Filosofia da mente/Externalismo e individualismo

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Em filosofia da mente, externalismo é a tese que a identidade do conteúdo mental é relativa a objetos ou tipos de objetos exteriores à mente. De acordo com o internalismo, a posição em relação à qual o externalismo se opõe, as propriedades mentais são supervenientes às propriedades intrínsecas do sujeito. Segundo o externalismo, dois indivíduos podem ser idênticos nas propriedades intrínsecas relevantes e ter propriedades mentais com conteúdos distintos.

Nos debates acerca do externalismo, há (1) os que o vêem como uma teoria sobre a correta determinação dos pensamentos de um sujeito e (2) os que o vêem como uma resposta à questão: Propriedades mentais são sobrevém a propriedades físicas? Para os internalistas a resposta é Sim, isto é, a determinação das propriedades físicas de um indivíduo é suficiente para a determinação das suas propriedades mentais. Para os externalistas a resposta é Não, isto é, para determinar as propriedades mentais do indivíduo é preciso considerar propriedades do seu entorno.

Variedades de externalismo sobre o mental[editar | editar código-fonte]

Há vários tipos de externalismo sobre o mental. Uma variedade se diferencia da outra pelo elemento exterior à mente responsável pela identidade do pensamento. Na tabela abaixo temos alguns exemplos.

Variedades de externalismo sobre o mental
Variedade Defensor A identidade do pensamento é relativa...
externalismo semântico Putnam ao ambiente
externalismo social Burge à coletividade
externalismo causal-histórico Davidson à biografia do sujeito

No externalismo semântico de Putnam, a identidade do pensamento é relativa ao ambiente natural. No externalismo social de Tyler Burge|Burge, à coletividade. No externalismo causal-histórico de Donald Davidson|Davidson, à biografia do sujeito.

Externalismo social[editar | editar código-fonte]

Externalismo social é a primeira versão do externalismo de Tyler Burge, o qual ele chama de antiindividualismo (a segunda versão é o externalismo perceptual, igualmente chamada de antiindividualismo). De acordo com o externalismo social, a correta identificação das noções pensadas por um sujeito exige que se considere a coletividade à qual o mesmo pertence.

O externalismo social é a interpretação de certos experimentos mentais. Digamos que um sujeito da nossa coletividade pense que tem artrite na coxa. Ele expressa seu pensamento da seguinte maneira: "Tenho artrite na coxa". Na nossa coletividade a palavra "artrite" designa inflamações nas juntas, não se manifestando na coxa. O pensamento desse sujeito é falso. Mas se tal sujeito pensasse "Tenho artrite na coxa" em uma coletividade onde "artrite" designa inflamações nas juntas e na coxa, seu pensamento seria verdadeiro, e ele estaria pensando em algo diferente da primeira situação. Assim, de acordo com o externalismo social, a determinação da identidade do pensamento de um sujeito exige que se considere a coletividade à qual o mesmo pertence.

Putnam e Burge[editar | editar código-fonte]

No externalismo de Putnam, apresentado originalmente em artigos como "Meaning and reference" (1973) e, principalmente, "The meaning of 'meaning'" (1975), o ponto é que um mesmo pensamento teria diferentes significados em diferentes ambientes.

No externalismo de Burge, mais ousado, e apresentado originalmente em "Individualism and the mental" (1979), o ponto é que a diferença no ambiente acarreta a diferença de pensamento.

A diferença entre essas duas variedades de externalismo é ilustrada pelo famoso experimento mental da Terra Gêmea, apresentado por Putnam. Trata-se de uma ficção científica que nos auxilia a compreender um ponto difícil de filosofia.

Imagine a seguinte situação, a qual será apresentada em três partes. Primeira parte. Uma pessoa normal, vivendo em um ambiente normal, levando uma vida normal. Essa pessoa, que chamaremos de Márcia, tem vários pensamentos envolvendo a palavra "água". Ela pensa, por exemplo, que a água é transparente, que a água mata a sede etc.

