Design de Mídias Participativas/Fundamentação Teórica/Inteligência Coletiva/Estética

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Anamorfoses cronópticas

O fenômeno das anamorfoses; sua relativização da perspectiva geométrica renascentista, relaciona-se diretamente com a multiplicidade dos pontos de vista. Daí decorre que a perspectiva deixa de ser encarada como ciência e passa a ser encarada como 'instrumento gerador de alucinações', o que nos leva ao mundo dos RPG (Role Playing Game) e dos Storytellings e seus respectivos universos de fantasia interativa, participativa e sobretudo de revolta juvenil orquestrada anarquicamente; seja essa revolta 'perpetrada' por 'agentes' jovens ou não.

Opções, onde estão minhas opções???? — pergunta o jovem. É o que tem de sobra no mundo do RPG. Esse é o grande apelo dessa mídia, que já teve, inclusive livros temáticos proibidos pelo governo estadunidense lá pelos idos dos anos 1990 (Steve Jackson Games - Gurps Cyberpunk).

O terreno é fértil e o leitor pode ficar tentado a imaginar que encontrou o Santo Graal em termos de Inteligência Coletiva. A realidade é bem distante disso. Nossas escolhas nos levam a determinados grupos de sociabilidade ou não e essas escolhas partem não só do que compartilham conosco, mas também e, sobretudo, do que deixam de compartilhar conosco.

Por exemplo, embora seus sintomas sejam os mesmos; o bullying é diverso do assédio moral, porque nele tem-se os agressores e as vítimas numa mesma condição institucional, todos são alunos. O assédio moral caracteriza-se por um abismo, verdadeiro em alguns casos, nem tanto noutros, de hierarquia entre o agressor e a vítima; agressão essa realizada na escola, ou seja, num ambiente altamente institucionalizado, segundo Wagner Sant Anna Figueiredo em Assédio Moral na Escola Pública - Um problema de saúde numa visão libertária.

Desse modo, uma ética da estética (relação ética da arte no mundo globalizado) tornar-se-ia preponderante em um ambiente de múltiplas significações, como o ideacionado por Pierre Lévy, se levarmos em conta implicações do cyberespaço e das comunicações digitais que giram em torno de questionamentos bastante recorrentes entre os jovens; simuladores neurais, (I-doser), interatividade em tempo real, (sistemas multimídia e hipermídia), despersonalização e fragmentação da realidade física (rede), por exemplo, estão em pauta quando nos reportamos ao homo virtualis termo cunhado pelo professor Ued Maluf em Cultura e Mosaico - uma Introdução à Teoria das Estranhezas.

Essa ética da estética apenas poderá vir à tona, caso ocorram a observação à uma holística aplicada à arte educação e suas subseqüentes ressonâncias sejam levadas à sério.

A anamorfose cronóptica é uma modalidade específica de anamorfose, na qual |deformações| resultantes de uma inscrição do tempo na imagem é referência. Desse modo, o tempo encarado como quarta dimensão do espaço. A Parábola definida pelos eixos x, y, z, w seria uma concepção de tempo materializável, o que é verificável, quando temos notícia na física de dois novos estados da matéria. Essa abordagem permite enfoque particularmente rico da estética, já que além de materializável, o tempo gozaria de uma legibilidade: Arlindo Machado em Anamorfoses Cronópticas ou a quarta dimensão da imagem - Imagem Máquina - A era das Tecnologias do virtual org. André Parente.

Mas o que essa 'viagem' tem a ver com a nossa Inteligência Coletiva? Segundo Rogério Luz em Novas Imagens: Efeitos e Modelos - Imagem Máquina - A era das Tecnologias do virtual org. André Parente; novos modos de intelecção (conceito de visibilidade e visibilidade do conceito) e reviravoltas éticas e estéticas das vontades (a partir de novas relações do sujeito consigo mesmo e com os outros) são efeitos nos quais o corpo social irá reagir em termos de posição de enunciação e mando. Uma visibilidade que expressa-se em literatura com as chamadas palavras-valise em Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, num exemplo bem distante da nossa realidade.

