A história do Japão da Cambridge/O século da reforma

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O século da reforma[editar | editar código-fonte]

A história do Japão tem sido profundamente marcada por reformas adotadas durante dois longos, mas amplamente separados, períodos de contato com culturas estrangeiras expansivas. O primeiro começou por volta de 587 d.C., quando Soga no Umako assumiu o controle do governo central do Japão, fez uso extensivo das técnicas chinesas para expandir o poder estatal e apoiou a introdução e disseminação do aprendizado chinês. O segundo veio depois da Restauração Meji de 1868, quando novos líderes moveram o país em direção da industrialização e do encontro com o Ocidente.

O modo de vida japonês foi muito alterado pela cultura chinesa muito antes da tomada do poder pelo Clã Soga em 587 e muito depois dos últimos anos do século IX, quando foi tomada a decisão de enviar missões oficiais à China. Mas durante os três séculos seguintes, a aristocracia japonesa ficou fascinada pelo grande poder e as grandes realizações que ocorreram na a China sob as grandes dinastias Sui (de 589 a 618) e Tang (de 618 a 907), a tal ponto que a ação e o pensamento do modo de vida japonês naqueles dias tinha um tom fortemente chinês, especialmente nos estratos superiores da sociedade. O primeiro dos três séculos de notável influência chinesa – aproximadamente o século VII e o assunto deste capítulo – foi uma época de reforma dominado pelo caminho chines. O próximo século – o século VIII , e que será abordado no próximo Capítulo – é conhecido como Período Nara, quando o Japão era governado a partir de uma capital modelada como a capital chinesa Chang-an. E o terceiro foi uma época em que quase toda a aristocracia estava imersa em um aspecto ou outro do aprendizado chinês.

Ao longo destes séculos de reforma, duas amplas e profundas correntes de mudança se interligaram: uma decorrente de um forte e persistente desejo de construir um poderoso Estado ao estilo chinês e a outra proveniente de uma crescente abertura a diversas expressões da arte e da aprendizagem chinesas. Ao traçar esses movimentos através destes séculos de reformas, logo se percebe que foram acelerados e tomaram em novas direções, não apenas por uma familiaridade cada vez maior com as realizações chinesas, mas também por três convulsões políticas dentro do Japão: (I) a tomada do controle do Clã Soga do Estado em 587, que inaugurou o que foi chamado de Iluminismo Asuka; (II) o Golpe de 645 seguido da adoção das Grandes Reformas, e (III) a Guerra Civil de 672 (o Jinshin no ran) após a qual novos líderes foram notavelmente bem sucedidos em fazer do Japão um Estado forte e despótico.

O Iluminismo Asuka[editar | editar código-fonte]

Os historiadores tendem a pensar que a Iluminismo Azuka começou em 587 com a tomada do poder por Soga no Umako, ou em 592 com a entronização da Imperatriz Suiko, mas o caráter chinês do iluminismo sugere que a reunificação da China em 589 pode ter sido um ponto de partida mais significativo, embora o Japão não tenha enviado uma missão oficial à Corte de Sui até 600. Antes de considerar a história política e cultural destes primeiros anos do século de reformas do Japão, vamos olhar para a questão de como a ascensão deste novo Império Chinês afetou os canais de contato do Japão com o continente.

O Império Sui[editar | editar código-fonte]

Após o colapso da China Ocidental em 317 d.C., o norte da China foi invadido por culturas não chinesas e dilacerado por conflitos internos. Nos 250 anos seguintes ou até mesmo depois, o país foi dividido em uma sucessão de estados e reinos regionais. Então, em 578, um imperador da Dinastia Zhou do Norte uniu a maior parte do norte da China, e em 581 um general da Dinastia Zhou do Norte (o famoso Yang Jian que será conhecido como o Imperador Wen-ti) fundou a Dinastia Sui. Em 589, ele conquistou a poderosa Corte do Sul dos Chen e colocou toda a China sob um único governo. A ascensão do novo império foi seguida por um restabelecimento de relações tributárias com estados e reinos vizinhos na maior parte do leste da Ásia. Visitantes de terras estrangeiras como o Japão ficavam impressionados com os enormes projetos de construção da China, que incluíam uma cidade-palácio murada de cerca de 10 quilômetros de extensão e 8 quilômetros de largura com um sistema de drenagem amplo. A atenção dos estrangeiros também era atraída para outras conquistas: uma burocracia complexa e eficaz que alcançava comunidades locais em regiões distantes, um extenso sistema tributário, uma enorme organização militar e codificações detalhadas da lei. Observadores estrangeiros interessados ​​em reorganizar seus Estados também puderam verificar como os rituais imperiais chineses honravam seus Imperadores como Filhos do Céu, a ética confuciana valorizava a obediência aos chefes de Estado, os textos budistas descreviam os governantes como agentes da lei universal e os ensinamentos taoístas acrescentavam legitimidade ao controle imperial. [1]

Os reinos coreanos localizados perto da fronteira com a China (Koguryo, também conhecido como Goguryeo e Paekche, ou Baekje) foram afetados mais cedo e mais profundamente pelo novo império chinês do que os estados localizados mais distantes, ou seja, Silla e Japão. Koguryo (o mais próximo) reagiu primeiro mobilizando tropas para impedir um possível avanço chinês vindo do norte; Paekche rapidamente estabeleceu relações com a Corte de Sui, mas não se sentiu seriamente ameaçado; Silla permitiu que passassem três anos antes de enviar uma missão diplomática; e o Japão não fez nenhum contato oficial até 600. Dessa forma a influência chinesa no Japão veio indiretamente através das relações com os reinos coreanos e entre esses reinos e a China, e a visão geral dessas relações ajudará a mostrar como os contatos com o continente influenciaram o Japão durante o Iluminismo Asuka.

Mantendo uma posição chave entre os reinos coreanos que prestavam tributos às Cortes do Norte da China, Koguryo tradicionalmente enviava tributo a uma Corte do Norte após a outra conforme uma dinastia dominava outra. E assim que a Dinastia Zhou foi substituído pela Sui em 581, Koguryo imediatamente enviou suas homenagens. Mas quando chegou a notícia ao rei de Koguryo em 589 de que as forças do Norte de Sui haviam destruído a Corte Chen do Sul e ressuscitado o Império Chinês Unificado, ele e seus conselheiros presumiram que o Imperador Wen-ti logo enviaria exércitos contra Koguryo numa tentativa de restabelecer o sistema colonial chines que existia na Coréia durante os tempos da Dinastia Han. A Corte de Sui provavelmente tinha tais ambições, pois no ano seguinte Wen-ti condenou Koguryo por não ter enviando uma missão tributária e exigiu um pedido de desculpas. Por alguns anos, o novo rei de Koguryo (Yong-yang) lidou com a Corte de Sui da maneira tradicional (enviando tributos e aceitando compromissos) e com isso suas relações permaneceram amigáveis.

