Civilização macrojê/Cultura

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Em sua época:

Índia xavante
Onça-pintada (Panthera onca). No idioma bororo, adugo[1].
Pintura de 1641 de Albert Eckhout intitulada "Mulher tapuia"

Na época da colonização portuguesa, influenciados pelos tupis do litoral (que eram tradicionais rivais das tribos de línguas macro-jês), os portugueses consideravam os índios tapuias (que falavam línguas macro-jês) como menos desenvolvidos culturalmente e mais selvagens que os tupis. Existe uma grande diversidade cultural entre os índios brasileiros. Na época da colonização portuguesa do Brasil, por exemplo, os índios tupis do litoral não conseguiam entender uma palavra sequer falada pelos índios macro-jês que habitavam principalmente o interior e que eram chamados de tapuia ("selvagem", ou "os que falam com a língua travada") pelo índios tupis. Pelo contrário, essas tribos macro-jês se reconheciam como semelhantes, mesmo que vivessem muito distante umas da outras[2]. Os índios tapuias inimigos dos tupis no século XVI chamavam-se a si próprios nac-manuc ou nac-poruc, os "filhos da terra", ou ainda buru[3].

De fato, os macro-jês sempre tenderam a valorizar a força física. Os goitacás, por exemplo, que habitavam a atual região fronteiriça entre os estados brasileiros do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, eram tidos como homens de força e coragem sobre-humanas, capazes de caçar tubarões munidos apenas de um pedaço de pau e de caçar veados com as mãos nuas[4]. Os índios aimorés (palavra tupi que designa um tipo de macaco[5]), que habitavam o litoral central do estado brasileiro da Bahia, possuíam indivíduos tão altos e tão largos de corpo que mais pareciam gigantes[6]. O cronista português do século XVI, Pero de Magalhães Gândavo, registrou, no seu livro "A primeira história do Brasil", que os aimorés "são mais alvos e de maior estatura que os outros índios da terra, com a língua dos quais não tem a destes nenhuma semelhança nem parentesco".[7] Nos dias de hoje, os índios canelas, craôs, xerentes, gaviões e cricatis realizam competições de corrida em que os corredores, divididos em dois times, têm de carregar troncos pesando entre vinte e 110 quilogramas por um percurso com distância entre 850 metros e quarenta quilômetros. Os caiapós realizam a mesma competição, embora os troncos sejam apenas carregados, sem a corrida. E os índios fulniôs a realizavam no passado[8][9]. Os gaviões kiykatêjês realizam uma corrida de revezamento típica, o akô e uma luta típica, o aipenkuit. Os carajás também têm uma luta típica, o idjassú. Os caiapós, até há pouco tempo atrás, praticavam uma espécie de hóquei chamado rõkrã. O padre jesuíta português Fernão Cardim relatava, na virada do século XVI para o XVII, que os índios tapuias tinham "os couros muito rijos" e que, para desenvolver esta qualidade nas crianças, costumavam açoitar-lhes "com uns cardos para se acostumarem a andar pelos matos bravos".[10] Os xavantes têm uma típica luta de bastão, o oi'ó[11] e uma típica corrida de revezamento levando aos ombros toras de buriti, o uiwede[12]. Para marcar a entrada dos jovens no mundo adulto, os xavantes têm cerimônias que exercitam a resistência física dos participantes, como o wai'á[13] e a furação de orelhas, o danhõnõ[14].

Os portugueses do período colonial brasileiro relataram que os índios macrojês, ao contrário das tribos tupis, praticavam o canibalismo dos inimigos não como vingança, mas como simples alimentação[15]. E algumas tribos tinham o costume de comer a carne de seus familiares mortos, para evitar que eles apodrecessem sob a terra, o que seria considerado degradante.