Essa reação, que seria melhor descrita como uma resistência, será marginal, no sentido daquilo que tem subcondições de vida humana, quando nos voltarmos para nossa realidade brasileira, senão vejamos; em Malandragem, Revolta e Anarquia - João Antônio, Antônio Fraga e Lima Barreto, Winter Bastos e Naline Narayan colocam essa visibilidade numa análise de Malagueta, Perus, Bacanaço de João Antônio. Na obra, num tratamento literário do marginal sob uma abordagem marginal, os autores expõem uma concepção da Juventude, da Maturidade e da Velhice a partir dos três personagens principais, Perus, Bacanaço e Malagueta. Numa correspondência com a Psicologia Transacional, teríamos o Pai, o adulto e a criança, onde holisticamente esses três necessitam cessar seus conflitos dentro do interior de cada indivíduo.

A fim de que possa desenvolver-se plenamente, em conjunto com os demais, o indivíduo, a partir duma cultura de assimilação, autócne, na qual uma antropologia amigável tenha em vista essa ética e essa estética, terá à sua frente todo um sem-número de opções a materializar ou não.

Uma estética dessa natureza teria sua órbita girando em torno de um devir muito próximo do termo Desmundo (anagrama ou neologismo utilizado como título de longa-metragem; produção franco-brasileira do início da nossa década |2000|, que retrata de modo contundente as desventuras do começo da colonização portuguesa em terras tupiniquins). Visto que a literariedade e a polifonia de nossa identidade cultural brasileira (alicerces dela própria) tem lugar preponderante nas mutações identitárias que pululam no cotidiano pós-moderno da contemporaneidade, pode-se discorrer a cerca de uma poética desdobrada em si mesma na origem fundatória, cujos desenvolvimentos a posteriori, esses sim, extremamente ricos em seu individualismo participativo e em sua doce anarquia; falam por si.

O processo de percepção visual, subentende vários processos transcorridos concomitantemente que geram, ao cabo de alguns segundos (por vezes nem mesmo um segundo), uma imagem e, mais do que isso, um texto.

Como apredizado por si só, demanda tempo, o papel do mediador/instrutor será o de criar o caos necessário, e quando digo caos, digo desordem, digo brainstorm, digo embaralhamento de idéias e conceitos; a fim de que, não só, seja palpável o acúmulo de conhecimento, mas também e, sobretudo que esse acúmulo gere reflexão e questionamento.

O caos possui um texto subjacente? Se partirmos do pressuposto de caos +cosmos = caosmos, teremos um giro de 360 graus ao invés de um giro de 180 graus e, uma lógica diversa da lógica circular, uma lógica profunda, uma ecologia profunda (de sistemas?). Holística, ócio criativo, sociabilidade ecológica e humana, a própria inteligência coletiva apenas tem condições de serem apreendidas por alguém que possui a alfabetização necessária em determinado conceito inerente ao meio utilizado, para deixar de utilizar o termo lingüagem. E porque deixar de utilizar o termo? Pois bem, seres vivos; animais (o homem inclusive, vale lembrar), vegetais, minerais e tudo que nos cerca é percebido por cinco sentidos humanos, levado à nosso cortéx cerebral a partir da cognicção que experimentamos. Daí decorre que o entusiasmo exacerbado pelas tecnologias do virtual é válido se, e apenas se, tomarmos como medida essa cognição humana.

A ecologia social ou sociobiologia de Murray Bookchin nos mostra coisa bem diversa da que temos em voga. A cooperação entre as espécies e não a competição criaria ambientes necessários à sobrevivência e à própria seleção natural. Gerir esse conceito, é formar um juízo de valor contrário a tudo o que temos assistido nos últimos séculos, todavia é um insight do qual não temos escapatória caso queiramos continuar habitando este planeta.

A otimização das competências apenas será alcançada quando percebermos que o questionar a si e aos outros, o questionar a própria ecologia de sistemas é eterno e por consegüinte, realiza-se num devir, muitas vezes relegando à segundo plano tanto o bom-senso quanto o senso comum e utilizando-se do... humor. Sim, o velho e surrado bom humor.

A formação de um juízo de valor alternativo ao que assistimos hoje na mídia, passa não somente pelo caos, pelo brainstorming, mas, mais do que isso, necessariamente pelo bom humor, pelo bom relacionamento entre pessoas e não pelo bom relacionamento com o Homem, conceito abstrato e, em termos da estética da qual necessitamos, despido de valor.