Mas em 598, Yong-yang subitamente mobilizou 10.000 cavaleiros e atacou um território localizado do lado chinês da fronteira. O Imperador Wen-ti imediatamente mobilizou 300.000 tropas, ordenou a invasão à Koguryo e despojou o rei de Koguryo de suas funções e títulos. Então Yong-yang pediu desculpas e aceitou as nomeações e concessões dos Sui. As tropas chinesas foram vitoriosos, mas sofreram pesadas baixas. Por um tempo, as relações Sui-Koguryo gravitaram na normalidade, mas relatos registrados no Suí Shū (O Livro dos Sui) indicam que a posição dos oficiais da corte chinesa que eram a favor de que se mobilizasse outra campanha contra Kuguryo estava ficando cada vez mais forte.

Com medo de que um Kuguryo poderoso e independente pudesse desencadear a resistência de outros povos nas regiões do norte, o sucessor de Wen-ti (o Imperador Yang-ti, que reinou entre 605 e 617) organizou três campanhas contra este reino coreano entre 612 e 614, depois de condená-lo por “Conluio nefasto com os Khitan (grupo étnico proto-mongol da Manchúria ) e Malgal (outro grupo étnico da Manchúria que se rebelou contra a dinastia Sui) e por violar o território Sui.” Mas nenhuma das três campanhas foi bem sucedida. De fato, as despesas cumulativa e o fracasso provocaram um tumulto generalizado e aceleraram a queda da dinastia Sui em 618. Estudiosos explicaram as falhas militares dos Sui de várias maneiras diferentes, mas claramente Koguryo era forte o suficiente para se defender contra ataques maciços do grande Império Chinês. [2]

Paekche, ao sul e a oeste de Koguryo, ocupava uma posição chave para muitos daqueles reinos (incluindo a Dinastia Yamato do Japão), e sempre pagou tributos às Cortes do Sul da China. A resposta de Paekche à ascensão de um novo Império Chinês, foi bem diferente daquela assumida por Kuguryo, e por causa disso favoreceu a influência chinesa no Iluminismo Asuka. Como Paekche era tributário da Corte Chen do Sul da China, suas simpatias estavam com o sul na época da guerra de 589, da qual Sui emergiu vitorioso e um novo império chinês nasceu.Dessa forma, assim que Paekche ouviu falar da vitória Sui, enviou uma mensagem de congratulações a Wen-ti e fez o gesto amistoso de devolver um navio de guerra chinês que ficara encalhado em uma ilha no Mar da China Oriental. Wen-ti ficou encantado ao receber propostas amigáveis de Paekche.

Silla, o terceiro maior reino da peninsula coreana e um dos mais distantes da China, não enviou imediatamente tributos à Corte de Sui e, além disso, tentou fortalecer suas defesas militares, aparentemente compartilhando o temor de Koguryo de que Wen-ti logo procuraria restaurar o controle sobre toda a península coreana. Ao responder ao renascimento do império chinês da mesma forma que Koguryo, Silla continuava a agir como um membro da antiga aliança do norte (Aliança Silla-Koguryo). Para o Japão dos Yamato Paekche se tornou seu principal aliado enquanto Silla se colocava como o maior obstáculo para que obtivesse um pé na peninsula.

Após o primeiro contato com a Corte de Sui, a história da Dinastia Yamato foi influenciada em vários tipos de atividades: como o uso das técnicas administrativas chinesas para aumentar o poder do Estado e a introdução de várias formas de aprendizado chinês. Embora a mudança administrativa estivesse diretamente relacionada à reforma do século VII, a mudança cultural - especialmente aquela ligada à adoção oficial e difusão do budismo - parece ter dado ao Iluminismo Asuka seu caráter básico.

Apoio oficial ao Budismo[editar | editar código-fonte]

Os primeiros e mais brilhantes raios do Iluminismo emanaram das atividades dos sacerdotes imigrantes que participavam das construções dos templos como mestres artesãos (carpinteiros de templos, fabricantes de telhas e telhados, artistas muralistas, escultores e entalhadores de madeira), fornecendo experiência para construir e equipar os quarenta e seis complexos budistas construídos durante o Período Asuka. Esses complexos incluíam três famosos: o Asuka-dera, o Arahaka-ji e o Ikaruga-ji. Muitos destes sacerdotes imigrantes – também eram estudiosos de formas não-budistas de aprendizado como confucionismo, lei chinesa e literatura e história chinesas – fizeram contribuições cruciais para o Iluminismo Asuka.

Grandes obras de arte Asuka criadas por sacerdotes estrangeiros e preservadas como tesouros nacionais japoneses incluem (1) a tríade Shaka (Shaka sanson): a estátua de Shaka no estilo nortista de Wei e dois assistentes bodhisattvas construídos em 623; (2) uma estátua de madeira em pé de Kannon (conhecida como Kudara Kannon) com características do sul da China e provavelmente feita durante a primeira metade do sétimo século; (3) pinturas nas laterais de um pequeno altar em laca (o Tamamushi no zushi); e (4) uma estátua do Buda da Cura (Yakushi nyorai) que contém uma inscrição declarando que a estátua foi completada em 607. Todos esses tesouros nacionais são mantidos em Horyu-ji (antes de ser reconstruído em algum momento no século VII era chamado de Ikaruga-ji), uma representação institucional verdadeiramente notável do Iluminismo.

Outros tesouros nacionais vieram daquela época, dos quais alguns estão em pé de igualdade com os melhores objetos de arte produzidos na China contemporânea, incluindo uma tapeçaria (o tenju koku shu-cho) [3] pertencente ao mosteiro Chugu-ji e uma escultura em madeira do Buda do Futuro (Maitreya), realizada pelos monges de Koryu-ji na atual Kyoto.

Antes de traçar o processo pelo qual as bases institucionais foram estabelecidas para tal desenvolvimento cultural, vamos examinar brevemente o uso cada vez mais amplo do sistema chinês de escrita no Japão. Durante séculos, os japoneses viram caracteres chineses esculpidos em espelhos, selos e espadas importados. Supõe-se que no século V os japoneses mantinham vários tipos de registros escritos em chinês, embora apenas as inscrições em espelhos e espadas, e o memorial que o Imperador Yūryaku dirigiu à Corte Sung em 478, tenham sido preservados. Mas o que chegou até nós apóia a suposição de que as primeiras crônicas do Japão, particularmente o Nihon shoki e o Kojiki, foram baseadas em fontes do século V e VI, que não existem mais, bem como em informações obtidas das crônicas de Paekche.

