode ser pensada a partir das transformações produzidas em várias esferas da vida:

a) na ordem moral e política, ao representar uma força de ruptura com o mundo tradicional, suas normas e valores e produzir uma centralização do poder político nos chamados Estados-Nação e todo o seu sistema de representação, o individualismo de ordem liberal etc,

b) na ordem cognitiva. ao acentuar o desenvolvimento de um tipo particular de racionalidade (a racionalidade instrumental), o domínio da natureza por meio da técnica e pela crença na ideia de progresso . Na visão moderna da relação homem-natureza, encontramos a ênfase na sua capacidade de conhecer, prever, planejar/controlar. (o que um sociólogo como Max Weber irá chamar de desencantamento do mundo).

Essa vontade de controle sobre a natureza e sobre todos os aspectos da vida humana é orientada pela ideia de progresso como uma espécie de domínio sobre certas forças poderosas e desconhecidas com a finalidade de direciona-las a um propósito civilizador de emancipação do homem.

Essa crença revelou-se ingênua e suas consequências, em alguns casos, foram terríveis (desigualdade, opressão, massacres, poluição, acidentes nucleares etc.)

c) na ordem socioeconômica. surge um novo modo de produção baseado na “maquinaria”, na fábricas, na produção industrial “em massa”, sustentando em uma série de conflitos sociais entre o capital e o trabalho (ver: Revolução Industrial).

Essa nova ordem gera um tipo particular de mobilidade, o fenômeno da urbanização, o que demanda um novo sistema de circulação de bens, pessoas e informações com mudanças radicais nos sistema de transporte “de massa” e nos sistemas de comunicação (telefone, telégrafo, imprensa etc.)

Surgem novos espaços e modos de consumo, baseados nos centros de compras, na publicidade e no consumo “de massa”. O mercado aparece como um sistema autônomo que organiza a vida social. Quase tudo, nessa nova ordem, tende a assumir a forma de mercadoria e a ser disponibilizada nesse espaço que é o mercado no qual pode ser comprada ou vendida.

d) na ordem neurológica, com alterações na estrutura da experiência como a aceleração da vida cotidiana na vida da metrópole, a experiência do choque, a presença da multidão e um bombardeio de estímulos. Esse aspecto é bastante desenvolvido em autores com Walter Benjamin e Georg Simmel.

Georg Simmel (1858-1918)


Em meio à turbulência sem precedente do tráfego, barulho, painéis, sinais de trânsito, multidões que se acotovelam, vitrines e anúncio da cidade grande, o indivíduo defrontou-se com uma nova intensidade de estimulação sensorial. A metrópole sujeitou o indivíduo a um bombardeio de impressões, choques e sobressaltos. O ritmo da vida também se tornou mais frenético, acelerado pelas novas formas de transporte rápido, pelos horários prementes do capitalismo moderno e pela velocidade da linha de montagem.” (Mike Featherstone . O flâneur, a cidade e a vida pública virtual).


O sociólogo Georg Simmel constata que, para se defender desse turbilhão de sensações, o homem urbano moderno tende a desenvolver uma atitude blasè.

Esse mesmo hiperestímulo sensorial é o meio no qual o sensacionalismo dos jornais impressos prolifera. (Singer, 2001).

Para entender essa transformação é preciso seguir os passos de Walter Benjamin e observar que:

No interior de grandes períodos históricos, a forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo que seu modo de existência. O modo pelo qual se organiza a percepção humana, o meio em que ela se dá, não é apenas condicionado naturalmente, mas também historicamente (Walter Benjamin, Obras Escolhidas III p. 169).

O mundo ocidental moderno promete aventura, liberdade, poder, mobilidade, velocidade, uma transformação constante de si mesmo e do mundo ao redor, fazendo com que a vida social se intensifique, mas, ao mesmo tempo, ameaçam romper com tudo o que construímos ou conhecemos de uma hora para outra.

Como Karl Marx destaca, um mundo em que tudo o que parece sólido pode se desmanchar no ar de uma hora para outra.

