Civilização Egípcia/Médio Império

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Médio Império


Portadores de oferendas, 12ª Dinastia
2040-1640 a.C

Dinastias 11-13[editar | editar código-fonte]

O Médio Império começa, historicamente, com a reunificação do Egito por Mentuhotep II (Não confunda Mentuhotep I com o II certamente não são o mesmo rei).

Nesta fase, vamos voltar a ver o Egito como um país inteiro depois de quase um século de caos e guerra civil para com a 13ª dinastia, voltar a se dividir.

Reunificação[editar | editar código-fonte]

Os reis da 11ª Dinastia que antecederam a Mentuhotep, já vinham lutando contra Nekhen (chamada de Hieracômpolis que é seu nome grego)e se saindo vitoriosos. Já haviam unido os nomos do sul sob sua autoridade até a Primeira Catarata e chegaram a conquistar terras do norte, até Abidos.

Portanto, quando Mentuhotep II subiu ao trono como rei da 11ª Dinastia, governando a partir de Tebas, ele sofreu ameaças e ataques dos reis de Nekhen (9ª e 10ª Dinastias), inclusive na província de Thinis, onde ficava Abidos.

A resposta de Mentuhotep foi reunir os exércitos e atacar os reis rivais para forçá-los a sair de Abidos. Foi assim que ele conquistou Asiut, o médio Egito e finalmente a própria Nekhen.

Mentuhotep II

Assim Mentuhotep II conseguiu reunir todas as regiões em que o Egito estava dividido sob seu governo. Portanto o país tinha novamente um faraó (rei do Alto e Baixo Egito).

È preciso assinalar que, embora o faraó tivesse voltado a ser o soberano de um pais reunificado, alguns nomarcas eram tão poderosos que continuaram a manter seus próprios exércitos e um grande poder mesmo sob o governo do faraó. Nunca mais um governante foi como um deus, absolutamente poderoso. Para manter os nomarcas sob seu controle era preciso aceitar e usar de diplomacia, pois era a maneira de manter o país unido. Quando o faraó precisava das forças militares, todos lutavam sob seu comando.

Nesse período a capital do Egito passou a ser Tebas, de onde se originou a 11ª Dinastia.

O deus Amon[editar | editar código-fonte]

A partir da fundação do Médio Império, vamos ver com clareza como a fama de um deus, dependia do seu lugar de origem. Isso foi o que ocorreu com o deus Amon, de Tebas.

Estátua de Amon no templo em Karnak

Antes do advento do Médio Império e dos faraós tebanos, Amon era um deus obscuro. Com a vitória dos tebanos, a reunificação do país foi atribuída ao deus local, e a cidade de Tebas, bem mais tarde quando deixou de ser capital, continuou a ser importante.

Amon significa oculto. Era um deus invisível, como um sopro ou um espírito, que estava presente em todos os lugares.

Pela tradição religiosa egípcia, era difícil aceitar um deus sem forma, então, Amon passou a ser representado ora como um ganso, um carneiro, uma serpente primitiva, ou até mesmo como um rei coroado.

Quando, mais tarde, Amon se fundiu ao deus-sol Ra, a coroa de Amon passou a ser representada com os raios do sol. O grande templo de Karnak, na região de Tebas, foi erguido em sua homenagem.

Amon guiava os exércitos, governava a exploração das minas e recebia sua parte em oferendas. Assim, os templos e conseqüentemente os sacerdotes, estavam ficando muito ricos e poderosos, eles eram um poder paralelo ao do faraó.

Cataratas do Nilo

Paz e riqueza[editar | editar código-fonte]

O Médio Império foi um tempo de paz para o povo egípcio, embora os exércitos tenham estado sempre em ação. Muitas expedições militares foram feitas para expandir mais e mais as fronteiras do Egito. Senusret I extendeu as fronteiras do Egito até a Segunda Catarata e exerceu controle sobre a Núbia até a Terceira Catarata, na verdade,inscrições com o nome deste faraó existem até na ilha de Argo, ao norte da atual Dongola.

Houve lutas contra os líbios no Delta e contra os asiáticos no Sinai. Na Núbia, ocorreram muitas batalhas.

Com tantas conquistas, o país recuperou suas fontes de riqueza. A mineração que sempre havia sido importante na península do Sinai e na Núbia voltava a fornecer a matéria prima para os artistas.

As relações comerciais com outros países voltaram a florescer, como com a Síria, o Líbano e a Palestina. É provável que também tenha havido comércio com países do mar Egeu. As rotas comerciais, por terra foram retomadas.

