História da Europa/Desafios à autoridade espiritual

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a Vulgata, tradução da Bíblia para o latim


Problemas da igreja[editar | editar código-fonte]

Durante esse período da história da Europa, a igreja católica que se tornou rica e poderosa, foi impiedosamente examinada.

Por mais de mil anos a religião católica foi responsável pela ligação entre os estados europeus, a despeito das diferenças de linguagem e de costumes. Seu poder permeava tudo e afetava do rei ao plebeu.

Uma das principais afirmações era de que a riqueza da igreja, deveria ser usada para aliviar o sofrimento e a pobreza e que os fundos monetários, deveriam servir especificamente para esse fim.

A autoridade central da igreja esteve em Roma por mais de mil anos e sua concentração de poder e dinheiro fez com que crescessem cada vez mais os questionamentos sobre o que deveria ser feito com tanto poder e riqueza.

Os europeus dos países do norte, sentiam que, em diversos aspectos o poder papal era agora o negócio papal. Embora deva ser observado que a igreja católica foi a instituição dominante nos países sul europeus e, a esse respeito a reforma possa ser descrita como o surgimento de uma forma singular norte europeia de cristianismo.

Independente de ser um desejo de retorno da igreja à mensagem de Cristo ou simplesmente uma resposta politicamente motivada e regional à concentração de riqueza e poder nas mãos do papa, essa questão ainda dividia o povo.

Causas da reforma protestante[editar | editar código-fonte]

* Acusações de corrupção

A venda de cargos eclesiásticos, a venda de indulgências ou o perdão de Deus, a simonia ou o comércio de objetos religiosos. Para alguns cristãos essa era a prova de que a igreja havia se tornado corrupta.

Os papas e os bispos eram acusados de estar preocupados em adquirir riquezas ao invés de cuidar de suas obrigações eclesiásticas. Eles eram livres de impostos e não podiam ser culpados criminalmente, de modo que muitos exploravam a posição em seu próprio benefício.

Os clérigos eram acusados de ignorar a mensagem da igreja com relação ao celibato e a pobreza, assim enfraquecendo sua autoridade moral. Essas acusações eventualmente se tornaram um protesto contra o poder papal e os abusos da cúria.

monastério beneditino
  • Reações à corrupção na igreja

Essas alegações de abuso de autoridade levaram alguns a clamar por mudanças. Alguns clérigos e monarcas eram contra os dízimos que pagavam à igreja central na Itália.

A igreja católica tinha se tornado a maior proprietária de terras em toda Europa e a posse de extensas áreas pelas ordens religiosas, igrejas, monastérios e catedrais não tinha passado desapercebida.

Com as terras vinham o poder político que podia ser designado pelos seus próprios clérigos para um rei ou nobre; a questão agora era muito mais política do que religiosa.

Também houve desavenças por causa do uso da Bíblia latina. A Vulgata, tradução da Bíblia para o latim feita por São Jerônimo, foi adotada como texto oficial da igreja católica pelo concílio de Trento em 1546.

Era comum que a missa para as massas fosse conduzida em latim, embora nessa época o latim já fosse visto como arcaico, pois era uma língua morta. Embora o latim fosse ainda a língua das publicações eruditas; seu uso para o povo era questionado por aqueles que evangelizavam.

A mensagem de Cristo seria mais bem compreendida se fosse usada a língua da congregação. A invenção da imprensa, o declínio do latim e a necessidade de falar ao povo no vernáculo levaram à quebra da tradição cristã.

John Wycliff iniciou a primeira tradução da Bíblia e isto é mencionado por muitos como o inicio da reforma protestante.

De 1521 a 1555, o protestantismo se espalhou pela Europa. A reforma começou como um movimento religioso, mas se tornou político e resultou num impacto econômico e social.


Martinho Lutero (1486-1546)[editar | editar código-fonte]

Apesar de outras revoltas individuais como de John Wycliffe, um jovem monge alemão, chamado Martinho Lutero, foi o primeiro a forçar a questão da corrupção imoral na igreja. Desiludido com a igreja, Lutero questionava a ideia das boas ações para salvação, incluindo orações, jejum e particularmente indulgências.

Em 1517, Lutero afixou suas 95 teses, na porta da igreja conhecida como Castle Church.

