Saltar para o conteúdo

Introdução à Biologia/História da Biologia/Conhecimento antigo e medieval

Origem: Wikilivros, livros abertos por um mundo aberto.
Frontispício de uma edição ilustrada de 1644 da Historia Plantarum, escrita por volta de 300 a.C.

Civilizações antigas

[editar | editar código-fonte]

Os primeiros humanos demonstram ter possuído e transmitido entre si conhecimentos básicos sobre plantas e animais de forma a melhor garantir a sua própria sobrevivência. Isto pode ter incluído noções de anatomia humana e animal e alguns aspectos essenciais do comportamento animal, como os padrões migratórios. Contudo, o primeiro grande momento de transição no conhecimento biológico teve lugar durante a revolução neolítica há cerca de 10.000 anos, quando o Homem iniciou a domesticação de plantas e animais, através das práticas da agricultura e da pastorícia que acompanharam e possibilitaram a sedentarização populacional.

As culturas mesopotâmica, egípcia, chinesa e do subcontinente indiano, entre outras, viram nascer cirurgiões e teóricos das ciências naturais como Sushruta e Zhang Zhongjing, reflexo de um já avançado sistema de pensamento no campo da filosofia natural. No entanto, as raízes da biologia moderna são frequentemente contextualizadas na tradição secular da Filosofia Greco-Romana.

Um dos mais antigos sistemas organizados de medicina que se conhece teve lugar no subcontinente indiano sob a forma do Ayurveda, com origem por volta de 1500 a.C. a partir do Atarvaveda, um dos quatro mais antigos livros da cultura indiana. A tradição egípcia produziu igualmente textos influentes como o papiro de Edwin Smith. É também célebre pelo desenvolvimento de técnicas avançadas de embalsamamento, usadas no processo de mumificação, de forma a preservar os cadáveres da decomposição.

No contexto da antiga tradição chinesa, podem ser observados vários tópicos referentes à biologia dispersos por diferentes disciplinas, nos quais se incluem os trabalhos sobre fitoterapia, medicina, alquimia e filosofia. As práticas taoistas da alquimia chinesa, por exemplo, podem ser consideradas parte integrante das ciências da vida, devido à ênfase na sua relação com a saúde e na sua procura utópica pelo "Elixir da Longa Vida". A ordem da medicina tradicional chinesa normalmente refletia a teoria do Yin-yang e dos cinco elementos. Os filósofos taoistas, como Chuang-Tzu no século IV a.C., revelaram também propostas intrínsecas da evolução, como a negação da imutabilidade das espécies biológicas, e propondo que cada espécie teria desenvolvido determinada característica em resposta a determinados fatores ambientais.

A tradição Ayurveda indiana propôs o conceito dos três humores, à semelhança dos quatro humores da medicina grega, embora o sistema ayurvédico fosse mais elaborado, definindo o corpo humano como composto por cinco elementos e sete tipos básicos de tecido. Os escritores ayurvédicos classificaram também os seres vivos em quatro categorias a partir do método de nascimento – ventre, ovos, calor e sementes – e explicaram em detalhe a concepção de um feto. Foram também autores de progressos significativos no campo da cirurgia, sem recorrer à dissecação humana ou vivissecção animal. Um dos mais antigos tratados ayurvédicos que se conhece é a obra Sushruta Samhita, atribuída a Sushruta e datada do século VI a.C. Foi também uma das primeiras obras de materia medica, descrevendo em detalhe 700 plantas com propriedades medicinais, 64 preparados de base mineral e 57 de base animal.


A tradição Grega

[editar | editar código-fonte]

Os filósofos pré-socráticos interrogavam-se sobre inúmeros aspetos ligados à vida, mas não foram capazes de produzir conhecimento sistemático significativo dentro do campo da biologia, embora os esforços dos atomistas para explicar a vida em termos puramente físicos tenha sido a partir de então recorrente na história da biologia. No entanto, as teorias formuladas por Hipócrates e pelos seus seguidores exerceram uma influência significativa, sobretudo o humorismo.

Aristóteles foi o mais influente acadêmico durante a Antiguidade Clássica. Embora as suas primeiras obras de filosofia natural tenham sido fundamentalmente especulativas, os seus manuscritos posteriores revelam uma formulação empírica, focando as causas e diversidade biológicas. Realizou inúmeras observações do mundo natural, relativas sobretudo aos hábitos e atributos das plantas e animais à sua volta, sobre os quais efetuou também um amplo trabalho de categorização. No total, Aristóteles classificou 540 espécies animais, tendo dissecado pelo menos 50 delas. Acreditava que todos os processos naturais eram regidos por causas formais, e que o que diferenciaria, por exemplo, um homem de uma estátua seria a presença de uma alma.

