Otimização/O problema de mínimos quadrados

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Este tipo de problema é muito frequente em ciências experimentais. Para ter um exemplo em mente durante a discussão que será feita mais adiante, considere as seguintes informações:

Segundo dados disponibilizados pelo IBGE, o Produto Interno Bruto per capita na cidade de São Paulo, no período de 2002 a 2005, foi (em reais): 17734, 19669, 20943 e 24083, respectivamente.

Com base nessas informações, como poderia ser feita uma previsão do valor correspondente ao ano seguinte (2006)?

Uma escolha possível seria supor que a cada ano o PIB aumenta uma aproximadamente constante, ou seja, usar um modelo linear para obter tal estimativa (que possivelmente será bem grosseira). Intuitivamente, bastaria analisar os dados disponíveis e a partir deles deduzir qual é o aumento que ocorre a cada ano. Depois, a previsão para 2006 seria aproximadamente igual à de 2005 somada com aquele aumento anual.

Esta idéia poderia até funcionar para o caso deste exemplo, mas o que fazer se a quantidade de dados disponíveis sobre algum fenômeno (ou alguma situação) for significativamente maior?

A melhor escolha, sem dúvida, é fazer uso de um computador para obter o modelo que melhor descreve o "comportamento" dos dados experimentais.

Em geral, os problemas de mínimos quadrados consistem em identificar os valores de determinados parâmetros, de modo que se satisfaçam certas equações h_i(x) = 0,\, i = 1, \ldots, p. No contexto do exemplo anterior, se procura um modelo linear para os dados, ou seja, uma função y = mx + n que os descreva da melhor forma possível. Assim, os parâmetros a considerar são m e n. Os valores ideais para essas variáveis seriam aqueles que verificassem as seguintes equações:

\left\{\begin{matrix}
2002m + n & = & 17734\\
2003m + n & = & 19669\\
2004m + n & = & 20943\\
2005m + n & = & 24083
\end{matrix}\right.

Note que a partir dessas equações poderiam ser definidas as funções hi como:

h1(m,n) = 2002m + n − 17734
h2(m,n) = 2003m + n − 19669
h3(m,n) = 2004m + n − 20943
h4(m,n) = 2005m + n − 24083

É de se esperar que o sistema de equações obtido a pouco não admitirá uma solução exata, pois se tem mais equações do que variáveis.

Isso geralmente acontece, pois é comum haver uma quantidade p de equações bem maior que o número n de parâmetros a identificar. Em particular, quando todas as equações hi são lineares em suas n variáveis, dificilmente existirá uma solução exata para o sistema linear resultante, pois este terá mais equações do que incógnitas (como no exemplo). Em geral, não é possível encontrar parâmetros que satisfaçam exatamente todas as equações. Por isso, costuma-se tentar identificar os parâmetros que "melhor se aproximam" de uma solução exata, em algum sentido.

Uma forma de obter uma solução aproximada (uma "quase-solução") resulta da seguinte observação: o valor de cada função hi em uma solução exata x deveria ser zero. Se tal exigência é restritiva demais, e com ela não é possível encontrar qualquer solução, uma possibilidade seria exigir um pouco menos. Por exemplo, poderia ser exigido apenas que o valor de hi, para i = 1, \ldots, p seja, em geral, pequeno. Uma das formas de capturar essa idéia em termos mais precisos é dizer que se pretende minimizar a soma dos quadrados dos valores de cada hi. Em símbolos, o problema passaria a ser:

\min_{x \in \mathbb{R}^n} \sum_{i=1}^{p}\left[h_i(x)\right]^2

Índice

[editar] O caso linear

Neste caso, para cada índice i = 1, \ldots, p, a função hi é afim linear, ou seja:

h_i:\mathbb{R}^n \mapsto \mathbb{R}
h_i(x) = a_i^\top x + b_i

onde a_i \in \mathbb{R}^n e b_i \in \mathbb{R} para cada i = 1, \ldots, p. Deste modo, pode-se definir uma função H como

H:\mathbb{R}^n \mapsto \mathbb{R}^p de modo que
H(x)
= \begin{bmatrix} h_1(x)\\ \vdots \\ h_p(x)\end{bmatrix}
= \begin{bmatrix} a_1^\top x + b_1\\ \vdots \\ a_p^\top x + b_p\end{bmatrix}
= \begin{bmatrix} a_1^\top\\ \vdots \\ a_p^\top\end{bmatrix}x + \begin{bmatrix} b_1\\ \vdots \\ b_p\end{bmatrix}