Essas teses atacavam as ideias da salvação através do trabalho, a venda de indulgências, e a cobrança e o fato da igreja juntar tanto dinheiro. Ele pedia formalmente que houvesse um debate público a esse respeito.

Lutero afixando suas 95 teses

O papa Leão X ordenou que Lutero parasse de pregar, coisa que Lutero recusou. Ele foi então excomungado, porque não voltou atrás em suas afirmações e alegações a respeito das indulgências e salvação imoral.

Ele afirmou que somente as Escrituras poderiam mostrar se o papa tinha razão em excomungá-lo; ele queimou o documento na frente de uma multidão que o aplaudia.

  • A Dieta de Worms

Lutero foi chamado a comparecer frente à Dieta de Worms pelo imperador Carlos, em 1521; Lutero foi porém não se retratou em nenhum momento, então foi declarado herege.

Os Editos de Worms declaravam Lutero além de herege, fora da lei, dando o direito a qualquer pessoa de matá-lo sem questionamentos. Devido à grande popularidade de Lutero na Alemanha isto não poderia ocorrer.


  • Luteranismo

Defendia a educação para todos incluindo as mulheres. De acordo com a doutrina luterana, o casamento é importante e os papéis do casal devem ser reforçados; a mulher pertence à casa e deve controlar a economia, enquanto o homem é o chefe da família. Os clérigos podem casar.

A salvação está ligada apenas à fé e não é obtida através de obras. A autoridade religiosa é encontrada na Bíblia e não no papa; cada homem pode ser seu próprio padre.

Os serviços religiosos são feitos em língua vernácula e não em latim. Somente dois sacramentos são mantidos: o batismo e a ceia do Senhor. Os luteranos não ensinam nem a transubstanciação e nem a consubstanciação, os benefícios de receber o sacramento não vem de comer ou beber mas sim, da promessa e da garantia de Jesus.

O sacramento é a proclamação do Evangelho, é a palavra de Deus que faz da ceia do Senhor um sacramento, e Lutero ensina que isso significa que a graça é para ser recebida com fé.

A justificação pela fé é a parte principal da doutrina de Lutero. Nela, ele ataca o ponto de vista da igreja de que, boas obras podem levar um cristão para o céu.

Para Lutero, o fato dos humanos serem errados por natureza, eles apenas podem confiar na graça de Deus para chegar ao céu, não através de suas próprias obras. Portanto, apenas a fé na graça de Deus era necessária (e suficiente) para obter a entrada no céu.

A Bíblia é a suprema autoridade na visão de Lutero. Ele desafiou a papel do papa como suprema autoridade temporal para interpretar os desígnios de Deus. Para Lutero, a Bíblia era a suprema autoridade de Deus.

Martinho Lutero e Ulrich Zwingli

Como extensão de sua filosofia, Lutero acreditava que todos os cristãos deveriam estar aptos a interpretar as Escrituras (de fato, agindo como seu próprio padre).

Lutero deu ênfase especial, assim, para que houvesse uma alfabetização universal, de modo que os cristãos pudessem ler a Bíblia e conseguir a salvação. Esse foi um ponto doutrinário que, juntamente com o advento da tipografia, pouco mais de meio século antes trouxe profundas implicações para a sociedade ocidental.

Lutero traduziu a Bíblia para o alemão enquanto se escondia da ira do chefe do Sacro Império Romano. Essa edição da Bíblia se tornou extremamente popular e transformou o dialeto alemão de Lutero a língua comum da época.

Outras correntes religiosas[editar | editar código-fonte]

Ulrich Zwingli (1484-1531) - O Zwinglianismo se originou na Suíça, introduzido por Ulrich Zwingli. Acreditava em dois sacramentos, o batismo e a comunhão. Essa religião comungava com a maior parte dos ensinamentos protestantes.

Defendia que a igreja era a principal autoridade, e rejeitava rituais como o jejum e as elaboradas cerimônias do catolicismo. Finalmente acreditava que a reforma viria através da educação.

João Calvino (1504-1564) - O Calvinismo foi criado em Genebra, na Suiça, mais tarde se espalhou pela Alemanha.