Segunda parte. Márcia é transportada para outra dimensão por um cientista louco. Na dimensão onde Márcia está tudo é igualzinho à dimensão onde vivemos. Chamemos a dimensão onde Márcia agora está de Dimensão Gêmea, e o planeta onde ela está de Terra Gêmea.

Na Terra Gêmea tudo é igual ao que há na Terra. As pessoas são iguais, as coisas são iguais. A única diferença é a fórmula química daquilo que os habitantes da Terra Gêmea chamam de "água". Isso que eles chamam de água, e que não pode ser distinguido a olho nu da água que encontramos na Terra, tem uma fórmula química diferente daquilo que nós chamamos de "água". Aquilo que nós chamamos de água tem a fórmula química H2O. O que eles chamam de "água" tem outra fórmula, XYZ.

Terceira parte, na qual vemos a diferença entre o externalismo de Putnam e o externalismo de Burge.

Para Putnam, a situação acima deve ser interpretada da seguinte maneira. Quando Márcia pensa "A água está fria" na Terra, seu pensamento é sobre água, H2O. Quando ela pensa o mesmo pensamento na Terra Gêmea, seu pensamento é sobre o que podemos chamar, na nossa língua, de água-gêmea, XYZ. Assim, para Putnam, o mesmo pensamento tem diferentes significados em diferentes ambientes.

Burge interpreta a situação de outra maneira. Para ele, o pensamento terráqueo de Márcia, "A água está fria", e o pensamento homófono gêmeo-terráqueo de Márcia, "A água está fria", são pensamentos diferentes. São diferentes porque os próprios pensamentos são individuados em relação ao ambiente.

Dessas duas variedades de externalismo, a de Burge é mais consistente do que a de Putnam. Pois podemos perguntar: Como uma pessoa na Terra e outra na Terra Gêmea poderiam ter o mesmo pensamento? Se, como alegam os externalistas, os pensamentos têm diferentes significados caso os ambientes aos quais estão relacionados são diferentes, então é incompreensível que pessoas em diferentes ambientes tenham o mesmo mode de significar coisas diferentes.

Externalismo e conhecimento de si[editar | editar código-fonte]

Muito se discute se o externalismo é compatível com a capacidade do indivíduo conhecer seus próprios pensamentos. Se o mental é determinado por propriedades exteriores ao ambiente, parece que o indivíduo precisa conhecer tais propriedades para conhecer seus pensamentos. Mas isso é implausível. Como pode ser que tenhamos que investigar o mundo para conhecer nossos pensamentos? Parece que ou ficamos com o externalismo, e não admitimos a capacidade de conhecer os próprios pensamentos, ou ficamos com tal capacidade, e rejeitamos o externalismo.

Entre os filósofos incompatibilistas, isto é, os filósofos que duvidam da compatibilidade entre externalismo e conhecimento de si, há os que tomam nossa capacidade de conhecer nossas próprias mentes como uma redução ao absurdo do externalismo, e aqueles que dizem que o externalismo leva à impossibilidade de conhecermos nossas próprias mentes.

Os compatibilistas respondem com teorias que conciliam uma e outra coisa. Dentre tais teorias se destaca a teoria do autoconhecimento básico, de Tyler Burge. De acordo com essa teoria, nossos pensamentos ordinários são "de primeira ordem", e nossos juízos de autoconhecimento, os quais são "de segunda ordem", os herdam ou subsumem. Assim, o que quer que pensemos ordinariamente pode ser subsumido em um juízo de autoconhecimento. Por exemplo, se o sujeito pensa "A água está fria", seu juízo de autoconhecimento é "Penso que a água está fria". Tal juízo sempre pode ser proferido pelo sujeito, mesmo sendo o conteúdo do seu pensamento determinado por propriedades exteriores ao seu corpo. Assim, o sujeito pode saber o que pensa, apesar do externalismo.

Bibliografia sobre externalismo em filosofia da mente[editar | editar código-fonte]

  1. Nuccetelli, Susana. 2003. New essays on semantic externalism and self-knowledge. Cambridge, Mass.: MIT Press.