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A Caixa Preta do Teatro/A Cena Mais Perigosa

Origem: Wikilivros, livros abertos por um mundo aberto.

A cena mais perigosa da minha vida (que não era cena)

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Por Edney Rossi

Faltavam poucas horas para a reestreia do espetáculo O Céu Uniu Dois Corações, um melodrama circense escrito por Antenor Pimenta — nome que já carrega poesia e exagero na medida certa. Meu papel? Francisco, um dos vilões. Não o vilão-mor (esse era Dela Torre), mas uma espécie de capanga fiel, pau mandado, cão de guarda... Escolha sua metáfora.

O papel já havia sido vivido por grandes parceiros de cena — Edson Lobão, Alexandre Almeida —, mas como é tradição nos espetáculos do SESI, sempre há aquele momento clássico: a substituição de última hora.

Lá veio o mestre Paulo Cardoso, com seu olhar clínico e tom de urgência controlada:

“Edy, você vai entrar como Francisco.”

Mas, professor..., tentei balbuciar.

“Não importa o porquê. Os outros não podem. A cena é tua. Vambora!”

Um misto de euforia e pavor me tomou por completo. Era uma honra, claro. Todos nós, aprendizes de ator, sonhávamos estar no espetáculo principal. Mas... 24 horas para decorar todas as falas de um personagem inteiro? Amador é pouco — eu era um amador²!

Mas Cardoso tinha sempre uma carta na manga (ou uma frase de efeito):

“No circo, meu filho, eram três espetáculos por fim de semana. Um na sexta, outro no sábado, outro no domingo. Decorava-se de um dia pro outro. E se faltava texto, sobrava improviso!”

Improviso é alma do circoteatro, diziam. E eu respirei fundo. Aceitei o desafio.

Naquela tarde mesmo, eu e meu grande parceiro Ademir Siqueira — o vilão Dela Torre — fomos bater texto, como se diz no meio: repetir as falas, encadear as cenas, descobrir o ritmo. Tudo fluía bem até que Ademir lembrou:

“Esqueci o chapéu do Dela Torre em casa!”

Vamos buscar com a minha moto, propus. Assim, de quebra, ganhávamos tempo para continuar ensaiando.

E lá fomos nós: eu pilotando, Ademir na garupa. Uma moto, dois vilões e uma missão dramática.

No caminho, seguimos ensaiando, em pleno trânsito de Mauá. Eu dizia:

“Mas vamos assaltá-lo aqui mesmo, Dela Torre?”

Ao que Ademir respondia com veemência teatral:

“Deixa de ser frouxo, Francisco!”

Paramos num semáforo vermelho — a moto roncando, os olhos nos papéis, a voz no personagem. E foi aí que percebemos um ciclista ao nosso lado, nos ouvindo com o canto do ouvido.

Aquele pobre homem ouviu apenas:

“Vamos assaltá-lo aqui mesmo?”
“Deixa de ser frouxo!”

O olhar dele congelou. Arregalado. Assustado. Confuso.

Em um segundo, ele se convenceu de que seria a próxima vítima dos dois marginais sobre duas rodas.

Sem dizer palavra, meteu os pés nos pedais e atravessou o farol vermelho como se sua vida dependesse daquilo. Voou como se fugisse de um assalto real — e, tecnicamente, ele achava que era!

Eu e Ademir nos entreolhamos, e bastou um segundo de silêncio para a gargalhada explodir.

Rimos tanto que quase caímos da moto.

O que era ensaio virou espetáculo. E o susto virou história.

Contamos essa cena inúmeras vezes depois. E sempre que lembramos, a risada vem fácil, como naquela tarde em que, sem querer, assustamos um ciclista com a força do teatro.

É... no fim, Francisco e Dela Torre conseguiram um novo tipo de aplauso: o do acaso.



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