Filosofia da mente/Primeira aproximação

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O domínio do mental[editar | editar código-fonte]

Vamos começar esboçando um mapa da mente. Trata-se de um mapa que podemos esboçar sem nos deslocarmos para lugar nenhum, pois cada um de nós está equipado com aquilo que será descrito. (Alguns diriam que a proximidade distorce nossa visão do objeto, mas podemos deixar isso de lado por enquanto.)

Que tipos de fenômenos são considerados mentais? O que conta como evidência em favor da presença de uma mente? Eis alguns exemplos comuns de fenômenos mentais:

aprendizado, ter noção de alguma coisa, representar alguma coisa, consciência, sonho, felicidade, ter uma opinião, imaginar, amar, perceber, acreditar, escolher, decidir, se emocionar, sentir, ter a experiência do livre-arbítrio, planejar escrever um texto, perceber, agir, construir, avaliar, contar os dias até as próximas férias, sentir dor, entender uma piada, ouvir música, introspectar, sentir prazer, raciocinar, conhecer uma língua, refletir, sentir raiva, lembrar, falar, pensar, querer

A lista acima é caótica, pois coloca no mesmo plano fenômenos mais gerais e fenômenos mais específicos. Por exemplo, sentir é mais geral do que sentir dor. Ela também inclui fenômenos que nem sempre são considerados estritamente mentais, como a ação e a construção, as quais muitas vezes são consideradas como resultados do mental, não como fenômenos mentais. Ainda assim, a lista é útil, pois apresenta, em vários níveis de generalidade, aquilo que normalmente consideramos como evidência da presença de uma mente. Podemos dizer, em uma primeira aproximação, que a lista acima apresenta vários fenômenos que pertencem ao domínio do mental. Trata-se de uma expressão vaga que refere a um grupo extremamente heterogêneo de fenômenos, mas ela nos permitirá ter uma visão mais clara da mente.

Tipos de itens mentais[editar | editar código-fonte]

Mapas não se limitam a listar elementos. Eles estabelecem relações entre os mesmos. Do mesmo modo, podemos apresentar relações entre os elementos do domínio do mental listados acima.

Podemos estabelecer, em primeiro lugar, que há dois grandes grupos de itens. Uns são apresentados através de verbos, e outros através de nomes. Aqueles apresentados através de verbos parecem ser atividades, e os outros apresentados através de nomes parecem ser produtos de atividades. Por exemplo, pensar e refletir e querer parecem ser atividades, e pensamento, reflexão e vontade ou escolha parecem ser produtos.

Quanto às atividades mentais, as mesmas podem ser divididas em três subgrupos: e as experiências, as tomadas de posição, e as ações. Podemos relacionar produtos mentais a tais atividades:

  • às experiências correspondem produtos da consciência: sentir dor, felicidade, prazer etc.
  • às tomadas de posição correspondem a atitudes mentais: querer ir ao cinema, a acreditar que a água molha etc.
  • às ações mentais correspondem a ações concretas: construir uma casa, chamar um táxi etc.

Experiência e consciência[editar | editar código-fonte]

É comum que se tome a consciência de alguma coisa como a principal atividade da mente. Para muitos, o que a mente faz é principalmente estar ciente dos estados do corpo e que dos estados do mundo.

Não é raro que a consciência seja apresentada como algo "de dentro", "interior". A consciência muitas vezes é representada como um show, um teatro ou um cinema interior.

Todavia, tal representação da consciência é problemática. Afinal, se a consciência é uma espécie de teatro interior, o que é o indivíduo que o assiste? Parece que ele precisa ser a própria peça, além de espectador, para que a metáfora da mente como teatro faça algum sentido.

A natureza da consciência é um dos principais temas de debate da filosofia da mente. Veremos algumas propostas de solução para o mesmo nos módulos posteriores. Para o momento o basta que nos demos conta das dificuldades que encontramos quando lidamos com metáforas bastante comuns, tal como a metáfora da mente como um teatro.

Atitudes[editar | editar código-fonte]

Podemos tomar a palavra atitude em dois sentidos. No primeiro sentido, a atitude é o comportamento, ou ao menos a exteriorização de um item mental na forma de um comportamento. No segundo sentido, a atitude é aquilo que provoca o comportamento do indivíduo. Assim, uma pessoa que anda pela rua sorrindo e cumprimentando os outros com alegria pode ser vista como alguém que manifesta certa atitude mental -- estar de bem com a vida, por exemplo -- através de uma atitude comportamental.

É típico das atitudes mentais -- as opiniões de desejos, por exemplo -- estarem dirigidas a alguma coisa, ou indicarem alguma coisa. Atitudes não são meros estados da mente. São estados dirigidos a alguma coisa. Assim, atitudes têm um complemento: aquilo a que elas se dirigem. Por exemplo, o desejo de comer sorvete é uma atitude que tem como complemento, ou conteúdo, a ação de comer sorvete.

As atitudes constituem boa parte da nossa vida mental cotidiana, e não podem ser reduzidas a meras experiências. Assim, as atitudes trazem grandes problemas para aqueles que vêem a consciência como a própria essência do mental.

As atitudes também trazem outros problemas, os quais só veremos nos próximos módulos. Por exemplo, se as atitudes não podem ser reduzidas a meras experiências, devendo ser levado em conta aquilo a que elas se dirigem, isto é, seu conteúdo, então como sabemos que temos determinada atitude, quando a temos?

Leitura[editar | editar código-fonte]

  • Davidson, Donald. "Conhecer a Própria Mente." Crítica (2004 [1987]), http://www.criticanarede.com/men_propriamente.html.
  • Guttenplan, Samuel. "An Essay on Mind." In A Companion to the Philosophy of Mind, editado por Samuel Guttenplan. Oxford: Blackwell, 1996 [1994].