Os índios do grupo macro-jê tradicionalmente vivem da caça, pesca, coleta de produtos da floresta e de cultivos agrícolas. Estas atividades, por exaurirem com o passar do tempo os recursos naturais, exigem frequentes migrações em busca de novos territórios. Isto fez com que esses índios não desenvolvessem cerâmica e tecelagem, que seriam produtos trabalhosos de se carregar nas migrações. Em vez disso, os instrumentos fabricados pelos macro-jês tendem a ser simples e leves, ideais para serem carregados ou mesmo abandonados. Para a caça, eram utilizados grandes arcos, maiores que os normalmente utilizados pelos índios tupis. Para a guerra, eram utilizados porretes semelhantes aos utilizados pelos índios tupis. Os bororos chamam esses porretes de arago[16]. Para dormir, os índios macrojês tradicionalmente não usavam redes, somente cobriam o chão com ramos de árvores, formando um leito de folhas.

"As cabanas dos puris", quadro de 1822 de M. G. Eichler, segundo Maximilian zu Wied-Newied
"Botocudos, puris, pataxós e maxacalis", litografia de Jean-Baptiste Debret de 1834
Índio pataxó fumando cachimbo

Os grupos macro-jês costumam se dividir em duas metades, sendo que os membros de uma metade só se casam com os membros da outra metade e o homem que se casa passa a fazer parte do grupo da mulher.

Dentro da cultura macro-jê tradicional, não existiam roupas. Em vez disso, as pessoas pintavam o corpo com tintas extraídas das sementes de jenipapo e de urucum e de cinzas. Um costume sempre presente é adornar os lóbulos das orelhas, o nariz e a boca com pedaços de osso ou madeira enfiados em perfurações feitas na pele. Em vista disso, muitas vezes os índios de cultura macrojê eram chamados pelos colonizadores brancos de "botocudos", numa referência à palavra "botoco", que significa "rolha" em português.

Muitas regiões com presença macro-jê no passado guardaram este fato através da toponímia: por exemplo, o sul do Ceará é conhecido como Cariri, em referência aos índios cariris[17]. A cidade de Mossoró, no estado brasileiro do Rio Grande do Norte, tem esse nome devido a seus habitantes originais, os índios monxorós. A cidade de Quixeramobim, no estado brasileiro do Ceará, deve seu nome provavelmente aos índios quixarás, um ramo dos tarairius. A serra dos Carajás, no sul do estado brasileiro do Pará, era território dos índios carajás até 1967, quando foi descoberta no local a maior mina de ferro a céu aberto do mundo[18].

Os tremembés até hoje fabricam e consomem o mocororó, a bebida fermentada obtida a partir do caju. A bebida é ingerida principalmente durante a dança típica do toré. Os caingangues têm, como bebida típica, o aquiqui, que é um destilado alcoólico de milho.[19] Os descendentes dos kariris até hoje fabricam e consomem uma bebida com efeitos psicotrópicos obtida a partir da infusão da casca da jurema (Mimosa hostilis) dentro do ritual religioso do ouricuri[20].

Índio tapuia retratado por Albert Eckhout no século XVII

As lendas tradicionais dos povos macro-jês têm uma finalidade prática: ensinar valores morais aos membros das comunidades. Por exemplo, a lenda bororo sobre um garoto que não tem paciência de esperar a comida esfriar e come-a quente, transformando-se então em um papagaio, ensina a evitar a gula [21]. Outra lenda bororo fala sobre os homens de uma tribo que matam as lontras que ajudavam as mulheres da tribo a pescar. Como punição pelo ato violento dos homens, as mulheres lhes preparam um suco de pequi com espinhos que os transforma em porcos[22]. Uma lenda apinajé explica o papel da mulher como auxiliar do homem[23].

Os índios do grupo macro-jê não influenciaram tanto a cultura brasileira contemporânea quanto os do grupo tupi. Uma exceção é a dança dos caboclos, uma reminiscência da cultura puri que sobrevive até hoje entre os descendentes dos puris no município de Araponga, no estado brasileiro de Minas Gerais[24]. Outra influência da cultura dos índios de línguas macro-jês na cultura brasileira contemporânea são os nomes de algumas localidades no sul do Brasil que têm origem na língua caingangue: Goioerê (que significa "Campo da Água"), Xanxerê ("Campo da Cascavel"), Erechim ("Campo Pequeno"), Erebango ("Campo Grande"), Campo Erê ("Campo da Pulga"), Goioxim ("Água Pequena") e Nonoai (o nome de um famoso chefe caingangue[25]).[26]

