Medida e integração/Integração de funções positivas

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Ao longo deste capítulo estará fixado um espaço com medida (X, \mathfrak{M}, \mu).

Definição 5.1

Considere uma função simples σ mensurável sobre X, cuja forma canônica é dada por:

\sigma= \sum_{i = 1}^n \alpha_i X_{A_i},

ou seja,

  1. Im (\sigma) = \{\alpha_i : 1 \le i \le n\} tem n elementos[ver nota 1];
  2. \left(A_i\right)_{1 \le i \le n} é uma partição de X; e
  3. Para cada 1 \le i \le n, tem-se Ai = σ − 1i).

Nestas condições, define-se para cada E \in \mathfrak{M} a integral de \boldsymbol{\sigma} sobre \mathbf{E} em relação à medida \boldsymbol{\mu} como sendo:

  • Obs. 5.2: Note como está sendo usada a convenção de que 0 \cdot \infty = 0: pode acontecer de existir algum índice i para o qual αi = 0 e \mu(E \cap A_i) = \infty. A convenção foi feita de tal modo que ao colocar um coeficiente nulo em uma parcela, a medida do subconjunto de X correspondente não interfira no valor final da integral.
  • Obs. 5.3: Pode ser demonstrado que o fato da função simples estar ou não expressa em sua forma canônica não influi no valor produzido pela fórmula 5.1.1.
Exercício
Justifique a afirmação feita na Observação 5.3.

Pelo Teorema 3.4, toda função f: X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ pode ser aproximada por uma sequência não-decrescente de funções simples. Isto motiva a próxima definição, na qual é apresentada a noção de integral para um certo tipo de funções que não são simples.

Definição 5.4

Se f: X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ é uma função mensurável, define-se para cada E \in \mathfrak{M} a integral de Lebesgue de \boldsymbol{f} sobre \mathbf{E} em relação à medida \boldsymbol{\mu} como sendo o elemento de \overline{\mathbb{R}}_+ = [0, \infty] dado por:

onde S(f): = {σ | σ é função simples, mensurável sobre X e tal que \sigma \le f\}.[ver nota 2]

No caso em que \int\limits_E f < \infty, se diz que \boldsymbol{f} é integrável em E. Se \int\limits_X f < \infty, então se diz simplesmente que \boldsymbol{f} é integrável.
Exercício
Justifique a afirmação feita na Observação 5.5.
Lema 5.6

Dado um espaço com medida (X, \mathfrak{M}, \mu) e uma partição finita \left(G_i\right)_{1\le i \le p} de X em conjuntos mensuráveis, considere a função simples mensurável[ver nota 3] \sigma: X \mapsto \mathbb{R}_+ definida por

\sigma= \sum_{i = 1}^p \gamma_i X_{G_i},

onde, para cada 1 \le i \le p, tem-se \gamma_i \in \mathbb{R}_{+}. Então, para todo E \in \mathfrak{M} vale:

\int\limits_E \sigma \, d\mu = \sum_{i = 1}^{p} \gamma_i \mu\left(E \cap G_i\right) = \sum_{a \in \mathbb{R}_{+}} \mu\left(E \cap \sigma^{-1}(a)\right).

Lema 5.7

Dado um espaço com medida (X, \mathfrak{M}, \mu) e as funções simples mensuráveis σ e τ. Se \sigma \le \tau[ver nota 4], então para qualquer E \in \mathfrak{M} tem-se:

\int\limits_E \sigma \, d\mu \le \int\limits_E \tau \, d\mu.