Embora o conhecimento da escrita deva ter sido usado naqueles anos de pré-ilumismo principalmente para manter contas, verificar compromissos de Estado e certificar linhas de descendência genealógica, alguns itens do século VI no Nihon shoki apontam para um interesse crescente em outros tipos de materiais escritos. Por exemplo, um registro do ano 513 afirma que o rei de Paekche (Muryong) enviou, como tributo, um estudioso dos Cinco Clássicos Confucionistas. [4] E três anos mais tarde Paekche enviou outro estudioso confuciano para substituir aquele que havia chegado em 513. [5] Como observamos no Capítulo anterior, os contatos de Paekche com a China foram em grande parte com as Cortes do Sul, uma conclusão documentada em um registro do Liang shu (a história dinástica dos Liang) relata o envio de um estudioso de ritos confucianos (li) para Paekche em 541. A partir de tais evidências, supõe-se que as idéias confucianas estavam chegando ao Japão várias décadas antes de Soga no Umako tomar o poder em 587, através de Paekche vindas da Corte de Liang. [6]

Mas livros sobre outros assuntos também estavam chegando, e muitos foram fornecidos em resposta a pedidos específicos feitos por um soberano japonês. A evidência mais convincente sobre um interesse mais amplo e profundo no aprendizado chinês aparece em um registro do Nihon Shoki. Depois de enunciar que os embaixadores de Paekche vieram pedir ajuda militar, o registro afirma que cinco eruditos dos Clássicos Confucianos vieram junto com os embaixadores para substituir um erudito confuciano enviado ao Japão em uma data anterior e que nove sacerdotes budistas também vieram para tomar o lugar de outros sete que iriam retornar. Para encerrar, os registros acrescentam que alguns especialistas chegaram a Yamato de Paekche em substituição a outros: um adivinho, um especialista em calendário, um médico, dois herboristas e quatro músicos. [7] Quando relacionamos essa referência com os achados arqueológicos do século VI e as ações oficiais tomadas durante o período do Iluminismo, vemos que um número cada vez maior de funcionários da Corte estava ciente – muito antes da tomada do poder pelos Soga – dos benefícios políticos e pessoais a serem obtidos de saber ler e escrever caracteres chineses. Ou seja, esses funcionários estavam aprendendo sobre as idéias chinesas de governança, conforme estabelecidas nos textos confucionistas, adotando símbolos budistas e práticas favorecidas pelos chineses, e estudando adivinhação chinesa, calendários, medicina, ervas e música.

Como o budismo estava no centro da significante mistura cultural conhecida como a Iluminismo Asuka, uma atenção especial deve ser dada à maneira como o budismo conciliou os interesses de Paekche com o destino dos Soga. A conexão é revelada tanto no tempo como no texto da primeira referência conhecida da apresentação de estátuas budistas e escrituras budistas na corte de Yamato por um rei Paekche. Esta apresentação aparentemente foi feita em 538, ano em que o Rei Songmyoung de Paekche foi forçado pela pressão de Koguryo a transferir sua capital de Ungjin para Puyo, mais ao sul e mais longe da fronteira com Koguryo. De acordo com o Jogu Shotoku Ho-o tei setsu, foi quando o Songmyong enviou ao Imperador Kimmei uma estátua budista e vários volumes das escrituras budistas. A versão do Nihon Shoki sobre o evento (datada de 552 em vez de 538') afirma que o Rei Songmyong fez um pedido de ajuda militar que fortaleceria suas defesas contra seus vizinhos agressivos: Koguryo e Silla. Em um artigo separado para o mesmo ano, o Nihon Shoki nos conta que os presentes budistas foram acompanhados por um memorial no qual Songmyong diz: Grandes homens do passado (incluindo o Conde de Chou, futuro Imperador Wen, e Confúcio) tinham pleno conhecimento da doutrina; pessoas em nações tão distantes quanto a Índia reverenciavam os ensinamentos budistas; e o próprio Buda previu que sua lei se espalharia para o leste. [8] Songmyong parece ter usado esse argumento, a fim de obter o apoio militar necessário, que o universalismo budista se beneficiou e continuaria a beneficiar os construtores de Estados fortes em toda parte, especialmente em terras tão orientais como Yamato.

Ao receber a estátua budista e as escrituras e ouvir o que havia sido dito sobre o maravilhoso poder dos ensinamentos de Buda, diz-se que o Imperador Kimmei “pulou de alegria”. Quando perguntado a seus principais ministros o que pensavam sobre honrar a estátua, estes ofereceram visões conflitantes. Soga no Iname, chefe de um clã de imigrantes cada vez mais poderoso, recomendou o reconhecimento oficial, reiterando a opinião de que todos os estados do ocidente adoravam Buda e que não via motivo para que Yamato fosse uma exceção. Nakatomi no Muraji, chefe de um antigo clã conservador, insistiu que a adoção de um deus estrangeiro enfureceria os Kami nativos. Dessa forma, o Imperador Kimmei, foi persuadido a não estender sua bênção real à fé estrangeira, mas permitiu que Iname tivesse a liberdade de honrar a estátua da maneira que desejasse.

O desacordo entre os dois clãs sobre a questão de se o budismo deveria ou não ser oficialmente patrocinado refletia pressupostos fundamentalmente diferentes sobre a autoridade de um chefe para governar seu clã, ou um rei para governar o estado Yamato: Considerando que os clãs imigrantes consentiam com a fé budista importada na qual poderiam ocupar altos cargos religiosos e que os clãs mais antigos e mais conservadores haviam se acostumado ao culto do clã kami, cujos chefes eram os sumos sacerdotes. Desta forma, a questão budista não era simplesmente uma questão de forum individual, mas sim uma questão política e social que tornava impossível a adoção da nova religião enquanto os clãs conservadores estivessem no controle da corte.

