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O saber popular e as plantas medicinais/Introdução

Origem: Wikilivros, livros abertos por um mundo aberto.

Atualmente vivemos um período que tem retratado uma realidade desigual entre os povos. De um lado vemos os detentores do poder e de outro as minorias sociais que lutam arduamente para garantir condições mínimas de subsistência. Essas trajetórias são marcadas por lutas e resistências, os povos enfrentam a dura realidade da intensa jornada laboral, trabalho precário, redução de direitos, super exploração da mão de obra e vive num contexto desfavorável (são os invisíveis), em relação ao direito de acesso à educação, saúde, saneamento, políticas públicas, habitação, entre outros recursos básicos. Sobre isso, Boa Ventura de Souza Santos(2010)[1] nos ajuda compreender melhor, Tenho descrito esta situação como a ascensão do fascismo social, um regime social de relações de poder extremamente desiguais que concedem à parte mais forte o poder de veto sobre a vida e o modo de vida da mais fraca. Noutro lugar distingui cinco formas de fascismo social. Aqui me refiro a três delas, as que mais claramente refletem a lógica de apropriação/violência sobre a lógica da regulação/emancipação. (SANTOS, 2010)[1] Deste modo, as relações de poder encontram-se distribuídas nas três formas: fascismo do apartheid social (zonas selvagens e zonas civilizadas), fascismo contratual (poder entre as partes de um contrato, privatizações) e fascismo territorial, que está relacionado à propriedade privada.[2] Essas relações de poder aqui tratadas dizem respeito às diferentes formas de dominação que foram impostas aos povos. De acordo com Santos (2010),[1] isso se baseia em dupla diferença, a primeira tem a ver com a diferença cultural do mundo moderno cristão ocidental e a segunda, está relacionada á política do colonialismo e capitalismo. Inclusive a forma como se deu o acesso ao conhecimento (educação, a ciência e escola), de uns para outros (ricos e pobres) está relacionado à intervenção política, econômica e militar do colonialismo e capitalismo moderno, sobre os povos e culturas não ocidentais e não cristãos. Assim, não nos é estranho voltarmos na história e relembrar o papel dos jesuítas e seus métodos de catequização por exemplo. Como bem nos coloca Darcy Ribeiro(1996)[3] ao falar sobre ‘O Povo Brasileiro’, as tribos que aqui estavam tinham sua forma de se organizar, viver, cultivar seus saberes, cultuar seus ‘deuses’ da natureza e viver em harmonia. Porém, quando “o enxame de invasores” entra nessas terras sob os pés dos poderosos europeus, entre eles, a igreja católica com seu santo ofício, a vida daqueles que aqui habitavam precisa se adaptar aos costumes desses brancos colonizadores. Nesse período, e, mesmo antes do ‘achamento’ do Brasil, o Vaticano estabeleceu normas e regulamentos de ações de colonização. Sobre isso, Ribeiro (1996),[3] cita:

Não sem grande alegria chegou ao nosso conhecimento que nosso dileto filho infante d. Henrique, incendiado no ardor da fé e zelo da salvação das almas, se esforça por fazer conhecer e venerar em todo o orbe o nome gloriosíssimo de Deus, reduzindo à sua fé não só os sarracenos, inimigos dela, como também quaisquer outros infiéis. Guinéus e negros tomados pela força, outros legitimamente adquiridos foram trazidos ao reino, o que esperamos progrida até a conversão do povo ou ao menos de muito mais. Por isso nós, tudo pensado com devida ponderação, concedemos ao dito rei Afonso a plena e livre faculdade, entre outras de invadir, conquistar, subjugar a quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de cristo, suas terras e bens, a todos reduzir a servidão e tudo praticar em utilidade própria e dos seus descendentes. Tudo declaramos pertencer de direito in perpetuum aos mesmos, d. Afonso e seus sucessores, e ao infante. Se alguém indivíduo ou coletividade, infringir essas determinações, seja excomungado [...] (in Baião 1939:36-7)

Observa-se que nesse período a igreja prevaleceu, ditando regras, sendo autoritária e desconsiderando a fé, devoção e crenças de outros povos, dando plena autonomia para que vidas fossem ceifadas caso não aceitassem sua doutrina, “Ouvindo denuncias e calúnias na busca de heresias e bestialidades, julgava, condenava, encarcerava e até queimava vivo, os mais ousados”. (Ribeiro, 1996) Além disso, ela deu liberdade para invadir e tomar o que pertencia aqueles que por ventura não concordassem com sua doutrina. Nessa ocasião, a catequização dos povos foi fundamental, por isso, não nos é estranho voltar à memória e lembrar os jesuítas (a geração nas décadas de 50-60-70-80, ainda lembram), eles foram fundamentais para disseminar esse método e garantir o arrebatamento das almas.