  • Obs. 5.8: Se f: X \mapsto \mathbb{R}_{+} é mensurável, então a função f_1: X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_{+} que em cada valor x \in X é definida por f1(x) = f(x) também é mensurável. Deste modo, a Definição 5.4, que se aplica a função f1, pode também ser aplicada à função f.
Proposição 5.9

Seja f: X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ uma função mensurável. A integral definida anteriormente verifica as seguintes propriedades:

  1. Se g: X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ é mensurável e f \le g, então \int\limits_E f\, d\mu \le \int\limits_E g\, d\mu;
  2. Se E, F \in \mathfrak{M} e E \subset F, então \int\limits_E f\, d\mu \le \int\limits_F f\, d\mu;
  3. Se k \in \mathbb{R}_{+}, então \int\limits_E kf\, d\mu = k\int\limits_E f\, d\mu;
  4. Se para todo x \in E vale f(x) = 0, então \int\limits_E f\, d\mu = 0;[ver nota 5]
  5. Se μ(E) = 0, então \int\limits_E f\, d\mu = 0;[ver nota 6]
  6. \int\limits_E f\, d\mu = \int\limits_E X_E \cdot f\, d\mu.
Crystal Clear app kaddressbook.png Este livro tem a seguinte tarefa pendente: Explicitar no enunciado da proposição anterior as hipóteses que devem ser feitas sobre as funções envolvidas.
  • Obs. 5.10: O último item desta proposição indica que mesmo se a integral tivesse sido definida apenas sobre o conjunto X, ainda seria possível definir o valor da integral sobre subconjuntos mensuráveis de X usando como definição a fórmula \int\limits_E f\, d\mu := \int\limits_E X_E \cdot f\, d\mu.
  • Obs. 5.11: É interessante notar que se E \in \mathfrak{M}, então é possível definir um espaço com medida sobre E de forma muito natural: A coleção de partes de E definida por \mathfrak{M}|_E := \{A \cap E | A \in \mathfrak{M}\} é uma σ-álgebra sobre E (isto fica como exercício para o leitor). Então a função \mu_E := \mu|_\mathfrak{M} é uma medida positiva sobre \mathfrak{M}|_E e, consequentemente, \left(E, \mathfrak{M}, \mu_E \right) é um espaço com medida. Este fato serve para reforçar a ideia central da observação anterior: se é definida a integral sobre os espaços de medida, então é definida automaticamente a integral sobre cada parte mensurável de tais espaços.
Corolário 5.12

Se E é um conjunto mensurável, então:

  1. Para quaisquer funções mensuráveis f,g: X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ tais que f(x) \le g(x), tem-se \int\limits_E f\, d\mu \le \int\limits_E g\, d\mu;
  2. \mu(E) = \int\limits_E \, d\mu = \int\limits_X X_E\, d\mu.
  • Obs. 5.13: Note que, ao contrário do que acontecia no item correspondente da Proposição 5.9, o primeiro item deste corolário exige apenas que a desigualdade seja válida nos pontos que pertemcem a E.

A essência do segundo item deste corolário é que a integral também serve para "medir conjuntos". Na verdade, isto continua válido mesmo que a função que está sendo integrada não seja XE: Conforme a próxima proposição, a integração de uma função simples sobre conjuntos que pertencem a uma σ-álgebra define uma medida.

Proposição 5.14

Dada uma função simples σ mensurável sobre X, se \varphi: \mathfrak{M} \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ é a função que em cada E \in \mathfrak{M} vale

então \varphi é uma medida sobre \mathfrak{M}.

Outra propriedade que se poderia esperar da integração de funções simples é a somatividade:

Proposição 5.15

Se σ1 e σ2 são funções simples mensuráveis sobre X, então:

\int\limits_X \left(\sigma_1 + \sigma_2\right) = \int\limits_X \sigma_1\, d\mu + \int\limits_X \sigma_2\, d\mu.

Lema 5.16

Se a f:X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ é uma função mensurável e \sigma:X \mapsto \mathbb{R}_+ é uma função simples mensurável, então a função f-\sigma:X \mapsto \mathbb{R}_+ é mensurável.