Isso durou até 587, quase meio século depois, quando o equilíbrio de poder foi alterado, e só então o budismo foi oficialmente reconhecido. O choque militar daquele ano foi entre clãs ligados aos imigrantes, como o Clã Soga e os clãs de raízes japonesas, como o Clã Mononobe. Enquanto as tropas estavam sendo preparadas para o confronto, Soga no Umako prometeu propagar a fé budista por toda a terra se ele e seus aliados ganhassem. Consequentemente, não muito depois de sua vitória, embaixadores chegaram de Paekche trazendo sacerdotes budistas, relíquias budistas, construtores de templos, metalúrgicos, ceramistas e pintores. O trabalho foi logo iniciado com a construção de um grande templo budista, o Asuka-dera, que se tornou o centro de irradiação do Iluminismo. [9] O Nihon Shoki prossegue contando sobre as freiras que vieram de Paekche, da busca por madeira para construir templos budistas, da conversão ao budismo de moças aristocráticas e da chegada à Corte de sacerdotes budistas chineses. [10] Mas 593 foi verdadeiramente um ano notável na história do budismo japonês. Naquele ano, a Imperatriz Suiko (recém entronizada) ordenou que seus nobres da corte apoiassem o budismo; O Príncipe Shotoku (recém-nomeado príncipe herdeiro) se envolveu no desenvolvimento das atividades budistas a tal ponto que passou à ser conhecido como o pai do budismo japonês. Além disso, relíquias budistas (provavelmente importadas) foram enterradas debaixo da pedra fundamental de Asuka-dera. Um registro do Nihon Shoki do ano de 594 afirma que nesta época os líderes dos principais clãs estavam competindo uns com os outros na construção de templos budistas “construído em homenagem a seus lideres e parentes [falecidos]”, [11] e um registro de 595 observa que dois sacerdotes budistas (um de Paekche e um de Koguryo) chegaram a Corte, pregaram sua religião amplamente e se tornaram os pilares do budismo japonês. [12] Finalmente, o primeiro grande complexo do templo budista, o Asuka-dera, foi concluído em 596.

Até recentemente, não era conhecida a localização precisa do Asuka-dera original nem seu tamanho e o posicionamento de seus edifícios. Mas, como resultado de uma meticulosa pesquisa realizada entre 1956 e 1957, os arqueólogos conseguiram localizar as bases do grande complexo do templo e identificaram e mediram cada uma de suas principais estruturas. Desta forma descobriram os alicerces de um pagode construído no centro do complexo, três salões de ouro (kondo) erguidos em três lados do pagode, um grande portão principal na entrada sul do complexo, um corredor que interligava os salões com o pagode, além disso um auditório foi descoberto ao norte do corredor. [13] Este complexo de templos é historicamente significativo em vários aspectos: foi o primeiro grande edifício de estilo continental construído no Japão; ocupou uma posição central na primeira capital “permanente” do Japão; foi o primeiro de uma série de grandes complexos construídos pelo Estado espalhados em grandes quadras; tinha um layout e estilo semelhantes aos dos templos budistas já construídos na Coréia; e possuía um caráter de templo de clã (ujidera) comum a todas as instituições budistas fundadas nessas primeiras décadas do século da reforma. O que restou do grande Asuka-dera fornece evidências concretas e impressionantes de que o Japão permaneceu no limiar de um novo período da história orientado para a China.

Outro templo budista construído naqueles primeiros anos do Período Asuka, foi o Arahaka-ji (mais tarde conhecido como Shitenno-ji ou Templo dos Quatro Reis Celestiais) tem um significado diferente. Parece ter se originado com votos que o Príncipe Shotoku (e não Soga no Umako) fez em 587 quando os campos de clãs opostos estavam mobilizando tropas para a guerra. [14] Estes votos, bem como referências posteriores ao Templo dos Quatro Reis Celestiais e ao templo Arahaka-ji, estão ligados ao príncipe. Além disso, Arahaka-ji não foi construído na capital Asuka, como foi o Asuka-dera construído por Soga, mas na cidade portuária de Naniwa, mais perto de Ikaruga onde o palácio do príncipe será erguido alguns anos mais tarde. De fato, o surgimento de Arahaka-ji como um importante templo parece estar relacionado com a ascensão do Príncipe Shotoku a uma posição de grande influência tanto nos assuntos internos quanto nos negócios estrangeiros.

Um tratado do século X sobre a vida do Príncipe Shotoku afirma categoricamente que a estátua dos Quatro Reis Celestiais, feita quando o príncipe fez seu voto de 587, foi instalada (em Arahaka-ji) voltada para o oeste para que seu misterioso poder pudesse ser utilizado para “subjugar os inimigos estrangeiros”. O Templo dos Quatro Reis Celestiais, proeminente no famoso Sutra do Rei Benevolente (Prajna Paramita Sutra), foi homenageado pelo seu misterioso poder de proteger o Estado. Este sutra, fundamental no início da história do budismo na China e na Coréia, é considerado um dos mais importantes para a história do budismo japonês. Mas não tinha sido mencionado nas crônicas japonesas até 660, o sexto ano do reinado da Imperatriz Saimei. Mesmo nos sutras em que afirmavam que o Príncipe Shotoku tinha escrito comentários, não se incluía o Sutra do Rei Benevolente. Assim, questionam-se que as referências do Nihon Shoki de afirmam que o Arahaka-ji seria o Templo dos Quatro Reis Celestiais e as que afirmam que a estátua dos Quatro Reis Celestiais fosse feita pelo próprio Príncipe Shotoku não teriam sido acrescentadas em um data posterior, possivelmente em meados do século VII quando o Japão estaria muito mais preocupado com o perigo da invasão estrangeira e muito mais envolvido na "proteção das crenças do país" expressas no Sutra do Rei Benevolente.

Era sintomático a construção de Arahaka-ji em Naniwa, a porta de entrada para a Coréia e a China. Que ocorreu mais ou menos na época em que o príncipe estava desenvolvendo uma política externa mais positiva, como refletido no despacho do ano 600 de uma força expedicionária contra Silla e na missão diplomática que foi até a Corte Sui da China.

Como Ikaruga estava muito longe da capital Asuka e estava situada onde anteriormente fora o território controlado pelo Clã Soga, alguns historiadores argumentam que o príncipe mudara-se para a região a fim de desfrutar do apoio dos clãs imigrantes que se opunham aos Soga (como por exemplo o Clã Kashiwade) cujo território estava localizado na área de Ikaruga. Essa visão é apoiada por recentes investigações do Túmulo de Fujinoki, localizado a apenas 350 metros do Ikajuka-ji e construído na última metade do século VI. Se os descendentes da pessoa ali enterrada tinham alguma conexão especial com o Príncipe Shotoku não se sabe, mas a localização e tamanho do monte sepulcral (40 metros de diâmetro que cercava uma câmara de pedra de 16 metros de comprimento) fornece fortes evidências de que ali foi enterrado um líder de clã poderoso e com riquezas extraordinárias, que conquistou o controle daquela área antes que o Príncipe Shotoku se mudasse para seu palácio de Ikaruga e construísse o templo de Ikaruga.