Calvino era o comandante da segunda geração de reformistas, sucedendo Martinho Lutero na linha de frente de debates e discussões teológicas. Seu trabalho mais importante foi Institutas da Religião Cristã (onde institutas significa instrução, ensino, traduzido do latim), publicado em 1541 com idade de 26 anos. Na época teve um tremendo impacto e muitos consideraram Calvino como um protestante do quilate de Tomás de Aquino.

Nesse livro, Calvino demarca as premissas centrais da doutrina religiosa que levaria seu nome.


Huguenotes - eram os calvinistas franceses que foram perseguidos por causa de sua religião. O Edito de Nantes deu a eles a liberdade de culto, embora durante o reinado de Luis XIV, foi criado o Edito de Fountainbleu que revogava os direitos dados aos Huguenotes.

Tabela básica das religiões[editar | editar código-fonte]

A tabela abaixo oferece um sumário simples dos detalhes básicos das principais religiões protestantes, bem como do catolicismo.


Religião
Principais crenças
Sacramentos
Pessoas importantes e localização
Relação igreja/Estado
Luteranismo
  • Salvo apenas pela fé
  • Não há venda de indulgências
  • Não é obrigatório o comparecimento à igreja; ao invés, orações individuais e leitura da Bíblia
  • Não existe purgatório
  • Rejeita a autoridade papal

Dois:

  1. Batismo
  2. Comunhão
  • Martinho Lutero
  • Huss e Wycliffe (base de idéias)
  • Localizada no norte da Alemanha, Suécia, Noruega e Dinamarca
O Estado é mais importante que a igreja
Calvinismo ((também presbiterianos, puritanos, huguenotes)
  • Predestinação – Deus elegeu um grupo de pessoas, mas os atos da pessoa durante sua vida é que indicam a possibilidade de ser um dos eleitos
  • Oração e trabalho são as principais características dessa sociedade
  • Posse de riquezas são indicação de arrogância

Dois:

  1. Batismo
  2. Comunhão
  • João Calvino
  • Nobres e classe média
  • Localiza em áreas a leste da França, Escócia, Inglaterra, Boêmia, Sacro Império Romano, Holanda
A igreja é mais importante que o Estado
Catolicismo
  • A salvação vem pela graça do Senhor através da fé e do trabalho
  • É necessário comparecer à igreja, a única autoridade válida para interpretar a doutrina é a igreja
  • Tradições, não apenas as Escrituras são objetos da doutrina
  • Extra ecclesiam nulla salus - não há salvação fora da igreja
  • Autoridade papal

Sete:

  1. Batismo
  2. Reconciliação:primeira confissão
  3. Primeira comunhão
  4. Confirmação
  5. Casamento
  6. Ordenação: se tornar padre (apenas homens)
  7. Extrema unção
Através da Europa, especialmente na França, Bavária, os países ibéricos, Áustria, Polonia e Itália A igreja é mais importante que o Estado

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A Contra-Reforma[editar | editar código-fonte]

Os católicos irritados com o crescimento do protestantismo e determinados a restaurar seu controle sobre a sociedade europeia, começaram seu próprio movimento reformista, que ganhou força na Itália durante os anos 1530 e 1540.

A igreja católica trabalhou por uma reforma, para reafirmar suas crenças básicas e defender sua ideologia. É importante reconhecer que eles não mudaram nada no cerne de sua crença.

  • Concílio de Trento (1545-1563) - O papa Paulo III e Carlos V Habsburgo da Áustria convocaram um concílio geral em Trento, que se reuniu esporadicamente entre 1545 e 1563.

Este Concílio reafirmava a supremacia dos clérigos sobre os leigos. No entanto, estabelecia seminários em cada diocese para formar padres.

Reformaram as indulgências, embora este processo prosseguisse. No entanto eliminaram o pluralismo, nepotismo, a simonia e outros problemas similares da igreja.

Reafirmaram a crença na transubstanciação, que durante a Eucaristia o pão e o vinho se transformam literalmente no corpo e sangue de Cristo.

O Concílio mostrou que o cisma entre protestantes e católicos tinha se tornado tão sério que não havia mais esperança de reconciliação.