Aristóteles, a par de praticamente todos os acadêmicos ocidentais que se lhe seguiram até ao século XVIII, acreditavam que os seres vivos estariam organizados segundo uma escala de perfeição, desde as plantas, menos perfeitas, até aos humanos: a scala naturæ. Teofrasto, sucessor de Aristóteles no Liceu, escreveu uma série de livros sobre botânica – Historia Plantarum – hoje considerados como o mais relevante contributo da Antiguidade para a botânica, influentes ainda durante a Idade Média. Muitas das designações por si atribuídas continuam a ser usadas na atualidade, como carpos para a fruta, e pericarpion para o invólucro das sementes. Plínio, o Velho foi também notável pela produção de conhecimento sobre botânica e o mais prolífico compilador de descrições zoológicas da Antiguidade.

Alguns acadêmicos do período helenístico durante a dinastia ptolomaica, sobretudo Herófilo e Erasístrato, trabalharam na revisão nas obras de fisiologia aristotélica, realizando inclusive vivissecções experimentais. Galeno viria a ser considerado a maior autoridade em medicina e anatomia. Embora alguns atomistas da Antiguidade como Lucrécio tivessem já posto em causa o ponto de vista aristotélico de que todos os aspetos da vida são consequência de um desígnio ou finalidade, a teleologia e, depois da ascensão do Cristianismo, a teologia natural, permaneceriam como elementos centrais do pensamento científico até aos séculos XVIII e XIX. Ernst Mayr defendeu que "Nada com impacto significativo aconteceu na biologia depois de Lucrécio e Galeno até ao Renascimento." O conhecimento expresso durante a Antiguidade sobreviveu ao tempo; no entanto, durante a Idade Média era aplicado de forma acrítica e sem o natural questionamento capaz de produzir novo conhecimento.


Prática medieval e islâmica

[editar | editar código-fonte]
Ilustração anatômica de um cavalo, com origem no Egito e datada do século XV.
De arte venandi, da autoria de Frederico II, um dos mais influentes textos medievais de história natural.

O declínio do Império Romano trouxe consigo o desaparecimento ou destruição de muita da literatura científica, embora os praticantes de medicina mantivessem vivas as tradições herdadas da Antiguidade grega através da prática quotidiana. No Império Bizantino e no mundo islâmico, muitas das obras gregas foram traduzidas para a língua árabe e preservadas muitas das obras de Aristóteles.

Os médicos, cientistas e filósofos islâmicos ofereceram contributos significativos para a ciência entre os séculos VIII e XIII, durante o que se convencionou chamar de Idade de ouro islâmica ou revolução agrícola islâmica. Na área da zoologia, por exemplo, o acadêmico Al-Jahiz (781-869) propôs uma série de conceitos precursores da evolução, como a luta pela sobrevivência. Sugeriu igualmente a noção de cadeia alimentar, e foi um dos precursores do determinismo ambiental. O biólogo persa Al-Dinawari (828-896) foi o autor do Livro de Plantas, no qual descreveu pelo menos 637 espécies botânicas e apresentou noções sobre o crescimento, morfologia, e produção de flores e frutos. O polímata persa Al-Biruni descreveu a noção de seleção artificial e argumentou que a natureza funciona de maneira muito semelhante, o que tem sido comparado com a teoria da seleção natural das espécies.

No campo da investigação médica, o médico persa Avicena (980-1037) introduziu na obra O Cânone da Medicina os conceitos de ensaio clínico e farmacologia, texto que se assumiu como referência durante toda a educação médica europeia até ao século XVII. O Al-Andalus|andaluz Ibn Zuhr (1091-1161) foi um dos primeiros partidários da autópsia e dissecação experimentais, que levou a cabo para demonstrar que a sarna tinha origem num parasita, uma descoberta que viria a pôr em causa a teoria humoral. Foi também um precursor da cirurgia experimental, em que são testadas técnicas cirúrgicas em animais antes de serem aplicadas em humanos. Durante uma carestia no Egito em 1200, Abd-aI-Latif ao observar e examinar um número elevado de esqueletos, confirmou as afirmações de Galeno quanto à formação dos ossos do maxilar e do sacro.

No início do século XIII, o biólogo do al-Andalus, Abu al-Abbas al-Nabati, concebeu um método científico para ser aplicado em botânica, introduzindo técnicas empíricas e experimentais no exame, descrição e identificação de materia medica, e fazendo a distinção clara entre as afirmações não comprovadas e as que têm como base exames e observações verídicas. Um dos seus alunos, Ibn al-Baitar (m. 1248), escreveu uma enciclopédia farmacêutica onde são descritas mais de 1400 plantas, alimentos e drogas, 300 das quais descobertas por si. Uma tradução em latim desta obra continuou a ser usada por biólogos e farmacêuticos europeus até ao século XIX.

O médico árabe Ibn Nafis (1213-1288) foi igualmente um dos precursores da dissecação e autópsias experimentais, tendo descoberto em 1242 a circulação pulmonar e a circulação coronária, que são a base do sistema circulatório. Descreveu também o conceito de metabolismo, e desacreditou as teorias incorretas de Galeno e Avicena sobre os quatro humores.

Ao longo da Alta Idade Média, alguns acadêmicos europeus como Hildegarda de Bingen, Alberto Magno e Frederico II alargaram o cânone da história natural. A ascensão das universidades europeias, embora fundamental para o desenvolvimento da física e da filosofia, pouca influência exerceu no ensino da biologia.