Em Sobre alguns temas em Charles Baudelaire, Walter Benjamin (1989) destaca que a grande cidade causava medo, repugnância e horror aos que, pela primeira vez, deparavam-se com ela. Mas, ao mesmo tempo, ela era um espaço de sonho e fantasia. Uma estranha fantasmagoria. Um novo processo civilizatório que começava a ganhar forma.

A Técnica e a Vida Automatizada[editar | editar código-fonte]

Esse processo civilizatório traz consigo uma série de “sintomas” identificados em um sistema que aparenta funcionar por si só,“sem atritos dos mecanismos sociais”. Para Benjamin:

O conforto isola. Por outro lado, aproxima mais do mecanismo aqueles que dele dispõem. Com a invenção dos fósforos em meados do século assiste-se à entrada em cena de uma série de inovações que têm um aspecto em comum: desencadeiam com um só gesto um processo complexo composto por uma série de momentos (Walter Benjamin, Obras Escolhidas III p. 127).

Ele constata, ainda, que a cada aperfeiçoamento desse mesmo mecanismo, dever-se-ia pressupor, também, a eliminação de determinados tipos de comportamento e de certas emoções. Nossas emoções e sensações são históricas e socialmente construídas.

Walter Benjamin (1892-1940)

Esse tipo particular de automação amplia-se para várias áreas da vida social. Isso se dá com o telefone, um aparelho muito particular que envolve um transmissor, um receptor e um discador (e todo o domínio técnico-científico sobre a conversão de sinais sonoros em sinais elétricos).

Na esteira desse processo, a fotografia desencadeia – com um simples gesto – um “choque póstumo” ao mundo. Um clique.

Um novo modo de produção, processamento, arquivamento e distribuição da imagem (fotografia e cinema) está em curso, mudando a posição do observador no mundo moderno.

A fotografia e o cinema[editar | editar código-fonte]

A fotografia e os demais dispositivos de reprodutibilidade técnica são vistos como “conquistas de uma sociedade em que a atividade prática está em declínio”, em que a memória se exterioriza. Esse novo mundo demanda um novo tipo de controle e altera radicalmente as condições de representação e fruição dos bens culturais. A foto salva o momento que se perde.

Essas novas condições de produção, circulação e recepção da imagem são um fator relevante em um mundo em que ela é “destacável e transportável” para onde possa ser vista.

No cinema, os atores sabem que estão diante de um dispositivo técnico (a câmera), mas a sua relação é, “em última instância”, com os espectadores. Eles representam para as câmeras, imaginando um público que não pode estar ali presente (como no teatro).

Essas condições de recepção interferem, portanto, nas próprias condições de produção e consumo dos filmes.

“Muito se escreveu, no passado, de modo tão sutil como estéril, sobre a questão de saber se a fotografia era ou não uma arte, sem que se colocasse sequer a questão prévia de saber se a invenção da fotografia não havia alterado a própria natureza da arte” (Walter Benjamin, Obras Escolhidas III p. 176).

Precisamos lembrar que quadros nunca foram pintados para serem visto por multidões. Quando isso acontece, devemos pensar se não estamos diante de um sintoma: a própria crise da pintura como era conhecida. Ela precisa encontra um novo "lugar" na vida moderna.

O cinema aparece, como o sintoma dessa ampla sucessão de novas experiências óticas (descobertas na área da física e da engenharia). A presença da técnica como elemento constitutivo da experiência moderna acaba por obrigar o sistema sensorial humano a se submeter a um treinamento complexo. Uma espécie de letramento sociotécnico. É preciso aprender a ver filmes. É preciso aprender a ver-se nos filmes.

É muito interessante pensar que a câmera fotográfica ou cinematográfica não é apenas uma extensão do olhar, ela abre possibilidades jamais disponíveis a ele. Não se pode ver com o olho humano aquilo que se vê com a câmera. Walter Benjamin chama isso de um "inconsciente ótico"

Se os cafés, escritórios, quartos, estações, fábricas representavam – cada um a seu modo – novos ambientes de aprisionamento, o que o cinema fez?

Ele explodiu esse universo “carcerário” e alterou as possibilidades de mergulhar em novas experiências-narrativas.

