Sociologia e Comunicação/Max Weber

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“Através de uma pianista amiga,  [Weber] examina as partituras de Tristão e Isolda, de Wagner , e comenta: ‘Essa é a técnica de escritura que me faz falta. Com ela à minha disposição eu poderia finalmente fazer o que deveria: dizer muitas coisas separadamente, uma ao lado da outra, mas simultaneamente.’ ”   (Pequena Sociologia da Nota de Rodapé – Leopoldo Waizbort)

Ciências da Natureza/Ciências da Cultura[editar | editar código-fonte]

Eu, particularmente, adoro esta passagem. Ela me lembra como o pensamento hipertextual já parecia existir antes da mídias digitais.

Max Weber faz um distinção entre o que ele chama de "ciências da natureza", voltadas para a identificação das "leis" da natureza - que usa o método explicativo -  e as "ciências da cultura", voltada para a compreensão do sentido da ação humana (Verstehen, em alemão) - que usa o método compreensivo.

A Sociologia pode usar o método explicativo, mas o que melhor a caracteriza é o método compreensivo, pois devemos sempre buscar o sentido que os indivíduos dão para sua ação para poder entender suas motivações, escolhas e a consequência de seus atos.

Para Weber, a sociologia deve concentrar-se no estudo da ação social, procurando sempre interpretá-la.

A ação social[editar | editar código-fonte]

Quando um indivíduo ou um grupo leva em consideração a ação de outro indivíduo ou grupo para orientar a sua própria ação, estamos diante de uma ação social.

Um cumprimento entre amigos, a especulação imobiliária, a escolha de uma roupa da moda, o comportamento dos alunos em uma sala de aula estão sempre relacionados a um tipo de monitoramento que fazemos da ação dos outros para orientar nossas próprias ações. Até quando não agimos diretamente, podemos gerar uma ação social.

O que vocês acham desses exemplos:

a) alguém que estende a mão para nos cumprimentar e nós nos recusamos a apertá-la

b) um professor que faz uma pergunta para a sala e tem de lidar com um longo silêncio.

Por outro lado, abrir um guarda-chuva quando começa a chover ou um choque acidental entre dois ciclistas são ações, mas não podem ser considerados ação social porque não levam em consideração a ação dos outros para serem realizadas.

A sociologia weberiana, portanto, é uma sociologia compreensiva.

Nesse sentido, a questão da objetividade das ciências humanas é sempre uma questão complexa.

Que seleção de motivos ou relações devemos destacar nos acontecimentos? Quem define qual o ângulo a ser adotado? O que deve ser considerado relevante ou não?

A resposta para isto não está na própria "realidade", mas no significado que os indivíduos deram às suas ações e de que modo podemos considerá-los relevantes para compreender um acontecimento histórico. A "realidade" não se deixa captar diretamente. É preciso construir alguns instrumentos metodológicos para abordá-la.


Tipos puros ou Tipos ideiais[editar | editar código-fonte]

Para compreender a ação social, Weber criou o uma espécie de instrumento metodológico: os tipos puros ou tipos ideais (eles tem esse nome porque são construções mentais ou cognitivas feitas pelo sociólogo)

Para ele, a "realidade" é inatingível em sua complexidade para o conhecimento humano. Nossos recursos cognitivos são bastante limitados. Para dar conta dessa complexidade, Weber se propõe a reduzir essa complexidade de algum modo.

No caso da ação social, ele procura destacar apenas alguns aspectos que considera fundamentais criando um tipo puro. Por exemplo, sabemos que as ações humanas são complexas, mas será que poderíamos dividi-las (de um modo mais simples) entre ações racionais e irracionais?

É o que Weber faz.


Tipos Puros de Ação Social[editar | editar código-fonte]

Entre as ações racionais, ele destaca dois tipos:

  • uma ação racional orientada para os valores (que produz uma "Ética da convicção")
  • uma ação racional orientada para os fins (que produz uma "Ética da responsabilidade")

Vamos pensar um pouco. Se eu sou um pacifista, eu sempre vou procurar não fazer uso da violência. Isso é um valor que eu carrego comigo e que orienta a minha ação. Portanto, se eu quisesse protestar contra a guerra, eu deveria usar meios não violentos.

