Civilização Tupi-Guarani/Contribuições ao mundo contemporâneo

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Índios descansando em redes, durante a primeira conferência Nacional dos Povos Indígenas, em Brasília, no Brasil, em 2006
Cuias de mate à venda em Buenos Aires, na Argentina
Tereré

Os colonizadores europeus da América do Sul consideravam os tupis como povos culturalmente inferiores. No entanto, isso não impediu que muito da cultura tupi fosse incorporada pelos próprios europeus. Por exemplo, o uso da rede para dormir, em lugar da cama, foi adotado pelo colonizador como o meio mais confortável para dormir em climas quentes. Muitos alimentos usados pelos tupis foram difundidos para todo o planeta: milho, mandioca, amendoim, pimenta, goiaba, abacaxi, batata-doce, cará, abóbora, palmito, caju, açaí, cupuaçu, castanha-do-pará etc., incrementando a dieta alimentar de vários povos.

O uso das sementes de guaraná como estimulante foi utilizado na criação de refrigerantes de guaraná, tradicional bebida brasileira. O uso da erva-mate, também como estimulante, foi adotada pelos colonizadores portugueses e espanhóis, sob as formas do chimarrão do sul do Brasil, do chá mate brasileiro, do mate da Argentina, Uruguai e Chile e do tereré paraguaio e do estado brasileiro do Mato Grosso do Sul. O uso primitivo dos índios guaranis foi aperfeiçoado pelos colonizadores europeus com a incorporação de canudos de metal (bomba) no lugar dos primitivos canudos de taquara (tacuapi), bem como pelo uso de recipientes feitos com chifre de boi (guampa), no caso do tereré paraguaio e brasileiro, no lugar da cuia.

O guarani tornou-se idioma oficial do Paraguai. Muitos vocábulos do português que é falado no Brasil são de origem tupi, especialmente topônimos e nomes de plantas e animais nativos. O tupi não possui o som "l", o que fez com que os brasileiros do interior do país pronunciassem, até hoje, "muié" em lugar de "mulher" e "pórvora" em lugar de "pólvora"[1]. O tupi também prefere terminar as palavras com vogal, o que faz com que grande parte dos brasileiros, até hoje, pronunciem "quebrá" em lugar de "quebrar", embora mantenham a grafia portuguesa original da palavra[2].

Também é influência da língua tupi o uso do particípio ("estou olhando") em vez do infinitivo típico do português europeu ("estou a olhar"), bem como a preferência pela próclise pronominal ("me dá") em lugar da ênclise ("dá-me")[3]. O nheengatu, que é uma língua que descende do tupi antigo, continua a ser falado no noroeste do estado brasileiro do Amazonas, na Bacia do Rio Negro, bem como em regiões da Colômbia e da Venezuela. É um dos idiomas oficiais da cidade brasileira de São Gabriel da Cachoeira[4][5].

O consumo de tabaco difundiu-se pelo globo, sob a forma de cigarro, charuto, cachimbo, narguilé e rapé, embora atualmente esteja sendo combatido pelas autoridades médicas. A peteca (do tupi pe'teka, "batendo"[6]) já era praticada pelos índios brasileiros antes da chegada dos portugueses. Os descendentes dos colonos portugueses incorporaram este jogo à cultura brasileira. Atualmente, a peteca está disseminada pelo mundo sob o nome de indiaca.

O costume indígena do banho diário foi uma novidade para os colonizadores, que não tinham o hábito de se banhar com tanta frequência, em razão de o clima europeu ser mais frio. Tal costume incorporou-se em diversas sociedades a partir de então.[7] O mascote dos jogos pan-americanos de 2007, que se realizaram na cidade do Rio de Janeiro, foi um sol que tinha como nome "Cauê", que é uma saudação macro-tupi.

A farinha de mandioca continuou a ser um alimento muito utilizado em toda a América do Sul. Outros derivados da mandioca continuaram a ser consumidos em larga escala na América do Sul, como a tapioca, o polvilho e o tucupi (este, utilizado na preparação do prato típico do estado brasileiro do Pará, o "pato no tucupi". O pato-do-mato utilizado nessa receita, por sinal, também é uma herança macrotupi.). As folhas da mandioca-doce passaram a compor outro tradicional prato paraense: a maniçoba. O tacacá, também um prato paraense, utiliza jambu, uma verdura de origem indígena.

A mitologia tupi influenciou grande parte dos mitos que formam o atual folclore de Brasil e Paraguai, como o saci-pererê, o boitatá, a iara, o curupira ou caipora etc. A cultura tupi também influenciou o boi-bumbá do famoso festival folclórico de Parintins, no estado brasileiro do Amazonas, que se vale de muitos mitos e ritmos indígenas, como a Iara, o Curupira, a Cobra Grande, a cunhã poranga (termo em nheengatu que significa "mulher bonita"), o tuixaua (traduzido do nheengatu, significa "chefe") e os maracás (típico instrumento musical indígena)[8].

A arte marcial xinguana do huka-huka encontra-se em vias de ser utilizada em larga escala no treinamento de policiais militares do estado brasileiro de São Paulo, não somente devido a seu valor marcial, mas, principalmente, devido ao seu grande valor simbólico: o de ser uma das únicas artes marciais genuinamente brasileiras[9][10].

Os guaranis têm cooperado na preservação de uma espécie vegetal em extinção: o palmito-juçara (Euterpe edulis[11]). A espécie, típica da Região Sudeste do Brasil, vem sendo ameaçada pela coleta predatória para extração de palmito. O extrativismo sustentável da planta praticado pelos guaranis tem sido a principal esperança de sobrevivência da espécie[12].

Referências