Amenemhet I o fundador da 12ª Dinastia, reorganizou a administração e retirou o poder dos nomarcas, algumas vezes até mesmo dividindo os nomos. Aqueles governadores que mantinham um poder paralelo ao do faraó e não respeitavam os governantes tebanos perderam a força. O faraó mudou o centro administrativo para Itjtawyamenemhet (Amenemhet é o chefe das duas terras) cidade que ficava perto do Faiyum, enquanto Mênfis voltava a ser novamente a capital oficial. Este faraó também criou a primeira co-regência no governo egípcio, de modo que, seu filho sendo o co-regente asseguraria o trono com mais facilidade.

No Faiyum as lavouras de grãos se alastravam, as minas produziam ouro e as pedreiras eram exploradas para dar conta dos projetos de construção.

Senusret III jovem, 12ª Dinastia, encontrado no templo de Madamud

Na 12ª Dinastia sob o governo de Senusret III, o Egito do Médio Império atingiu o clímax político, econômico e cultural. Foi este o faraó que eliminou totalmente o poder que os nomarcas ainda retinham desde o primeiro período intermediário.

A paz no Egito significava o país unido e próspero. Os exércitos lutaram contra outros povos, a própria região do Faiyum foi desocupada à força das armas, quando os exércitos de Amenemhet expulsaram os líbios e os assentamentos egípcios foram restabelecidos.

Construções[editar | editar código-fonte]

No Médio Império o Egito voltou a atravessar uma fase de prosperidade, com as campanhas militares e muita matéria prima houve um renascimento da arquitetura. Templos, fortificações, pirâmides, obras para a eternidade.

Com o primeiro faraó, Mentuhotep II, começou a construção de templos em todo o sul do Egito, seu complexo mortuário foi construído nas escarpas de Deir el-Bahari.

Amenemhet I que expandiu as fronteiras do Egito até a Terceira Catarata na Núbia, ergueu no Sinai o Muro do Príncipe, fortificações para proteger as fronteiras egípcias.

Senusret I construiu uma série de treze fortalezas a partir da Segunda Catarata, através da margem oeste do Nilo, essa região das minas era muito importante pois ali estavam o ouro, gnaisse e pedras preciosas.

Capela de Senusret I, 12ª Dinastia, Karnak

Além das fortalezas, muitos templos foram construídos ou restaurados. O templo de Amon em Karnak é digno de nota, porque foi um santuário construído na 12ª Dinastia que, sob o governo de vários faraós se tornou um conjunto de grandes proporções que está preservado até hoje. É provável que tenha sido Senusret I a construir o primeiro estágio desse templo, erguendo a Capela Branca. Esse faraó é responsável pelo embelezamento de muitos outros templos.

O Médio Império também marca a volta das pirâmides, ao invés dos túmulos escavados nas rochas. Muitas pirâmides foram construídas em Dashur, em Itjtawyamenemhet, em Hawara no Faiyum. A maioria era feita com tijolos de argila e revestimento em calcário de Tura. A pirâmide notável foi a Pirâmide Negra de Amenemhet III construída com basalto e por isso, negra.

Artes[editar | editar código-fonte]

Apesar de toda a convulsão que o Egito sofreu durante o período de guerra civil, parece que a habilidade artística sobreviveu e voltou a florescer no Médio Império.
Os templos foram decorados com relevos que vão ficando mais sofisticados da metade para o fim da 12ª Dinastia.

Com o enriquecimento de uma camada da população e com a nova visão de que não só o faraó tinha direito a uma vida além-túmulo, a procura por artistas para decorarem os túmulos cresceu muito. Nesse período, a pintura era o principal veículo artístico. Algumas tumbas eram decoradas com relevos, mas muitas foram decoradas apenas com pinturas.

Sarcófago do vizir Nakhti, em madeira, 12ª Dinastia, Asyut

A pintura também decorava os sarcófagos retangulares de madeira, típicos deste período. Os desenhos eram minuciosos.

Nas estátuas, podemos notar que, quando os nomarcas ainda limitavam o poder do faraó, os artistas passaram a representá-lo de uma forma mais personalizada, tanto como um deus quanto como um homem. Não havia mais aquele ar majestoso dos faraós divinos. Nas estátuas dos faraós que lutaram e unificaram o país, podemos ver um ar de arrogância dos conquistadores. No final do Médio Império, os faraós são caracterizados pelo semblante cansado e severo. Desse modo, podemos admirar a capacidade artística do escultor egípcio, unindo a técnica à intuição.