O túmulo de Fujinoki também tem uma aparência coreana, o que sugere que a pessoa que foi enterrada lá era de um clã que, como os Soga, era formado principalmente por imigrantes com fortes laços culturais com a Coréia. Io Yusuke concluiu que a armadura encontrada no túmulo era importada da Coreia. Ele também afirmou que os japoneses nativos daquela época não saberiam o significado dos padrões ornamentais esculpidos nos acessórios encontrados no Monte Fujinoki, nem como fazer tais acessórios. [15] Os objetos importados do túmulo escavado deste monte, o estilo coreano dos três grandes complexos de templos construídos no início do Período Asuka, os traços culturais continentais do Período Asuka, os tesouros nacionais armazenados no Horyu-ji, a proeminência dos sacerdotes coreanos entre os 1.384 clérigos (815 monges e 569 freiras) que serviram nos quarenta e seis templos construídos em 624, bem como as conexões coreanas com a corte dominada pelos Soga, sugerem que grandes avanços estavam sendo feitos (durante o Iluminismo Asuka) para o estabelecimento de uma civilização urbana que era definitivamente coreana em seu caráter intrínseco.

Preparação para as reformas[editar | editar código-fonte]

O desejo dos japoneses de usar métodos e idéias continentais para a construção do Estado tornou-se mais forte depois da missão enviada para a Corte Sui em 600, quando o Príncipe Shotoku estava começando a ofuscar Soga no Umako na direção dos assuntos de Estado. A ascensão do príncipe refletiu-se na decisão tomada em 601 de iniciar a construção de um novo palácio para ele em Ikaruga e na escolha em 602 de seu irmão mais novo como comandante de uma nova força expedicionária contra Silla. Depois disso, se empenhou na introdução de métodos continentais de fortalecimento do Estado, destacando a adoção de um sistema de ranqueamento na Corte similares aos de Koguryo e Paekche, a formulação das famosas Dezessete Injunções (também conhecida como Constituição dos dezessete artigos) e o intercambio diplomático dos anos 607-608 com a Corte Chinesa. Embora tenham sido levantadas questões sobre qual papel o príncipe desempenhou (se desempenhou algum) nesse desenvolvimento e se as injunções foram realmente escritas tão cedo, cada uma dessas questões foram proeminentes em um prelúdio pré-645 das chamadas Grandes Reformas.

Embora existisse na China um sistema de “cargos e patentes” (kani) desde a Dinastia Wei do século III, o sistema adotado pelo Japão em 603 era mais próximo e influenciado mais diretamente por Koguryo e Paekche do século VI. Todos compartilhavam a prática Sui de usar boinas feitas de seda púrpura, decorados com ouro e prata, e cuja posição era indicada por penas de diferentes cores. Os nomes das posições variavam de Estado para Estado, mas os nomes adotados no Japão tinham um caráter confucionista mais forte que os de Koguryo. Cada uma das doze posições japonesas era diferenciada pela cor da boina e recebeu o nome de maior ou menor medida de uma virtude confucionista particular (presumivelmente em ordem decrescente de importância): 1) maior virtude (Daitoku), 2) menor virtude (Shōtoku), 3) maior benevolência (Daijin), 4) menor benevolência (Shōjin), 5) maior propriedade (Dairei), 6) menor propriedade (Shōrei), 7) maior sinceridade (Daishin), 8) menor sinceridade (Shōshin), 9) maior justiça (Daigi), 10) menor justiça (Shogi), 11) maior conhecimento (Daichi) e 12) menor conhecimento (Shochi). [16]

Como na Coréia, a outorga das boinas e escalões era acompanhada por nomeações que deixavam de ter um caráter hereditário para serem baseadas de acordo com a capacidade e realizações dos indivíduos. Enquanto os títulos antigos (kabana) eram concedidos a clãs e chefes de grupos ocupacionais como direitos hereditários, as novas patentes do Sistema das Doze Posições foram concedidas a funcionários individuais qualificados por experiência para desempenhar as funções especiais de um determinado cargo. Quando Ono no Imoko foi nomeado chefe da missão diplomática de 607 que fora enviada a corte de Sui, ele foi, sem dúvida, considerado bem qualificado para essa tarefa importante, pois estava no quinto escalão (Dairei, maior propriedade). E após seu retorno com a missão considerada bem sucedida, foi promovido para o primeiro escalão (Daitoku, maior virtude).

Até mesmo os detentores de kabana de baixo escalão na ordem antiga puderam ser agora agraciados com altos escalões e postos importantes, presumivelmente porque eram capazes e experientes. Por exemplo, um imigrante coreano chamado Kuratsukuri no Obitotori, quando chegou tinha um título kabana menor que os dos chefes dos principais clãs, foi premiado com o terceiro escalão (Daijin, maior benevolência) por construir uma bela estátua budista para o templo Asuka-dera. Essa promoção, de acordo com um estudioso, deu-lhe a mesma posição que a de um nobre do círculo do Príncipe Shotoku. Parece claro que o novo método de classificação (Sistema das Doze Posições, 冠位十二階, Kan'i Jūnikai) ajudou a fortalecer o controle imperial, conferindo status sobre nomeações e promoções baseadas no mérito.

O ritmo de tal mudança não pode ser medido com precisão, mas as crônicas do reinado da Imperatriz Suiko não deixa dúvidas quanto à maior confiança em funcionários experientes e habilidosos que foram nomeados e promovidos com base em sua capacidade de executar tarefas administrativas especializadas. Sob o antigo sistema de título de clã, os chefes das guildas profissionais (tomo no miyatsuko) desempenhavam funções administrativas para a Corte, mas durante o reinado da Imperatriz Suiko e após a instituição do novo Sistema das Doze Posições, um novo importante posto administrativo foi criado: o secretário imperial (maetsukimi ou taifu). A primeira menção conhecida de tal oficial é feita em um registro do Nihon shoki feito pelos enviados em missões diplomáticas para Silla e Mimana (um dos estados que formavam a confederação de Kaya ou Gaya) quando foram recebidos na corte após sua volta. Depois que os enviados se aproximaram da imperatriz e apresentaram seus memoriais, quatro secretários imperiais, servindo quatro ministros (três dos quais detinham o título kabana de omi e um o título de muraji), relataram a Soga no Umako o que havia acontecido. [17]

Após a morte da Imperatriz Suiko em 628 e durante as longas discussões sobre quem deveria ser seu sucessor, Soga no Emishi (que dominou os assuntos políticos após a morte de seu pai Umako em 626) tentou impelir os secretários imperiais ligados às autoridades (que ainda detinham os títulos kabana de omi e muraji) a convencer o filho do Príncipe Shotoku (Príncipe Yamashiro no Ōe) que a Imperatriz Suiko queria que outra pessoa fosse seu sucessor. Com base em tais evidências, Seki Akira afirmou que os secretários imperiais, que participavam de conferências imperiais assistidas por ministros de alto escalão, estavam sob ordens imperiais e que deviam se reportar diretamente ao trono sobre o que os ministros estavam dizendo e pensando em questões específicas.