Como os demais índios brasileiros, os do grupo macro-jê estão passando por um processo intenso de aculturação segundo a cultura do homem branco. Atualmente, vestem roupas, dirigem carros e motos, sabem a língua portuguesa e procuram se integrar ao mundo empresarial contemporâneo. Os índios caiapós, do estado brasileiro do Pará, por exemplo, assinaram, na década de 1990, um acordo de venda de óleo de castanha-do-pará para a empresa inglesa de cosméticos Body Shop que rendeu à tribo 700 000 dólares estadunidenses em cinco anos[27]. Os caiapós, particularmente, são conhecidos pela riqueza adquirida através da venda de madeira e de ouro extraídos de suas terras[28].

Referências

  1. SILVA, A. C. Lendas do índio brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro. p. 39
  2. GÂNDAVO, P. M. A primeira história do Brasil. Segunda edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. p. 167
  3. CHAIM, M. Aldeamentos indígenas (Goiás 1749-1811). Segunda edição. São Paulo: Nobel, 1983. p. 47
  4. BUENO, E. Capitães do Brasil. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. p.113
  5. GÂNDAVO, P. M. A primeira história do Brasil. Segunda edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. p. 164
  6. GÂNDAVO, P. M. A Primeira História do Brasil. Segunda edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. p. 164
  7. GÂNDAVO, P. M. A primeira história do Brasil. Segunda edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. p. 164
  8. http://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:m9bEsZkqHzwJ:www.ifma.edu.br/SiteCefet/publicacoes/artigos/revista7.4.2/Leopoldo_Corrida_entre_os_indios_canelas....pdf+j%C3%AA+tronco+carregam&hl=pt-BR&gl=br&pid=bl&srcid=ADGEESj0MRRnF5B5VId0uOPgt0n02V3MMA-Bd48SLGnBRZmVthmjZm3OFrYiFKVCselXL63lYvixpO7M37786pT_03Sp7g5qDG--kcDTytS8-860JQrroD_HhkdKw8kXJTcwsLqkySCc&sig=AHIEtbQppBoWkGfHB5eBYLSjgnvBVQWLcg
  9. http://www.funai.gov.br/indios/jogos/novas_modalidades.htm#005
  10. CHAIM, M. Aldeamentos indígenas (Goiás 1749-1811). Segunda edição. São Paulo: Nobel, 1983. pp. 46-47
  11. http://www.wara.nativeweb.org/oio.html
  12. http://www.wara.nativeweb.org/uiwede.html
  13. http://www.wara.nativeweb.org/waia.html
  14. http://www.wara.nativeweb.org/danhono.html
  15. GÂNDAVO, P. M. A primeira história do Brasil. Segunda edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. p. 166
  16. SILVA, A. C. Lendas do índio brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro. p. 44
  17. http://www.fundacaocasagrande.org.br/cariri.php
  18. http://super.abril.com.br/superarquivo/1997/conteudo_116059.shtml
  19. AURÉLIO, A. B. Novo dicionário Aurélio. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 152
  20. http://plantasenteogenas.org/community/threads/kariri-xoc%C3%B3-o-povo-da-sagrada-jurema.4376/
  21. SILVA, A. C. Lendas do índio brasileiro. Rio de Janeiro: Tecnoprint. p. 136
  22. SILVA, A. C. Lendas do índio brasileiro. Rio de Janeiro: Tecnoprint. p. 119
  23. SILVA, A. C. Lendas do índio brasileiro. Rio de Janeiro: Tecnoprint. p. 112-113
  24. http://www.iracambi.com/portuguese/puris.shtml
  25. http://www.ferias.tur.br/informacoes/7896/nonoai-rs.html
  26. http://www.portalkaingang.org/Lgua_Kaingang.pdf
  27. http://epoca.globo.com/edic/19990104/brasil3.htm
  28. http://webradiobrasilindigena.wordpress.com/indios-do-brasil/