Saltar para o conteúdo

Budismo/História do Budismo

Origem: Wikilivros, livros abertos por um mundo aberto.
Local tido como o do nascimento de Buda em Lumpíni, no Nepal
Representação birmanesa do rigor ascético de Buda
Bandeira da Índia, com a Roda da Lei de Asoca ao centro
Brasão da Índia
Imagem de Buda da Escola de Gandara dos séculos I-II
Borobodur, na Indonésia
Estadunidenses praticando kung-fu

Sidarta Gáutama[1] nasceu em 563 a.C.[2], no Bosque de Lumpíni, no atual Nepal[3]. Era filho de um governante local, mais especificamente do rajá de Capilvasto, província pertencente ao reino de Côssala, território atualmente dividido entre Índia e Nepal[4]. Seus pais se chamavam Sudôdana e Maia[5] e, durante vinte anos, não tiveram filhos. Uma noite, porém, a rainha Maia sonhou que um elefante branco penetrara seu ventre através de sua axila direita. Em outra versão da lenda, o elefante a tocara no flanco esquerdo com um lótus branco que carregava na tromba. Neste instante, ocorrera a concepção de Sidarta. Ainda segundo a lenda, Sidarta nasceu num jardim, quando sua mãe estava em viagem até a casa do pai dela. Nesse instante, o menino deu sete passos na direção de cada um dos pontos cardeais, nascendo uma flor de lótus em cada uma de suas pegadas. Nesse instante, declarou que aquele era seu último nascimento. Algum tempo após o nascimento de Sidarta, a rainha Maia faleceu, fazendo com que Sidarta fosse criado pela irmã mais nova da rainha, Magnapajápate[6]. O bebê foi então visitado por um ermitão de nome Asita, que profetizou que o menino poderia ter dois destinos: ou seria um grande governante, ou seria um grande líder espiritual.

O pai de Sidarta, querendo que seu filho optasse pela primeira opção, procurou criar o menino afastado de toda a miséria do mundo, para que não brotassem nele questionamentos espirituais que poderiam conduzi-lo ao destino de líder espiritual. No entanto, tal cuidado foi em vão. Mesmo vivendo em meio ao luxo e conforto do palácio de seu pai, um dia Sidarta, ao passear fora do palácio, testemunhou os Quatro Sinais: um velho, um doente, um morto e um monge. Este contato de Sidarta com a realidade da vida chocou-o de tal forma que o levou a abandonar o palácio de seu pai, sua esposa (chamada Iassôdara) e seu filho (chamado Ráula, termo que, traduzido, significa "amarras"[7]) e a se lançar numa jornada de busca espiritual nas selvas indianas. Ele tinha 29 anos. Sua primeira tentativa foi tornar-se discípulo de um guru, um mestre espiritual indiano. Porém, este caminho não o satisfez e ele procurou o caminho do ascetismo, junto com outros cinco companheiros. Sidarta ultrapassava em rigor a disciplina de seus colegas e comia apenas um grão de feijão por dia. Tornou-se tão magro que dizia poder tocar a espinha quando colocava a mão sobre o estômago. Ao fim de seis anos desse regime, Sidarta, um dia, perdeu os sentidos e somente se recobrou quando uma moça que passava se compadeceu dele e lhe deu um pouco de mingau para comer. Raciocinando, Sidarta concluiu que o ascetismo não estava lhe trazendo o esclarecimento espiritual que buscava e procurou outro caminho, o da meditação solitária. Seus companheiros de ascetismo não concordaram com ele e o abandonaram.