Nos níveis mais baixos do governo, os funcionários foram selecionados com mais frequência por sua capacidade de desempenhar funções especializadas. O maior número deles provavelmente eram os gerentes de grupos ocupacionais envolvidos no uso de técnicas importadas para produzir armas e ferramentas, construir palácios e templos e fazer estátuas, sinos, pinturas e outras obras de arte simbólicas e decorativas. A maioria desses gerentes (assim como o be ou tomo que administravam) eram provavelmente imigrantes que recebiam essas nomeações por causa de seus conhecimentos e realizações, não por causa do nascimento em um clã proeminente.

Embora um maior numero de funcionários dos governos central e local fossem agora selecionados e classificados por sua capacidade de desempenhar funções gerenciais específicas, a burocratização não era tão avançada como era em Paekche. Certamente, os secretários imperiais japoneses estavam agora desempenhando funções especializadas na corte, mas ainda não eram como os seis ministros de Paekche (chwap'yong) que comandavam os departamentos de assuntos reais, finanças estatais, cerimônias públicas, segurança do palácio, questões penais e defesa provincial. Nos assuntos externos, a Corte designara a certos funcionários (shokyaku) a responsabilidade de dar as boas-vindas aos embaixadores visitantes, mas os shokyaku não estavam associados a nada parecido com os dez departamentos que Paekche tinha para assuntos externos. O Japão também tinha gerentes de propriedades e grupos ocupacionais, mas estes não estavam ligados a estruturas governamentais complexas do tipo encontrado em Paekche. Embora o Sistema das Doze Posições de 603 tenha sido seguido por avanços significativos em direção a uma nova ordem burocrática e preparou o caminho para as Grandes Reformas dos anos posteriores, esses arranjos burocráticos estavam bem atrás daqueles de Paekche. A ordem do antigo título por clã (uji-kabane) ainda era bastante forte.

Embora tenhamos certeza de que o sistema de classificação foi instituído em 603 (isto é verificado por uma declaração que aparece na história dinástica chinesa de Sui), a datação das Dezessete Injunções ainda é um assunto de discussão e desacordo. Descritos em um registro do Nihon Shoki do primeiro dia de 604, [18] contêm palavras e frases sugerindo que foram escritas em uma data muito posterior. Alguns historiadores apontam que a primeira vez que o ofício de inspetor provincial (kuni no mikotomochi) foi mencionado foi na Injunção nº 12 e que este ofício não apareceu até depois das Grandes Reformas de 645. Mas a Corte pode ter enviado inspetores imperiais para as províncias periféricas ainda nos tempos de Asuka para inspecionar propriedades reais e outras.

As Grandes Reformas [19][editar | editar código-fonte]

Nos tempos antigos, os mortos eram enterrados em sepulturas em terrenos altos. Não eram empilhados detritos, nem árvores eram plantadas. Caixões eram feitos para durar apenas até o corpo decair, assim como as roupas colocadas sobre ele. Então, daqui em diante, montes funerários passaram a ser construídos, mas somente em terras que não pudessem ser cultivadas e de tal maneira que após uma geração passar, não poderiam ser reconhecidas como sepulturas. Nenhum ouro, prata, bronze ou ferro deve ser colocado nelas, carros funerários tradicionais e figuras devem ser representadas em argila, e as juntas do caixão devem ser preenchidas com não mais do que três camadas de verniz. Nenhuma joia deve ser colocada na boca do falecido, e nenhuma jaqueta ou caixa de jóias deve ser deixada ao lado do cadáver. Todas estas são práticas vulgares.

O decreto japonês não exigia a adoção das antigas práticas funerárias chinesas, mas estipulava que o tamanho e o conteúdo dos montículos estivessem de acordo com o cargo e a posição do falecido no governo imperial. Por exemplo, um alto funcionário poderia ser enterrado em um monte quadrado de estilo chinês com aproximadamente o tamanho da sepultura de Soga no Umako, cuja câmara de pedra interna não poderia ser maior do que nove por cinco por cinco shakus (o comprimento médio entre os nós do caule do bambu, aproximadamente 30 cm). Câmaras um pouco menores poderiam ser construídas para o enterro de um oficial de baixa patente, mas nenhuma para um cidadão comum. O decreto terminou com a proibição do sacrifício de vassalos e animais no momento do enterro e do costume das pessoas cortarem o cabelo ou esfaquear as coxas para homenagear o defunto. Tais medidas destinavam-se a assegurar que os túmulos – pensados para santificar o poder e a autoridade do atual imperador ou chefe – mostrassem precisamente que cargo e posição o defunto (e seu sucessor) mantinham na ordem imperial.

A importância atribuída às fileiras imperiais é responsável pelo estabelecimento de dois novos sistemas de classificação, um anunciado em 647 e outro em 649. Ambos se tornaram instrumentos mais fortes para a construção estatal, acrescentando altos escalões – provavelmente mais valorizados por causa de seu sabor Tang – como os ministros que serviram o imperador diretamente e lealmente. Como em outras ações tomadas nesses primeiros anos de reforma, a influência de estudiosos do Estado que viveram muitos anos na China Tang pode ser detectada.

Embora o fluxo de decretos imperiais nos diga muito sobre a natureza e o processo de reforma durante os anos posteriores a 645, uma decisão tomada pelo príncipe herdeiro cerca de dois meses após a publicação do edital de quatro artigos parece ter sido particularmente significativa para o império. De acordo com esta decisão, conforme relatado em um registro doe Nihon Shoki para o vigésimo segundo dia do terceiro mês de 646, o príncipe herdeiro (o futuro Imperador Tenji) transferiu oitenta e uma propriedades reais (miyake) que estavam nas mãos dos clãs ao imperador, assim como o controle direto de 524 pessoas que representavam guildas profissionais (be) que também estavam nessas condições, explicando que assim como “o céu não tem dois sóis, um país não pode ter dois governos” e que o imperador deve ser servido por todos. Provavelmente poucos líderes de clã seguiram a liderança do príncipe, mas sua ação, juntamente com a descoberta de túmulos precisamente do tamanho permitido no decreto sobre enterros, indica que pelo menos alguns líderes estavam obedecendo aos decretos e se submetendo ao domínio imperial.