“O filme serve para exercitar o homem nas novas percepções e reações exigidas por um aparelho técnico cujo papel cresce cada vez mais em sua vida cotidiana. Fazer do gigantesco aparelho técnico do nosso tempo o objeto de inervações humanas – é essa a tarefa histórica cuja realização dá ao cinema seu verdadeiro sentido (Walter Benjamin, Obras Escolhidas III p. 174)”

Embora as vanguardas artísticas tenham explorado as “inervações” entre as técnicas e os sentidos humanos, o cinema foi considerado fundamental para o “treinamento perceptivo” das massas nesse novo mundo. Para Furtado (2007), o cinema foi acolhido não apenas como um entretenimento barato e acessível, mas como uma espécie de passaporte para o mundo moderno e sua nova ordem mecânica do mundo.

A imprensa[editar | editar código-fonte]

Com a imprensa, ocorre o mesmo. Um número cada vez maior de leitores passa a entrever a possibilidade de se tornar um escritor e, para Benjamin, a diferença essencial entre autor e público “está a ponto de desaparecer. Ela se transforma numa diferença funcional e contingente. A cada instante, o leitor está pronto a converter-se num escritor”(Benjamin, 1989 p. 184).

Na relação com as máquinas, os operários também são obrigados a um novo tipo de “adestramento” que se desenvolve a partir de “instruções” que vêm de fora de sua experiência. Reduzido a um otimizador de tarefas específicas e isoladas de um sistema, o trabalhador vê-se “domesticado” pela máquina.

Essa uniformidade do processo de automação afeta o comportamento social, a sociabilidade moderna – o keep smiling, recomendado como técnica corporal para o homem moderno, funciona como um “amortecedor gestual”.

Entretanto, não se deve esquecer, também, que a “proletarização dos homens contemporâneos e a crescente massificação são dois lados do mesmo processo” e que massa, guerra, fascismo, proletarização integram-se a um novo processo domesticação e estetização da política. A “massa” para Benjamin produz um “novo modo de participação”.

A multidão é vista, também, como outro sintoma do processo civilizatório e é acompanhada, quase sempre, de uma reação moral e, ao mesmo tempo, estética. A multidão e a metrópole complementam-se de forma tão marcante que, na poesia de Baudelaire, ela não é praticamente descrita. É o ambiente em que a vida moderna está mergulhada e, como ambiente, tende a desaparecer.

Esse movimento assume uma forma paradoxal: por um lado, anuncia uma nova estética e uma nova promessa civilizatória, trazida pelo progresso e pelas possibilidades de uma ordem mecânica e, por outro, deixa entrever a desumanização e abertura das comportas de pulsões destrutivas dessa própria humanidade refundada. A ambivalência entre a sedução e o dilaceramento marca, profundamente, a literatura desse momento. Quando não, a ironia.

A Modernidade nos Trópicos[editar | editar código-fonte]

João do Rio 2.jpg

Agora, vale muito a pena conhecer algumas observações e impressões feitas pelo escritor João do Rio sobre a modernidade na cidade do Rio de Janeiro.

Em A vida vertiginosa, coletânea de crônicas de João do Rio, pode ser encontrada a crônica A era do automóvel, anunciando a chegada desse novo aparato móvel à cidade do Rio de Janeiro do início do século.

João do Rio observa que o seu aparecimento nas ruas da cidade do Rio de Janeiro “tudo transformou com aparências novas e novas aspirações”. Para que fosse possível vislumbrar a chegada dessa Nova Era, foi necessária, antes de mais nada, a total transfiguração da cidade.

E essa transfiguração veio sob os “tantãs do Satanás” e fez “surgir as avenidas” e “cair as taxas aduaneiras” que permitiram ao automóvel fazer a sua entrada no mundo moderno.

A imprensa é vista como um dispositivo de treinamento dos leitores nos conhecimentos da nova ordem mecânica. Eles são os “arautos do progresso”. A apropriação social dos novos aparatos não passa despercebida por eles. Ela fica clara na revelação do esnobismo dos “precursores da era automobilística”.

O automóvel aparenta carregar, ainda, propriedades “técnicas” muito particulares como a atração por parte do sexo oposto. Ele é sedutor.