Motivando a introdução da seguinte notação:

A = \begin{bmatrix} a_1^\top\\ \vdots \\ a_p^\top\end{bmatrix},\quad b = \begin{bmatrix} b_1\\ \vdots \\ b_p\end{bmatrix}

Assim,

H(x) = Ax + b

Logo, buscar uma solução exata é o mesmo que procurar uma solução para o seguinte sistema linear:

Ax = − b

E uma solução aproximada poderia ser buscada a partir do seguinte problema de minimização:

\min_{x \in \mathbb{R}^n} \frac{1}{2}\|Ax + b\|^2
Exercício

Verifique que se houver uma solução exata, ela também será um minimizador de \sum_{i=1}^{p}\left[h_i(x)\right]^2. A recíproca é verdadeira?

Analisando a função objetivo do problema de minimização anterior, tem-se:

f(x) = \frac{1}{2}\|Ax + b\|^2
= \frac{1}{2} \langle Ax + b, Ax + b\rangle
= \frac{1}{2}x^\top A^\top A x + b^\top A x + \frac{1}{2}b^\top b

Logo, como B = A^\top A é simétrica e semi-definida positiva, tem-se f convexa. Isso implica que a condição necessária de primeira ordem é também suficiente. Assim, qualquer ponto x \in \mathbb{R}^n tal que \nabla f(x) = 0 é solução do problema aproximado.

Calculando o gradiente da função objetivo tem-se:

0 = \nabla f(x) = A^\top A x + A^\top b

Deste modo, a solução do problema é obtida resolvendo o sistema

A^\top A x = -A^\top b

Observe também que isso implica A^\top (A x + b) = 0, ou seja, A x + b \in \ker(A^\top).


[editar] Exemplo de aplicação

Considere dado um conjunto de pontos do plano \mathbb{R}^2, por exemplo \{(x_i,y_i)\}_{i=1}^{p}, representando dados obtidos experimentalmente.

Perguntas:

1. Qual é a função afim linear que melhor se aproxima dos dados experimentais?
2. Qual é a função quadrática que melhor se aproxima dos dados experimentais?
Exercício

Explorar o exemplo anterior com dados concretos, implementando um dos três métodos de gradientes conjugados.

Observações

Conforme se aumenta o grau do polinômio que faz a aproximação dos dados, as colunas de A têm elementos elevados a potências cada vez maiores, fazendo com que os autovalores de A^\top A sejam cada vez mais dispersos. Com isso, A^\top A torna-se mal condicionada.

Exercício

É possível, usando o problema de mínimos quadrados, verificar o postulado de Euclides que diz que "por dois pontos distintos passa uma única reta"?

Exercício

Usando o problema de mínimos quadrados, é possível inferir que "por três pontos distintos passa uma única curva quadrática"?

[editar] O caso não linear

Para esse tipo de problemas, há dois métodos:

  1. Gauss-Newton
  2. Levemberg-Marquardt

Ambos são métodos do tipo Newton. Então, para entender cada um deles é preciso entender o Método de Newton.

[editar] O método de Newton

Para entender a essência do método de Newton, primeiro considere que o problema a ser resolvido é

(P)\left\{\begin{matrix}
\min f(x)\\
x \in \mathbb{R}^n
\end{matrix}\right.

sendo h_j:\mathbb{R}^n\rightarrow \mathbb{R}, e portanto f=\frac{1}{2}\sum_{j=1}^p[h_j]^2 de classe \mathcal{C}^2 \left(\mathbb{R}^n\right). A idéia de Newton é usar o desenvolvimento até segunda ordem da série de Taylor da função f em cada ponto iterado. Isto é, se o iterado é \bar{x}, então:

Q(x) = f(\bar{x}) + \nabla f(\bar{x})^\top (x-\bar{x}) + \frac{1}{2}(x-\bar{x})\nabla^2 f(\bar{x}) (x-\bar{x})


Então a condição de Newton é que em cada iteração a Hessiana \nabla^2 f deve ser definida positiva.