O Estado Imperial[editar | editar código-fonte]

Em 650, quando o governo da reforma tinha cerca de quatro anos, a China dos Tang se aliou ao reino coreano de Silla. Para os japoneses, esse foi um sinal assustador da intenção da China de dominar a península coreana e possivelmente o Japão. Essa aliança, seguida pelos avanços militares chineses, despertou preocupações no Japão que moldariam sua política governamental por décadas. Os efeitos podem ser detectados em três correntes que apontariam para as mudanças históricas desses anos. A primeira tinha um caráter militar e se manifestou numa resistência contra os avanços dos Tang na Coréia e, mais tarde, nas tentativas frenéticas de fortalecer as defesas do país contra a invasão. A segunda era uma corrente administrativa marcada por um uso extensivo de imigrantes e outras pessoas familiarizadas com as técnicas continentais. A terceira tomou a forma de tensão política interna que levou à Guerra Civil de 672 e ao estabelecimento de um regime com a intenção de criar uma administração de estilo chinês no Japão.

A expansão Tang e a resposta do Japão[editar | editar código-fonte]

A aliança de 650 entre Tang e Silla foi destinada a conquistar Paekche. Para Tang, as dificuldades enfrentadas em conquistar Paekche eram secundárias com relação prolongada guerra com Koguryo e, para Silla, os problemas com Paekche não podiam ser desvinculados dos problemas com seus vizinhos, especialmente Koguryoto, a noroeste, e o Japão, do outro lado do Estreito de Tsushima. No Japão, as implicações da aliança eram ameaçadoras, levando a uma divisão entre os líderes sobre a questão de se o país deveria tomar medidas militares imediatas contra Silla ou simplesmente fortalecer suas defesas.

As linhas foram traçadas nitidamente em 651 quando embaixadores de Silla chegaram a Tsukushi a província rebelde da ilha de Kyūshū, vestidos como oficiais da Dinastia Tang. A Corte japonesa decidiu que a delegação de Silla deveria ser enviada de volta para casa, e o Sadaijin (ministro da esquerda, na época Kose no Tokuda) dirigiu um memorial ao trono no qual defendia a preparação para a guerra:

Se não atacarmos Silla agora, vamos nos arrepender. Devemos construir uma grande frota e lança-los no mar entre Naniwa e Tsukushi. Então devemos convocar os embaixadores de Silla e exigir uma explicação para as ofensas que seu Estado cometeu. [Apoiado por tal demonstração de força], devemos então obter o que queremos. [20]

Mas nenhuma ação foi tomada. O príncipe herdeiro (Príncipe Naka-no-Ōe-no-Ōji, futuro Imperador Tenji) e seus conselheiros - muitos dos quais tinham conhecimento em primeira mão da situação no continente - preferiram, em vez disso, fortalecer os laços diplomáticos com a Corte Tang.

Depois de alguns meses, eles enviaram para a China uma missão diplomática dividida em dois grupos, que tomaram diferentes rotas: a primeira, composta de 121 pessoas, seguiu para Silla (a rota norte), e a segunda, com 120 a bordo, navegou pelo Mar da China Oriental (a rota do sul). O primeiro grupo chegou ao seu destino e retornou ao Japão no sétimo mês de 654, trazendo consigo várias pessoas que logo se tornaram ativas e proeminentes nos assuntos políticos e culturais do país.

Antes do retorno desse grupo em 654, uma segunda missão foi enviada a Corte Tang. Foram enviados dois navios que seguiam para a China, via Silla, com autoridades que já haviam passado vários anos na China, incluindo Takamuko no Kuromaro (nomeado estudioso oficial durante a reforma do regime) e o sacerdote budista Yakushi no Enichi (o professor do filho de Fujiwara no Kamatari ). Quando esta missão chegou à capital Tang e apresentou suas mensagens e presentes, o Imperador Kaotsung (ou Gaozong) cumprimentou-a com uma declaração que incluía estas palavras: “Seu país tem contato próximo com os estados coreanos de Silla, Koguryo e Paekche. Se alguma situação emergente ocorrer lá, você deve nos enviar um embaixador e pedir ajuda. ” [21]

A declaração de Kaotsung sugere que interesses políticos, bem como culturais, levaram os membros da corte imperial do Japão a enviar esta segunda missão a Tang. O Nihon Shokinão nos informam se os japoneses que participaram desta missão ouviram falar de planos chineses para enviar expedições para a Coréia, de apoiar Silla e enviar uma força expedicionária contra Koguryo.

O príncipe herdeiro e os ministros do Japão devem ter escutado, de uma forma ou outra, sobre a Aliança Tang-Silla e dos planos para uma ação militar conjunta contra Koguryo, pois o príncipe decidiu em 653 abandonar o novo palácio imperial na cidade portuária de Naniwa e construir um novo na região de Asuka da planície de Nara. O Imperador Kotoku se opôs a essa mudança, mas o príncipe herdeiro e os principais ministros da corte retiraram-se para Asuka. Não temos registro de por que o imperador e o príncipe herdeiro tomaram posições diferentes sobre essa questão. Mas parece que o primeiro não viu muito perigo na situação externa e que o segundo (o futuro Imperador Tenji) queria a capital em um lugar que pudesse ser mais facilmente defendida contra uma invasão estrangeira.

O Imperador Kotoku permaneceu em Naniwa, mas morreu alguns meses depois. Embora o príncipe herdeiro estivesse na linha sucessória do trono, ele preferiu governar como príncipe herdeiro. Portanto, sua mãe, a ex-Imperatriz Kogyoku, foi entronizada pela segunda vez como Imperatriz Saimei. Um novo palácio foi construído para ela, não em Naniwa, mas no interior um local mais mais seguro como Asuka. Este era o Palácio Futatsuki localizado no pico de uma montanha e cercado por muros de pedra, algo parecido com as fortalezas montanhosas da Coréia. O Nihon Shoki explica que um novo canal teve que ser escavado para os duzentos barcos que foram usados ​​para transportar pedras até o sopé da montanha onde as paredes de pedra do palácio estavam sendo construídas. A grande demanda por mão-de-obra e materiais fez com que as pessoas dissessem que o “canal foi construído por um coração tolo” e que, por mais fortes que sejam os fortes, acabarão caindo. [22]

Esse descontentamento popular - possivelmente agravado pela política de apaziguamento do príncipe herdeiro, bem como por seus dispendiosos projetos de defesa - foi um fator para que ocorresse o Incidente Arima de 658. Príncipe Imperial Arima, o filho mais velho do Imperador Kotoku com uma filha do ministro da esquerda (o Sadaijin Kose no Tokuta) e tinha fortes reivindicações ao trono no momento da morte de seu pai em 654. Mas suas esperanças foram frustradas quando a mãe do príncipe foi empossada como Imperatriz Saimei. O registro sugere que o Príncipe Arima também estava chateado com as misérias do povo e que ele foi atraído para uma conspiração contra o trono por Soga no Akae, um neto de Soga no Umako e um proeminente líder do Clã Soga derrotado.