Ele é a tradução dos valores da era da velocidade e da “delirante e inebriante época de fúria de viver, subir e gozar”. Agora, é preciso acabar logo. E João do Rio completa: somos todos “motoristas morais”.

Ele observa que a metrópole e o automóvel fazem parte de um mesmo sistema.

“O automóvel ritmiza a vida vertiginosa, a ânsia das velocidades, o desvario de chegar ao fim, os nossos sentimentos de moral, de estética, de prazer, de economia, de amor” (Rio, 2006 p. 9).

O domínio sobre a natureza e o tempo é evidente. A paisagem desaparece diante da velocidade e o mundo natural prostra-se diante do aparato técnico com inveja: “A natureza recolhe-se humilhada” (Rio, 2006 p. 13).

Essa mesma análise aparece em outra coletânea de crônicas reunidas sob o título: “O Cinematógrafo”.

Eis que nada se faz mais com tempo, tudo se faz com “falta de tempo”.

O carro, o fonógrafo e a imprensa, mas, antes de tudo, o cinematógrafo anuncia uma etapa dessa evolução moderna que culmina no homo cinematographicus:

“Nós somos uma delirante sucessão de fitas cinematográficas. Em meia hora de sessão tem-se um espetáculo multiforme e assustador cujo título geral é: – Precisamos acabar depressa (Rio, 2009 p. 268)”

O cinematógrafo é a tradução da imaginação para o homem moderno e sua vida não passa de uma sucessão de fitas cinematográficas. Em uma frase que antecipa Marshall McLuhan ("os meios como extensões do homem"), destaca:

Tudo quanto o ser humano realizou não passa de uma reprodução ampliada da sua própria máquina e das necessidades instintivas dessa máquina. O cinematógrafo é uma delas” (João do Rio, 2006 p.5).

Referências Bibliográficas[editar | editar código-fonte]

BENJAMIN, Walter. Walter Benjamin, Obras Escolhidas III: Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo . São Paulo, Brasiliense, 1994

_________________. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios de literatura e história da cultura. São Paulo: brasiliense, 1994 - Obras Escolhidas v.1)

(PDF) CULTURAL TECHNIQUES AND THE MATERIALITY OF COMMUNICATION: contributions to a Digital Literacy (paper translated). Available from: https://www.researchgate.net/publication/329075580_CULTURAL_TECHNIQUES_AND_THE_MATERIALITY_OF_COMMUNICATION_contributions_to_a_Digital_Literacy_paper_translated [accessed Dec 17 2018].

(PDF) CULTURAL TECHNIQUES AND THE MATERIALITY OF COMMUNICATION: contributions to a Digital Literacy (paper translated). Available from: https://www.researchgate.net/publication/329075580_CULTURAL_TECHNIQUES_AND_THE_MATERIALITY_OF_COMMUNICATION_contributions_to_a_Digital_Literacy_paper_translated [accessed Dec 17 2018].

PIERUCCI, Antonio Flávio. O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito. São Paulo: Editora 34, 2004

SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. MANA 11(2):577-591, 2005

SINGER, Ben. Modernidade, Hiperestímulo e o início do sensacionalismo moderno. In: CHARNEY, Leo & SCHWARZ, Vanessa R. (Org.). O cinema e a invenção da vida moderna. Editora Cosac Naify, 1ª edição, 2010.

Leopoldo Waizbort. Gerog Simmel: sociabilidade e o moderno estilo de vida


CRÔNICA/POESIA Leia ao menos um dos textos.

João do Rio. O automóvel (incrível capacidade de observação de João do Rio sobre o significado do automóvel no mundo moderno. As mudanças que o automóvel anuncia)

_________. Pressa de Acabar (O cinematógrafo)

Ode Triunfal - Álvaro de Campos (incrível tradução da experiência moderna pelo heterônomo de Fernando Pessoa)

Terra desolada – T.S. Elliot

Manifesto Futurista – Marinetti

Moving Pictures: Magic Lanterns, Portable Projection, and Urban Advertising in the Nineteenth Century – Dec 19, 2016 By: Ellery E. Foutch – Volume 1, Issue 4 – © 2016 Johns Hopkins University Press

Ser moderno – Vinícius de Moraes (Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 31/12/1969)