Sidarta sentou-se debaixo de uma figueira-dos-pagodes (Ficus religiosa)[8][9] nos arredores da vila de Gaia perto da cidade indiana de Benares e iniciou uma meditação que durou 49 dias. Segundo outro mito, teriam sido sete dias e sete noites. Após ter resistido a demônios e tentações, teria alcançado a iluminação espiritual, tornando-se um buda, termo que pode ser traduzido como "desperto"[10]. Teria passado, então, mais 49 dias sob a árvore, meditando sobre a iluminação. Em seguida, teria procurado seus antigos cinco companheiros ascetas e proferido-lhes, em Saranate, perto da atual cidade de Varanássi (a antiga Benares), seu primeiro discurso, que ficaria conhecido na história do budismo como o "Discurso do Parque dos Cervos", ou "Iniciando o movimento da roda do darma"[11]. Nesse discurso, Buda teria enunciado as Quatro Nobres Verdades e o Caminho de Oito Passos. Durante os 45 anos seguintes, Buda teria percorrido a Índia pregando sua doutrina. Aos oitenta anos, em Cussínara[12], teria vindo a falecer, após comer uma comida estragada oferecida por um ferreiro de nome Txanda[13]. Antes de morrer, teria deixado uma recomendação a seus discípulos: "Talvez alguns de vós estejam pensando: 'As palavras do mestre pertencem ao passado, não temos mais mestre'. Mas não é assim que deveis ver as coisas. O darma ("lei") que vos dei deve ser o vosso mestre depois que eu partir". Após o falecimento de Buda, sua doutrina se firmou como mais uma dentre as inúmeras doutrinas religiosas no nordeste da Índia.

A comunidade monástica fundada por Sidarta continuou praticando seus ensinamentos por um século, até que uma cisão dividiu a comunidade em dois grupos: um deles quis preservar intocáveis os ensinamentos de Sidarta, formando a chamada Escola Teravada. Outro grupo quis introduzir modificações na doutrina visando a aperfeiçoá-la, dando origem à Escola Maaiana[14]. Sua grande expansão começou sob o impulso de Asoca, o famoso imperador indiano, que, no século III a.C., se tornou o primeiro governante a unificar a Índia. Cansado das atrocidades da guerra, Asoca se converteu ao ensinamento de não violência do budismo e o tornou a religião oficial do Império Mauria. Com isto, o budismo se propagou por grande parte da Ásia. Hoje, a bandeira da Índia apresenta o símbolo da Roda da Lei de Asoca em seu centro. E o brasão indiano é representado por um capitel de uma das inúmeras colunas com inscrições budistas que Asoca mandou construir em seu império. Com o fim do Império Mauria, outros reinos continuaram a apoiar o budismo, como por exemplo os reinos formados pelos descendentes dos conquistadores macedônios de Alexandre Magno na Ásia. Estes reinos passaram para a história com o nome de reinos grecobactrianos e reinos hindu-gregos. Famoso entre estes reinos foi o reino de Gandara, na fronteira dos atuais Paquistão e Afeganistão e que originou uma escola de arte com o mesmo nome, responsável provavelmente pela primeira representação humana de Buda.

Até então, não se considerava respeitoso representar Buda sob uma forma humana, mas a influência cultural grega de Gandara legou à criação de imagens de Buda com roupas e feições gregas. Tais imagens foram as precursoras de todas as imagens posteriores de Buda. Estes reinos de origem grega foram eventualmente destruídos por invasores turcos, os cuxanas, que, por sua vez, continuaram a apoiar o budismo. Um de seus soberanos, chamado Canixca, passou inclusive para a história budista como o realizador do quarto concílio budista, em Puruxapura (atual Peshawar, no Paquistão) ou em Srinagar, na Caxemira, por volta do ano 100, e que traduziu o Tipitaca do prácrito para o sânscrito. Por esta realização, Canixca é conhecido como "o segundo Asoca". Embora escolas rivais tenham realizado um quarto concílio budista próprio, no Sri Lanca, em 29 a.C., sob o patrocínio do rei Vatagamani e que resultou no primeiro registro escrito da doutrina budista: o Cânone Páli, a versão em páli do Tipitaca, que até então se conservava exclusivamente por via oral.[15]