Calculando o gradiente da função Q, segue:

\nabla Q(x) = \nabla f(\bar{x}) + \nabla^2 f(\bar{x}) (x-\bar{x})

Se x * é o (único) minimizador de Q, então

0 = \nabla Q(x^*) = \nabla f(\bar{x}) + \nabla^2 f(\bar{x}) (x^*-\bar{x})

donde

\nabla^2 f(\bar{x}) (x^*-\bar{x}) = - \nabla f(\bar{x})

Sendo \nabla^2 f definida positiva, tal matriz é também inversível. Portanto:

x^* = \bar{x} - \left[\nabla^2 f(\bar{x})\right]^{-1} \nabla f(\bar{x})

Assim, pode-se usar a seguinte iteração:

x_{k+1} = x_k - \left[\nabla^2 f(x_k)\right]^{-1} \nabla f(x_k)

[editar] Algoritmo de Newton (puro)

Início: Tome x_0 \in \mathbb{R}^n
  Se \nabla f(x_0) = 0, pare: x0 é ponto crítico.
  Senão, Calcule d0, solução de
    \nabla^2 f(x_0) d_0 = -\nabla f(x_0)
    Faça x1 = x0 + d0 e k = 1
Iteração: Se \nabla f(x_k) = 0, pare: xk é ponto crítico.
  Senão, calcular dk, solução de
    \nabla^2 f(x_k) d_k = -\nabla f(x_k)
    Faça xk + 1 = xk + dk e k = k + 1

Voltando ao problema original, de mínimos quadrados, se tinha:

f(x) = \frac{1}{2}\sum_{i=1}^{p}\left[h_i(x)\right]^2

Calculando o gradiente desta função, resulta:

\nabla f(x) = \sum_{i=1}^{p}h_i(x)\nabla h_i(x)

Considera-se H:\mathbb{R}^n \mapsto \mathbb{R}^p definida por

H(x) = \begin{bmatrix} h_1(x)\\ \vdots \\ h_p(x)\end{bmatrix}

Deste modo, a Jacobiana de H verifica:

\nabla f(x) = \left[J_H(x)\right]H(x)

pois o produto de uma matriz por um vetor tem como resultado um vetor que é a combinação linear das colunas da matriz, com coeficientes que são as coordenadas do vetor.

Além disso, tem-se

\nabla^2 f(x) = \sum_{i=1}^{p} h_i(x)\nabla^2 h_i(x) + \sum_{i=1}^{p} \nabla h_i(x) \nabla h_i(x)^\top

Seja

B(x) = \sum_{i=1}^{p} \nabla h_i(x) \nabla h_i(x)^{\top} = J_H(x) J_H(x)^{\top}

Sabe-se que uma matriz D é definida positiva se xtDx > 0 para qualquer x \not = 0. Fazendo D = \nabla h_i(x) \nabla h_i(x)^\top, tem-se:

x^\top \nabla h_i(x) \nabla h_i(x)^\top x  = \left[\nabla h_i(x)^\top x\right]^2 \ge 0

Para que D seja definida positiva, é necessário que S_P \left(\nabla h_i(x)\right) = \mathbb{R}^n ( deve gerar todo o espaço), neste caso, se diz que JH(x) é de posto máximo.

[editar] Algoritmo de Gauss-Newton

Início: Tome x_0 \in \mathbb{R}^n
  Se \nabla f(x_0) = 0, pare: x0 é ponto crítico.
  Senão, Calcule d0, solução de
    B(x_0) d_0 = -\nabla f(x_0), onde B(x) = \sum_{i=1}^{p} \nabla h_i(x) \nabla h_i(x)^{\top}
    Faça x1 = x0 + d0 e k = 1
Iteração: Se \nabla f(x_k) = 0, pare: xk é ponto crítico.
  Senão, calcular dk, solução de
    B(x_k) d_k = -\nabla f(x_k)
    Faça xk + 1 = xk + dk e k = k + 1

[editar] Algoritmo de Levemberg-Marquardt

A idéia de Levemberg-Marquardt foi perturbar a matriz B(x), considerando B(x) + ρI, para algum ρ > 0 pequeno.

Início: Tome x_0 \in \mathbb{R}^n
  Se \nabla f(x_0) = 0, pare: x0 é ponto crítico.
  Senão, Calcule d0, solução de
    \left(B(x_0) + \rho I\right) d_0 = -\nabla f(x_0), onde B(x) = \sum_{i=1}^{p} \nabla h_i(x) \nabla h_i(x)^{\top}
    Faça x1 = x0 + d0 e k = 1
Iteração: Se \nabla f(x_k) = 0, pare: xk é ponto crítico.
  Senão, calcular dk, solução de
    \left(B(x_0) + \rho I\right) d_k = -\nabla f(x_k)
    Faça xk + 1 = xk + dk e k = k + 1
Exercício

Enumere as diferenças que existem nos seguintes algoritmos:

  • Newton
  • Gauss-Newton
  • Levenberg-Marquardt