Nesse contexto, talvez seja interessante fazer algumas perguntas, por exemplo, porque a igreja católica fez isso? Qual o sentido de sacrificar/matar pessoas que viam os fenômenos da natureza como seus deuses? Qual interesse da igreja, dos europeus, pela terra brasileira que inclusive levava-os a matar pessoas? Seria interesse financeiro? Seria a necessidade de implantar uma doutrina única para que os povos não pudessem pensar outras coisas? Para que e porque enviaram os jesuítas numa missão noutro país? Esses questionamentos devem fazer-se presentes, para que não nos esqueçamos de onde vêm as relações de poder e quem são os detentores do poder, através dessa memória será possível fazer reflexões e ver do qual lado da história estamos. Aliás, é importante refletir também sobre: Quem somos nós, a igreja ou o povo? Os ricos poderosos, ou o pobre trabalhador? Enfim, são inúmeras questões que não precisam ser respondidas agora, mas o desejo é que elas nãos sejam naturalizadas e façam parte da caminhada daqueles que acordam cedo e dormem tarde, para dar conta de um trabalho puxado que irá lhe garantir o pagamento dos boletos, cartão de crédito e fazer o rancho do mês garantindo o alimento na mesa para seus familiares.

A história dos trabalhadores/as é marcada por lutas e resistências desde o período da colonização até os dias atuais. Essas resistências ocorrem por disputas ideológicas, classistas e retrata uma sociedade desigual. Nesse contexto, essas lutas também têm sido travadas em relação aos saberes e práticas tradicionais da manipulação das ervas medicinais como alternativa de cura, que ainda permanece presente na cultura dos povos, principalmente dos povos originários. Observa-se que ao longo da história esses recursos naturais tem se destacado pela sua capacidade de cura, no entanto, tudo isso tem gerando tensões, ocasionando disputas principalmente no campo da medicina. Em outras situações acaba sendo procurado por grandes empresas para fins do comércio de cosméticos e outros. Diante disso, não é estranho que alguns representantes políticos, empresários, ruralistas, vejam as grandes florestas (Amazônia, por exemplo), como nicho de mercado, incentivando as privatizações, oportunizando o desmatamento10 e promovendo ‘incidentes criminosos’11, como é o caso das queimadas. Situações como estas nos colocam num sentimento de impotência, principalmente ao observar quão grande é o estrago que vem sendo feito à humanidade e ao planeta. Conforme Arruda (1999) cita Simões (2016),

No Brasil, para os povos originários, para as populações tradicionais e os pequenos agricultores, para a natureza tão necessária à produção de alimentos e a manutenção de vida, pode se dizer que os efeitos deste modelo foram e continuam sendo violentos, causando, por exemplo: perda da biodiversidade, contaminação das águas, desgaste dos solos, concentração de terra e renda nas mãos de poucos, usurpação de conhecimento tradicionais, mercantilização da natureza, conflitos territoriais por terra e território, precarização da vida de muitos camponeses, êxodo rural e processos nem sempre organizados de urbanização, entre outros. (SIMÕES, 2016 p. 26, citado por ARRUDA, 1999).

Tudo isso afeta o meio ambiente de uma forma geral e a situação fica ainda mais difícil para as minorias sociais (comunidades pobres, periferias, negros, indígenas, ribeirinhos, etc.), que necessitam desse espaço para sobreviver. Faz-se de extrema importância ressaltar a realidade do camponês, o pequeno agricultor que pela expansão do modelo conservador e arcaico, desde meados do século XX vem impondo às populações rurais situações que os obriga a se inserir dentro desse sistema, para poder sobreviver. Em meio a todo esse descaso, é necessário buscar alternativas sustentáveis que oportunize manter a cultura dos povos e suas práticas tradicionais de lidar com a diversidade da natureza, utilizando-se desses recursos como meio de subsistência, preservando e garantindo a biodiversidade (conjunto de todas as espécies de seres vivos existentes na biosfera; diversidade).

Buscaremos aqui apresentar experiências de vida que dialoguem com esse contexto, exemplificando a importância do resgate das origens através da cultura, das práticas alternativas de utilização e manipulação das plantas, como uma estratégia sustentável para/na prática de valorização dos saberes que vem dos povos tradicionais.

Referências

  1. 1,0 1,1 1,2 EPISTEMOLOGIAS DO SUL - 2ªED.(2010) - Boaventura de Sousa Santos; Maria Paula Meneses - Livro. https://www.travessa.com.br/epistemologias-do-sul-2-ed-2010/artigo/b72e7c7c-f409-4160-95cc-0598a93799d7. Retrieved 2021-08-03. 
  2. dos Santos, Fernando Pereira (2011). "Educação e Idade Média: uma reflexão historiográfica". Cadernos de História: 45-47. ISSN 1980-0339. 
  3. 3,0 3,1 Ribeiro, Darcy (1996). "O povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil". São Paulo: Companhia das Letras (2).