Hipopótamo, Tebas, Médio Império

A arte decorativa, como as jóias em metais preciosos, com incrustações de pedras coloridas, eram magníficas, além dos amuletos e pequenas figuras.

Na literatura, um conjunto de textos da 12ª Dinastia se tornaram muito populares e incluíam instruções e narrativas. Um manuscrito chamado Instruções de Khety, também conhecido como Sátira das Profissões é um texto em que o narrador acompanha seu filho à escola de escribas. Ele dá conselhos sobre o valor da educação para ter uma boa carreira e uma vida melhor e aproveita para comparar as dificuldades de outras profissões com bom humor.

No Médio Império houve um grande número de escritores e pensadores que deixaram muitos trabalhos que refletem a cultura da época. Uma dessas obras é a história O marinheiro e a ilha maravilhosa que narra como um marinheiro idoso se salva de um naufrágio, encontra um tesouro numa ilha e quando volta para casa a ilha misteriosa afunda no mar após sua partida.

A outra obra já no campo do romance histórico, é A história de Sinuhe, um retrato do amor do egípcio por sua pátria. Conta como Sinuhe, um cortesão, foge para a Síria após o assassinato do faraó, embora não fosse culpado de nada. Fora do Egito ele prospera, mas não é feliz enquanto não retorna a seu amado Egito, o único lugar em que vale a pena viver.

Amenemhet III

Declínio[editar | editar código-fonte]

O fim da 12ª Dinastia marca o inicio do declínio do Médio Império. Como já observamos, no final do Antigo Império, o último faraó Pepi II, governou por um período muito longo. O mesmo ocorreu no final da 12ª Dinastia. Amenemhet III fez um longo governo, seu filho, Amenemhet IV já era velho ao assumir o trono e não teve herdeiros homens. O último faraó conhecido do Médio Império foi uma mulher Sobekneferu, que é o último governante do Médio Império a aparecer nas listas de Abidos e Saqqara, embora outros possíveis faraós com pequenos governos tenham surgido depois dela, não foram mencionados.

Novamente se instaurou o caos na sociedade egípcia. Não de maneira tão radical quanto no final do Antigo Império, mas era uma ruptura na paz e na prosperidade que o povo vinha vivendo.

Aparentemente houve problemas também, relacionados com as cheias do Nilo, o que nos faz presumir poucas colheitas e a fome que é a arma principal contra qualquer governo ou governante.

Durante o domínio da 13ª Dinastia houve uma série faraós com governos curtos. Os vizires eram mais duradouros do que os faraós, vários deles serviram a mais de um governante. Esses faraós voltaram a capital para Mênfis, mas não tinham pulso para governar. Esse foi o pano de fundo para a ruptura da unidade do país.

  • Os estrangeiros

Com um governo centralizado e poderoso, o Egito começou a crescer tanto em riqueza como em população. Uma grande parte da população era de não-egípcios que migraram para o Vale do Nilo com a intenção de aproveitar a prosperidade.

Na época, tanto no antigo Egito como no Oriente Médio, não havia nada que pudesse lembrar uma naturalização; não importava onde vivia um cidadão, o importante era a que tribo ou a que nação ele pertencia. Jamais alguém se tornava egípcio apenas por lá viver, esse cidadão seria sempre um estrangeiro.

A vida de um estrangeiro no Egito não era ruim, eles deveriam pagar seus impostos e não criar problemas. Tinham a possibilidade de viver em comunidades com seus líderes e suas leis.

O fato dos egípcios não se misturarem aos estrangeiros, permitirem que vivessem em comunidades e que continuassem chegando ao país em grande quantidade, mudou o curso da história egípcia. À medida que cresciam e se multiplicavam, as comunidades de estrangeiros seus líderes ficaram poderosos, se intitularam reis e os reis de direito, caíram no esquecimento e abandono.

Esse período de desordem é o Segundo Período Intermediário, nele o Egito volta a se dividir em alto e baixo Egito.

Uma nova linhagem de faraós, de acordo com Mâneton consistia em setenta e seis reis de Xois (cidade antiga, hoje Sakha no Delta central). Esses reis passaram a governar paralelamente à 13ª Dinastia.

Aqui termina mais uma fase de esplendor num país que, como já vimos e vamos ver mais adiante, caiu em períodos de grande dificuldade e soube se reerguer para viver novas glórias.