Agora, se os fins (os resultados) passam a ser considerados mais importantes, eu posso me valer que quaisquer meios para alcançar a paz. Muitas vezes, posso usar, inclusive, meios violentos.  Diante das muitas opções que são oferecidas, eu sou responsável pela escolha daquela que alcance esse fim. Nem sempre, essa escolha poderia ser considerada a melhor opção do ponto de vista dos valores.

A pergunta que Weber lança é a seguinte: É possível usar meios "maus" (do ponto de vista dos valores) para alcançar um fim "bom"? Quem seria o juiz dessa escolha? Que tipo de dilemas os indivíduos enfrentam em suas decisões? Como interpretar suas escolhas?

Entre as ações irracionais, Weber destaca:

  • a ação irracional de tipo emotivo
  • a ação irracional de tipo tradicional

No primeiro caso, nos deixamos levar por sentimentos que não envolveram uma escolha propriamente dita, isto é, são mais impulsivos. No segundo, somos levados pelo hábito, pelo costume, pela tradição sem termos de passar pelo peso de uma escolha entre qual rumo seguir.

Vamos pensar nessas duas passagens de uma das palestrars feitas por Max Weber (que se encontra em "Ciência e Política: duas vocações" p. 113)

“ A nenhuma ética é dado ignorar o seguinte ponto: para alcançar fins ‘bons’, vemo-nos, com freqüência, compelidos a recorrer, de uma parte, a meios desonestos ou, pelo menos, perigosos, e compelidos, de outra parte, a contar com a possibilidade e mesmo a eventualidade de conseqüências desagradáveis

“E nenhuma ética pode dizer-nos a que momento e em que medida um fim moralmente bom justifica os meios e as conseqüências moralmente perigosas”


Poder e Dominação como tipos puros[editar | editar código-fonte]

É importante que todos lembrem, sempre, que Weber trabalha com tipos puros. Ele isola e acentua alguns aspectos que considera mais importantes para a compreensão da ação social. Todos nós, podemos construir outros tipos puros se acharmos necessário.

Neste caso, ele faz um distinção entre Poder e Dominação.

Poder, para Max Weber, é a probabilidade de impor a sua própria vontade a alguém mesmo contra toda a resistência.

“Os meios utilizados para alcançar o poder podem ser muito diversos, desde o emprego da simples violência até a propaganda ... por procedimentos rudes ou delicados: dinheiro, influência social, poder da palavra, sugestão e engano grosseiro, tática mais ou menos hábil de obstrução dentro das assembléias parlamentares.” (Weber. Economia e Sociedade apud Tânia Quintaneiro et alii. Um toque de Clássicos)

A autoridade/dominação já envolve a probabilidade de uma determinada ordem encontram obediência por parte de outros. Ou seja, o recurso à autoridade pressupõe um tipo de dominação no qual o próprio dominado, de algum modo, aceita, reconhece ou participa de sua própria dominação.

Essa aceitação, reconhecimento ou participação pode ser pensada a partir de três tipos puros de dominação: o racional-legal, o tradicional e o carismática.

O tipo racional-legal tem como fundamento (legitimidade) a dominação em virtude da crença nas leis, baseada, por sua vez, em regras racionalmente criadas.

A autoridade desse tipo mantém-se, assim, segundo uma ordem impessoal e universalista, e os limites de seus poderes são determinados pelas leis, normas e regras.

A autoridade tradicional é imposta por procedimentos considerados legítimos porque sempre teria existido, e é aceita em nome de uma tradição e de um costume reconhecido pelo tempo.

A autoridade carismática, em certo sentido, é sempre revolucionária, na medida em que se coloca em oposição consciente a uma ordem. Para que se estabeleça uma autoridade desse tipo, é necessário que o apelo do líder seja considerado como legítimo por seus seguidores, os quais estabelecem com ele uma lealdade de tipo pessoal.