Enquanto Soga no Akae estava guardando o Palácio Futatsuki na ausência da Imperatriz, teria dito ao Príncipe Arima que o atual governo havia cometido três erros sérios. Primeiro, construiu grandes armazéns públicos onde a riqueza das pessoas estava sendo empilhada. Em segundo lugar, escavaram longos canais para construir o palácio nos quais a receita pública era desperdiçada. E terceiro, decidira transportar grandes rochas de barco para lugares altos nas montanhas. A primeira queixa apontava diretamente para a política de aumento da receita pública, mas as outras duas resultavam da política pós-653 de fortalecer as defesas contra uma possível invasão do exterior.

No início, tal conversa convenceu o príncipe de que chegara a hora de passos drásticos. Mas então o Príncipe Arima e Soga no Akae decidiram que a situação ainda não estava madura para a rebelião. Nesse ponto, Akae vazou o conteúdo da discussão para as autoridades do governo. O Príncipe Arima foi preso e estrangulado e seus principais financiadores foram exilados. Mas então as crônicas não dizem nada sobre punição para Akae. De fato, ele foi logo designado para um cargo na distante Tsukushi, mas, no início do reinado do Imperador Temmu em 672, tornou-se Sadaijin. Ainda há muitas incertezas sobre o Incidente Arima de 658, mas existem relatos nas crônicas que sugerem que a construção de defesas contra uma possível invasão do exterior estava se transformando num fardo e despertando descontentamento.

Em 660, dois anos após o Incidente Arima, a Aliança Tang-Silla atacou Paekche, o estado coreano com o qual o Japão mantinha relações particularmente próximas desde que o Japão perdeu seu território coreano (colônia) Mimana quase um século antes. As operações militares esporádicas em uma região onde o Japão sempre manteve interesses especiais devem ter causado a morte de membros da corte. Eles estavam certos, nove anos antes, de ver sinais de perigo nos enviados dos Silla para o Japão vestidos com uniformes Tang. Até 660, os ataques da Aliança Tang-Silla eram dirigidos a Koguryo desde 655; mas no terceiro mês de 660 o 'Imperador Kaotsung (Gaozong) repentinamente decidiu - em resposta a um pedido de ajuda de Silla para enfrentar as invasões de Paekche no território de Silla - fazer um ataque militar coordenado contra Paekche. Uma força de 100.000 homens sob as ordens do comandante chinês Su Ting-fang (Su Dingfang), auxiliado por um príncipe Silla, cruzou o Mar da China Oriental a partir da península de Liaotung, desembarcou na costa de Paekche e coordenou seu ataque com uma força Silla do leste liderada por Kim Yusin. Ao mesmo tempo, o rei Muyol de Silla (Muyeol) colocou dois de seus filhos no comando de uma força de 50.000 que marcharam para o local. Esse grande exercito foi interceptados por tropas de Paekche dando origem a Batalha de Hwangsanbeol, a ultima grande batalha onde Paekche ofereceu resistência.

Notas

  1. Arthur F. Wright, “The Sui Dynasty, 581-617”, in Denis Twitchett, ed. Sui and Tang China 589-906, Part I, vol. 03 of the Cambridge History of China, (Cambridge: Cambridge University Press, 1979), pp 148-149.
  2. Arthur F. Wright, “The Sui Dynasty", 143-147
  3. Preservada apenas em fragmentos, esta tapeçaria é uma mandala bordada representando o céu budista e a vida eterna (tenjukoku), que o Príncipe Shotoku acreditava ter atingido no momento da morte. Projetado por artistas imigrantes, ele representa as figuras de cem cascos de tartaruga com os nomes de pessoas falecidas. A tapeçaria foi bordada no “Jogu Shotoku Hoo teisetsu”, publicado em Hanawa Hokiichi, ed. Gunshu ruiju, rev. ed. (Tokio: Heibonsha, 1960), vol. 5
  4. A autenticidade deste registro é reforçada por um comentário entre parênteses de que o nome da pessoa japonesa que participa da missão foi escrito de maneira diferente da que estava em um registro dos anais de Paekche, ver Keitai 7/6, Nihon Koten Bungaku Taikei (NKBT) 68 28-29.
  5. Keitai 10/9, NKBT 68 33-35
  6. Inoue Mitsusada, “Teiki kara mita Katsuragi no uji,” in Inoue Mitsusada, Nihon kodai kokka no kenkyu (Tokio: Iwanami shoten, 1965).
  7. Kimmei 15/2, NKBT 68 108-109
  8. Kimmei 13/10, NKBT 68. 100-103. Tanto o Kojiki como o Nihon shoki afirmam que durante o reinado de Ojin no século V, um erudito chamado Wang Jen trouxe de Paekche dez volumes dos Analectos Confucionistas e um volume dos Anais da Dinastia Liang. Mas esses relatos, destinados a glorificar os ancestrais de Kawachi no Omi como escribas da corte, provavelmente foram fabricados.
  9. Sushun 1 (588)/3, NKBT 68. 168-169. O Asuka-dera foi chamado mais tarde de Hoko-ji (Templo da Propagação da Lei de Buda), mas o nome original será usado aqui.
  10. Sushun 3 (590)/10, NKBT 68. 168-169.
  11. Suiko 2 (594)/2/1, NKBT 68. 174-175.
  12. Suiko 3 (595)/5/10, NKBT 68. 174-175.
  13. Nara kokuritsu bunkazai kenkyujo, Asuka-dera kakkutsu chosa hokokusho (Nara: Nara kokuritsu bunkazai kenkyujo, 1958).
  14. Sushun, Introdução (587)/7, NKBT 68. 163.
  15. Japan Times, 23 de abril de 1985, p. II
  16. Suiko 12 (603) 12/05, NKBT 68. 180-181.
  17. Suiko 18 (610) 10/09, NKBT 68. 194-195.
  18. Suiko 12 (604) 4/3, NKBT 68. 180-186.
  19. O início desta parte do texto não estava disponibilizada para tradução
  20. Hakuchi 2 (651), NKBT 68. 317
  21. Inoue, Asuka no Chotei, p. 348.
  22. Saimei 2 (656) NKBT 68 328-329