Países Baixos/História

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Brasão da cidade de Borger-Odoorn. Na sua parte inferior, pode ser visto um dólmen, típico monumento funerário de pedra deixado pelos povos pré-históricos neerlandeses.
Reconstrução moderna de torre de vigia romana em Utrecht
Cavalo frísio, uma raça de cavalos desenvolvida pelos frísios
Gravura do século XIX representando cabanas típicas da cultura aruaque

A região europeia dos atuais Países Baixos já era habitada há 100 000 anos atrás por povos caçadores-coletores, segundo atestam achados arqueológicos. Por volta de 5000 a.C., começou a ser praticada a agricultura na região, porém somente no extremo sul, na região da atual província de Limburg. Por volta de 600 a.C., povos celtas procedentes do leste ocuparam o sul dos Países Baixos, enquanto que o norte da região foi invadido por povos de língua germânica procedentes do norte.

No século I a.C., a região à esquerda do rio Reno foi conquistada pelos romanos sob o comando de Júlio César, nas chamadas guerras Gálicas, se tornando, inicialmente, parte da província romana da Gália Belga e, posteriormente, parte da província romana da Germânia Inferior. Data dessa época a fundação das primeiras cidades neerlandesas, como Utrecht (a TRAIECTUM AD RHENVS, ou Trajeto até o Rio Reno, dos romanos), Nijmegen (a VLPIA NOVIOMAGUS BATAVORVM, ou Ulpia Noviomagus dos Batavos, dos romanos) e Maastricht (a MOSAE TRAIECTVM, ou Trajeto do Rio Mosa, dos romanos).

A foz do Rio Reno era território da tribo germânica dos batavos, os quais se aliaram aos romanos e se tornaram famosos por fornecer soldados extremamente hábeis na equitação e na natação ao exército romano. Já a região à direita do Rio Reno permaneceu sob controle de tribos germânicas, especialmente da tribo dos frísios.

O Império Romano foi o responsável pela difusão da tecnologia dos moinhos pela Europa, inclusive no atual território neerlandês.

Com o colapso do Império Romano, em 476, os frísios expandiram seus domínios sobre a porção sul dos Países Baixos. Porém não por muito tempo, pois o crescimento subsequente do domínio dos francos anexou toda a região, inclusive a Frísia, no século VIII.

Enquanto isso, no continente americano, as ilhas do Caribe começavam a ser ocupadas por povos do grupo linguístico aruaque procedentes do atual território venezuelano.

A falta de centralização política do Império Franco gerou a formação de numerosos pequenos reinos feudais autossuficientes dentro do império. Durante a Idade Média, o atual território neerlandês era composto por condados pertencentes ao Sacro Império Romano-Germânico, como Holanda e Brabante. Tais condados, em número de dezessete, passaram a ser conhecidos como Países Baixos, devido à sua pequena altitude.

A partir de 1492, com a descoberta do continente americano por Cristóvão Colombo, a atual porção americana dos Países Baixos foi reivindicada pela Espanha. Os espanhóis escravizaram a população indígena da ilha de Bonaire e a enviaram para trabalhar nas minas de cobre da ilha de Espanhola.

Com a expulsão dos judeus da Espanha em 1492 e de Portugal quatro anos mais tarde, grande parte dos judeus ibéricos imigrou para os Países Baixos, dotando o país de uma grande soma de capital e de recursos humanos qualificados[1].

No século XVI, a porção norte dos Países Baixos, liderada pelo nobre Guilherme I de Orange-Nassau, se revoltou contra o domínio do Império Habsburgo, que detinha o controle do Sacro Império Romano-Germânico. As províncias rebeladas fundaram a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos. A república era controlada pela Assembleia dos Estados Gerais, embora a nobreza, representada pela família Orange-Nassau, ainda mantivesse bastante poder.

Retrato de Guilherme I de Orange-Nassau, de Michiel Jansz van Mierevelt

No século seguinte, a República dos Países Baixos se tornou uma potência comercial mundial através da ação de duas companhias nacionais: a Companhia Neerlandesa das Índias Orientais (que, ao começar a negociar suas ações em 1602, criou a mais antiga bolsa de valores do mundo, a de Amsterdã) e a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. O país passou a dominar extensas áreas na América (Caribe e nordeste do Brasil), na África (Angola e África do Sul) e na Ásia (Indonésia e Sri Lanca). Nestas regiões, os neerlandeses passaram a produzir, com mão de obra escrava, espécies tropicais com grande aceitação na Europa, como o açúcar, a pimenta-do-reino, a canela, a noz-moscada, o cravo-da-índia, a pimenta-malagueta, o fumo etc. Foi o chamado "século de ouro" do país, no qual o apogeu econômico coincidiu com o apogeu artístico. Grandes pintores do estilo barroco surgiram nesse século no país, como Johannes Vermeer, Rembrandt, Albert Eckhout, Frans Post e Jan Steen. Também foi o período no qual viveu o famoso filósofo Espinoza, nascido em Amsterdã dentro de uma família judia que havia fugido de Portugal.