O Estado, para Max Weber (sociólogo) é um  agrupamento humano que detêm o monopólio do uso legítimo da força física dentro de determinado território.



Desencantamento do Mundo[editar | editar código-fonte]

Para Weber, o mundo vem se tornando duplamente "desencantado" (Pierucci)

De um lado, temos o desencantamento do mundo no próprio campo religioso, no momento em que as religiões passam a substituir as formas mágicas de salvação (sacrifícios ou rituais mágicos) por um ethos, um código de conduta prático na vida dos fiéis (conduta, prece, domínio sobre si e sobre o pecado, uma doutrina etc.) É um tipo de sistematização da conduta, uma racionalização religiosa ou uma desmagificação da religião. Podemos ver essa discussão nas suas reflexões a ascese promovida pela ética protestante e, de um modo geral, em sua sociologia da religião.

Por outro, há um desencantamento do mundo da ordem científica e intelectual, marcado pela racionalização, cujos representantes seriam a nossa noção de técnica e de ciência) . É por meio desse processo que desenvolve a crença da civilização ocidental moderna de que não existem mais forças misteriosas que ela não possa desmistificar, encontrar suas causas e controlá-las.

Weber nos alerta, entretanto, para o fato de que esse tipo de conhecimento racional-científico não nos torna mais conscientes do mundo em que vivemos ou não nos ajudam muito a entender o sentido de nossas vidas. Ele apenas nos promete acabar com todo véu de misticismo da vida e submetê-la a previsão e controle.

É uma racionalidade voltada para a previsão, controle e dominação da vida, que, no limite, passou a ser chamada de razão instrumental. Esse tipo de razão seria uma variação da razão iluminista voltada para a emancipação do indivíduo e sua autonomia frente a ignorância e a subjugação.

Essa sociedade nos promete o controle de todos os aspectos de nossas vidas, embora, na maioria das vezes, não tenhamos a mínima ideia de como ela faz isso. Também não nos damos conta das consequências desse controle sobre a vida do planeta.

Em "A Ciência como Vocação", Weber observa que:

“O homem civilizado...colocado em meio ao caminhar de uma civilização que se enriquece continuamente de pensamentos, de experiências e de problemas, pode sentir-se ‘cansado’ da vida, mas não ‘pleno’ dela.”

Ainda nessa linha, o sociólogo observa que a expansão da racionalidade para todas as esferas da vida, acaba por produzir um novo tipo irracionalidade. A razão instrumental seria capaz de nos colocar em uma espécia de "jaula de ferro" do conhecimento técnico, de ações e comportamentos padronizados, calculáveis, previsíveis, controlados, cada vez mais especializados, voltados para um propósito ao qual não sabemos mais qual é.

Na época de Weber, o processo de burocratização era o exemplo mais claro de racionalização e controle dos processos administrativos e de gestão (racionalização das tarefas, aumento da produtividade, divisão do trabalho, controle científico do trabalho etc.). No entanto, essa mesma racionalidade instrumental acabou por gerar o seu oposto. Enquanto burocracia era sinônimo de modernização no século XIX e início do século XX, hoje, ela é vista como exemplo de irracionalidade. 


Referências[editar | editar código-fonte]

WEBER, Max. Sociologia. São Paulo, Editora Ática; 1999; 7ª Ed. (Coleção Grandes Cientistas Sociais).

WEBER, Max. Ciência e política, duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2008

WEBER, Max. Economia e Sociedade – fundamentos da sociologia compreensiva. 4ª. ed.  Vol. I e II .Brasília: Ed. UnB, 2000.

COHN, Gabriel. Crítica e resignação: fundamentos da sociologia de Max Weber. São Paulo: Martins Fontes, 2003

COSTA, António Firmino. Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo e o político , Sociologia, Problemas e Práticas, 72 | 2013, 161-168.

QUINTANERO, Tânia; BARBOSA, Maria Lígia de O. ; OLIVEIRA, Márcia G. Um toque de clássicos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

Vale a pena Weber de Novo – SocioFilo – Gabriel Peters