Paulo III e Inácio de Loyola
  • Tentativas católicas para reconverter os protestantes e ampliar a fé - a igreja católica usou a arte barroca para mostrar cenas dramáticas da Bíblia em grandes telas. Essa arte era basicamente voltada para o espectador, e usada para tornar a religião mais interessante para os leigos.

Na Espanha e em Roma, a inquisição, ou outras instituições ligadas à igreja católica romana, foram usadas para extirpar os hereges.

Ao mesmo tempo, a igreja estabelecia o Index dos livros proibidos, que bania livros considerados heréticos.

Finalmente a igreja enviou missionários para todos os lugares a fim de espalhar suas crenças e sua fé.

  • Jesuítas - a Companhia de Jesus ou Jesuítas como ficou conhecida (fundada em 15 de agosto de 1534 na França), era uma nova ordem religiosa que surgiu como resultado da contra- reforma.

Foi fundada por um soldado e padre espanhol, Santo Inácio de Loyola (1491-1556), para converter protestantes e não cristãos ao catolicismo e adquirir terras para a cristandade.

Os jesuítas defendiam vigorosamente a autoridade papal e a autoridade da igreja católica, portanto eram chamados de “soldados do papa”.


Líderes da contra-reforma[editar | editar código-fonte]

As três maiores nações da Europa na época, eram o Sacro Império Romano, Espanha e França. Os mais importantes líderes da contra-reforma foram:

• Papa Paulo III, que convocou o Concílio de Trento

• Carlos V Habsburgo, líder da Áustria e, na época, o mais vigoroso defensor da igreja católica na Europa

• Filipe II Habsburgo, líder da Espanha e filho católico de Carlos V; ele casou com Mary Tudor da Inglaterra

• “Bloody” (Sangrenta) Mary Tudor, filha católica de Henrique VIII Tudor, casada com Filipe II

• Catarina de Medici de Florença, regente de França

• Fernando II Habsburgo


Protestantes oponentes da contra-reforma[editar | editar código-fonte]

  • Elizabeth Tudor, líder da Inglaterra, filha de Henrique VIII Tudor e meia irmã de Mary Tudor
  • Guilherme de Orange, líder da Holanda
  • Príncipes protestantes do Sacro Império Romano e da França
  • Gustavo Adolfo da Suécia


coroação de Elizabeth I

A reconquista espanhola[editar | editar código-fonte]

Como resposta à reforma e no interesse de preservar o catolicismo na Espanha, Fernando e Isabel expulsaram os judeus e muçulmanos.

Os judeus que voluntariamente ou obrigados, se tornaram cristãos ficaram conhecidos como conversos. Alguns deles continuavam praticando o judaísmo.

Eventualmente, todos os judeus foram forçados a abandonar a Espanha em 1492 por Fernando e Isabel. Seus descendentes conversos se tornaram vítimas da inquisição espanhola.

Problemas religiosos na Inglaterra[editar | editar código-fonte]

Em 1547, Eduardo VI, 10 anos de idade, filho de Henrique VIII e Jane Seymour subiu ao trono.

Ele era frio, sério e cruel, e também incrivelmente inteligente e excepcionalmente capaz para sua idade. Ele era representado por um regente que controlava a nação.

De 1547 até 1549, o regente era Eduardo Seymour. De 1549 a 1553, o regente era John Dudley.

Antes da morte de Eduardo em 1553, ele assinou um testamento deixando o trono para Lady Jane Grey, com medo de que sua irmã Mary reinando, convertesse a Inglaterra de volta ao catolicismo.

Lady Jane Grey reinou por apenas nove dias, ela e Dudley foram logo presos, porque Mary Tudor estava ganhando apoio pelo fato de que ela era a herdeira do trono pela morte de Eduardo.

"Bloody" Mary Tudor (como é conhecida) subiu ao trono em 1553 e reinou até 1558. Ela era orgulhosa, teimosa, vaidosa, vulnerável a adulações, mas acima de tudo, era fanaticamente católica. Em 1554 ela converteu a Inglaterra de volta ao catolicismo e queimou centenas de protestantes na estaca, daí seu apelido “Bloody” Sangrenta Mary.

Ela casou com Filipe II da Espanha, mas como resultado de um câncer de ovário, ela foi obrigada a reconhecer sua meia irmã protestante Elizabeth como herdeira.