Prédio da bolsa de valores de Amsterdã construído no início do século XVII por Hendrik de Keyser
Em verde, as possessões neerlandesas no mundo durante o apogeu do império colonial neerlandês no século XVII

No século XVIII, a ascensão inglesa no cenário mundial, decorrente da revolução Industrial Inglesa, provocou a decadência econômica dos Países Baixos. Os neerlandeses tentaram reverter a situação com a alteração do nome do país para República Batava, em 1795 e o fim dos poderes da nobreza. Mas, apesar disso, o país não pôde resistir à invasão francesa do país pelas tropas de Napoleão Bonaparte em 1806, o que gerou nova mudança de nome para o país. A partir de então, o país passou a ser chamado de Reino da Holanda, tendo como soberanos pessoas escolhidas diretamente por Napoleão. Porém, em 1810, Napoleão pôs um fim ao reino, anexando os Países Baixos ao Primeiro Império Francês. Durante as guerras Napoleônicas, o Reino Unido invadiu a colônias neerlandesas do Sri Lanca e do Cabo, por temer que os franceses de Napoleão as ocupassem.

Com a derrota de Napoleão e sua abdicação em 1813, um representante da família Orange-Nassau, Guilherme VI de Orange-Nassau, desembarcou no país e assumiu o trono do Reino da Holanda.

Com a derrota definitiva de Napoleão na batalha de Waterloo, em 1815, as potências europeias se reuniram em Viena para definir o novo cenário político continental. Foi criado, então, o reino dos Países Baixos, englobando os atuais territórios dos Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo, ratificando, como soberano, Guilherme VI de Orange-Nassau, agora com o título de Guilherme I dos Países Baixos. O Sri Lanka e a colônia do Cabo continuaram sob domínio britânico.

Em 1830, a Bélgica se separou dos Países Baixos por não concordar com a tentativa de imposição da língua neerlandesa e da religião protestante por parte do governo central. Em 1840, a província da Holanda se dividiu em duas províncias: a Holanda do Sul e a Holanda do Norte. Luxemburgo se separou em 1890 dos Países Baixos.

Os Países Baixos foram invadidos pela Alemanha em 1940, na Segunda Guerra Mundial, somente recuperando sua autonomia em 1945. Em 1942, devido à perseguição nazista aos judeus, a família da jovem judia Anne Frank foi obrigada a se esconder nos fundos secretos de uma casa em Amsterdã. A família viria a ser descoberta pelos nazistas e morta depois de anos escondida, mas o diário da jovem viria a ser descoberto posteriormente e se transformar em um clássico da literatura universal. Durante a guerra, a Indonésia, ainda colônia neerlandesa, foi invadida pelo Japão. Com a derrota japonesa, os Países Baixos tentaram retomar o controle da colônia, mas se depararam com uma forte resistência local, o que levou à independência indonésia em 1949.

Como estratégia de fortalecimento econômico após a Segunda Guerra Mundial, o país passou a integrar organizações econômicas internacionais: a união Alfandegária do Benelux, com Bélgica e Luxemburgo, em 1948; a comunidade Europeia do Carvão e do Aço, com Bélgica, Luxemburgo, Alemanha Ocidental, França e Itália, em 1951; a comunidade Econômica Europeia em 1957 e a união Econômica do Benelux, em 1960.

Em 1972, através do relatório governamental da comissão Baan, os Países Baixos deram início a uma política pioneira no mundo: a descriminalização do uso da maconha[2]. Em 1974, a copa do mundo de futebol foi realizada na Alemanha. A copa foi ganha pelos anfitriões, porém a grande estrela da copa foi a seleção neerlandesa, que deslumbrou o mundo com seu esquema tático inovador, baseado na movimentação constante dos jogadores, como se fosse uma máquina. A seleção conquistou o vice-campeonato e ficou conhecida por seu apelido: "laranja mecânica", baseado no filme homônimo do diretor Stanley Kubric (A clockwork orange, de 1971). O apelido era uma referência à cor laranja da equipe neerlandesa, que por sua vez era uma referência à família real neerlandesa, a família Orange-Nassau (em neerlandês, orange significa "laranja"). No mesmo ano, foi lançado o filme pornô francês Emmanuelle, que se tornou um sucesso mundial e que projetou a figura da atriz neerlandesa Sylvia Kristel, que interpretava o papel-título do filme.

Em 1975, o Suriname, uma ex-colônia neerlandesa na América do Sul, conseguiu sua independência total em relação aos Países Baixos.

Em 1986, foi criada a 12ª província neerlandesa: a Flevolândia, através do aterramento de parte do mar do Sul. Em 1992, foi assinado, na cidade neerlandesa de Maastricht, o tratado que criou a união Europeia, que veio a substituir a Comunidade Econômica Europeia. Ao contrário da CEE, a UE passou a ter um objetivo de integração não apenas econômica, mas também política, entre os países europeus.

Em 2010, plebiscitos realizados nas Antilhas Neerlandesas definiram a autonomia interna de Curaçao e São Martinho, os quais passavam a se sujeitar aos Países Baixos somente em questões de política externa e defesa. Ao mesmo tempo, as ilhas de Bonaire, Saba e Santo Eustáquio passaram a possuir a condição de municípios especiais dentro dos Países Baixos.

Referências