  • Obs. 5.17: Note que Im(f-g) \subset \mathbb{R} \smallsetminus \{-\infty\} = \mathbb{R} \cup \{\infty\}.
  • Obs. 5.18: O Corolário 1.14 e a observação 1.15 somente garantiam a validade deste resultado quando as imagens das funções envolvidas estavam contidas em \mathbb{K}. É graças a este Lema 5.16 que será possível usar o mesmo resultado também quando a função f assume o valor infinito. No entanto a demonstração é apenas uma adapatação daquela apresentada para a Proposição 1.11.

O próximo resultado é conhecido como Teorema da Convergência Monótona de Lebesgue e, além de ser um resultado importante sobre convergência, é um dos teoremas centrais de toda a teoria de Lebesgue.

Teorema 5.19

Seja (X, \mathfrak{M}, \mu) um espaço com medida e, para cada n \in \mathbb{N}, seja f_n:X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ uma função mensurável. Se a sequência \left(f_n\right)_{n \in \mathbb{N}} é não decrescente[ver nota 8] e, para cada x \in X, existe o limite \textstyle\lim_{n\rightarrow\infty} f_n(x), então:

  1. A função f:X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ definida por f(x) = \textstyle\lim_{n\rightarrow\infty} f_n(x) é mensurável;
  2. \int\limits_X f\, d\mu = \lim_{n\rightarrow\infty} \int\limits_X f_n\, d\mu.
  • Obs. 5.20: Note que no segundo item deste teorema, ambos os membros podem ser iguais a infinito.

Um resultado análogo sobre a integração de séries é apresentado no teorema seguir.

Teorema 5.21

Seja (X, \mathfrak{M}, \mu) um espaço com medida e, para cada n \in \mathbb{N}, seja f_n:X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ uma função mensurável. Então:

  1. A função f:X \mapsto \overline{\mathbb{R}} definida por f(x) = \textstyle\sum_{n=1}^\infty f_n(x) é mensurável;
  2. \int\limits_X f\, d\mu = \sum_{n=1}^\infty \int\limits_X f_n\, d\mu.

O resultado técnico apresentado a seguir, conhecido como Lema de Fatou, se mostrará extremamente importante e útil.

Teorema 5.22

Seja (X, \mathfrak{M}, \mu) um espaço com medida e, para cada n \in \mathbb{N}, seja f_n:X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ uma função mensurável. Então:

O próximo resultado é uma generalização da Proposição 5.14.

Teorema 5.23

Seja (X, \mathfrak{M}, \mu) um espaço com medida e f: X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ uma função mensurável sobre X. Se \varphi: \mathfrak{M} \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ é a função que em cada E \in \mathfrak{M} vale

então:

  1. \varphi é uma medida sobre \mathfrak{M};
  2. Para cada função mensurável g: X \mapsto \overline{\mathbb{R}}_+ vale
  • Obs. 5.24: Alguns autores indicam o segundo item deste teorema com a notação d\varphi = f \, d\mu, embora isto não queira dizer que os símbolos d\varphi e dμ façam sentido individualmente. A igualdade significa apenas que vale a fórmula 5.23.2 do Teorema 5.23.

[editar] Notas

  1. Isto é, \alpha_i \not = \alpha_j quando i \not = j.
  2. Lembre-se que \sigma \le f significa \sigma(x) \le f(x), para todo x \in X.
  3. A mensurabilidade desta função segue do Lema 3.2, considerando que cada Gi é mensurável.
  4. Ou seja, \sigma(x) \le \tau(x), para todo x \in X.
  5. Mesmo quando\mu(E) = \infty, uma vez que se convencionou que 0 \cdot \infty = 0.
  6. Mesmo quando em cada x \in X vale f(x) = \infty.
  7. Lembre-se que \left(X, \mathfrak{M}, \mu\right) é um espaço com medida.
  8. Isto é, se f_n(x) \le f_{n+1} (x) para todo n \in \mathbb{N} e para todo x \in X.

[editar] Referências