Da Índia, o budismo atingiu Bangladexe, Miamar, Sri Lanca, Paquistão, Afeganistão e oeste da China. Do oeste da China, se expandiu para o leste da China, a Coreia e o Japão. No ocidente, o budismo teve escassa penetração nessa época. Constitui um exemplo célebre a visível influência budista na lenda cristã de Josafá e Barlaão, do século VI, que relata a descoberta por parte de um príncipe indiano (Josafá) da amarga realidade da vida e sua posterior conversão ao cristianismo por Barlaão[16]. O budismo ainda penetrou na Indochina e na Indonésia, onde fez surgir o templo hindu-budista de Borobodur, por volta do século IX. Porém, esta expansão do budismo sofreu um revés a partir do século VII, com a expansão do islamismo. Os muçulmanos somente toleraram cristãos e judeus, que seguiam a Bíblia, mas não budistas, por considerarem que o budismo não se baseava na Bíblia. Com isto, em sua expansão, os muçulmanos destruíram importantes centros budistas, como Nalanda, na Índia. Somado ao ressurgimento do hinduísmo na Índia, isto ocasionou a virtual extinção do budismo na Índia, em Bangladexe, na Indonésia, no Paquistão, no Afeganistão e no oeste da China. Nos países em que o budismo sobreviveu, ele sofreu influências das religiões nativas. Por exemplo, no Tibete, ele se fundiu à religião bon nativa, originando a versão tibetana do budismo, também chamada lamaísmo.

Na China, o budismo foi influenciado pelo culto taoista da natureza, originando a seita Chan, que recebeu, na Coreia, o nome Sun e, no Japão, o nome Zen. Esta escola budista originou importantes elementos da tradicional cultura oriental, como o iquebana, o bonsai, a pintura sumi-e e artes marciais como o kung-fu, o caratê, o judô, o quendô, o iaido, o aiquidô e o tae kwon do, assim como a figura dos samurais. O budismo somente conseguiu penetrar no ocidente por volta do século XIX, através do interesse de intelectuais europeus, particularmente do filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860), pela cultura oriental. Das vertentes do budismo, foi o zen que penetrou primeiro, através de escritores japoneses como Daisetzu Teitaro Suzuki e Taisen Deshimaru. A partir do final do século XX, com a ascensão da figura do dalai lama Tenzin Gyatso ao posto de celebridade mundial, o budismo tibetano passou a ocupar a liderança entre as seitas budistas em termos de projeção e expansão mundial. Em março de 2001, o movimento fundamentalista islâmico afegão Talibã, que detinha o poder no Afeganistão, destruiu um importante monumento histórico budista no Afeganistão, os chamados Budas de Bamiyan, que eram duas gigantescas estátuas de Buda esculpidas na rocha. A alegação do Talibã era a de que o islamismo proibia o culto a imagens. Tais estátuas testemunhavam o importante passado budista na região, hoje majoritariamente muçulmana. Logo em seguida aos ataques terroristas aos Estados Unidos em 11 de setembro do mesmo ano, ocorreu a invasão do Afeganistão por tropas internacionais lideradas pelos Estados Unidos, derrubando o regime do Talibã. Existem planos, atualmente, de restaurar as duas estátuas destruídas.

Referências

  1. A doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 16.
  2. A doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 16.
  3. A doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 16.
  4. A doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 16.
  5. A doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 16.
  6. A doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 16.
  7. A doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 16.
  8. FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.776
  9. http://books.google.com.br/books?id=KizUvneBVMoC&pg=PA114&lpg=PA114&dq=%C3%A1rvore+ficus+religiosa+buda&source=bl&ots=Jn6oHssGM8&sig=whSl3gAOyc7eD4kDKKrQT1wOFto&hl=pt-BR&sa=X&ei=zHwYT4K7FYTo2gXWxp2qBA&sqi=2&ved=0CGEQ6AEwCA#v=onepage&q=%C3%A1rvore%20ficus%20religiosa%20buda&f=false
  10. http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=998
  11. A doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 17.
  12. A doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 17.
  13. A doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 17.
  14. Revista Terra. O avanço do budismo. Agosto de 2003. nº136. São Paulo: Peixes, 2003. p.52
  15. http://www.berzinarchives.com/web/pt/archives/study/history_buddhism/buddhism_india/history_buddhism_india_before.html
  16. http://auladeliteraturaportuguesa.blogspot.com/2008/10/novelstica-religiosa.html