Medida e integração/A reta real estendida

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No estudo da teoria da medida, é comum lidar com sequências e séries de funções. Como se sabe da análise real, algumas vezes os termos de uma sequência assumem valores arbitrariamente grandes e este é um dos casos em que se diz que a sequência não converge. Entretanto, em certos contextos é extremamente útil considerar este tipo de sequência como sendo convergente, pois os seus termos "tendem a infinito" ou se "aproximam do infinito". O problema é que o "infinito" não faz parte do conjunto dos números reais, então para que esta noção possa ter um sentido mais preciso, costuma-se definir um novo conjunto a partir dos números reais e dos elementos -\infty e +\infty, de modo que este seja uma extensão da reta real:

Definição 2.23

A reta real estendida \overline{\mathbb{R}} é o conjunto \mathbb{R} \cup \{-\infty\} \cup \{+\infty\}.

  • Obs. 2.24: Por simplicidade, também poderá ser usada a notação \infty para o elemento +\infty de \overline{\mathbb{R}}. A reta real estendida também costuma ser denotada por \left[-\infty, \infty\right].

Em capítulos posteriores será considerado frequentemente o subconjunto \overline{\mathbb{R}}_+ da reta real estendida definido por

\overline{\mathbb{R}}_+ := \left[0,\infty\right] = \mathbb{R}_+ \cup \{\infty\}.

Há outros motivos importantes para se considerar o \infty ao longo da teoria da medida, por exemplo:

  • É de interesse poder integrar funções sobre conjuntos que tenham "medida infinita": perceba que \mathbb{R} tem, intuitivamente, comprimento infinito;
  • Mesmo quando se pretende fazer a integração de funções que tomam valores reais, pode ocorrer que ao considerar uma sequência de funções f_n : X \mapsto \mathbb{R}_+, o valor de \limsup_{n\rightarrow\infty}f_n(x) ou de \sum_{n=0}^{\infty} f_n(x) seja infinito em alguns pontos x \in X. Em tais situações, caso não se trabalhe com o \infty, se perde uma parte da elegância e simplicidade dos principais resultados sobre convergência (por exemplo, o teorema da convergência monótona e a "integração termo a termo" de séries de funções). Torna-se então mais conveniente a introdução do símbolo \infty e de algumas convenções para se fazer cálculos envolvendo este símbolo.

Na próxima seção serão definidas algumas estruturas que facilitam o uso de \overline{\mathbb{R}}: uma relação de ordem, uma topologia e também uma aritmética.

Índice

[editar] Ordem, topologia e aritmética na reta real estendida

A retal real estendida se torna um conjunto totalmente ordenado definindo -\infty \le a \le +\infty para todo número real a. Analogamente, a ordem sobre \overline{\mathbb{R}}_+ é induzida ordem de \overline{\mathbb{R}}, ou seja, para cada a \in \mathbb{R}_+ se tem 0 \le a < \infty.

Com esta ordem, se \emptyset \not = X \subset \overline{\mathbb{R}} e X não é limitado superiormente, isto é, se para todo y \in \mathbb{R} existe algum x \in X tal que x > y, então \sup X = \infty. Analogamente, se X não é limitado inferiormente, então \inf X = -\infty. Deste modo, todo subconjunto não vazio de \overline{\mathbb{R}} (e, em particular, de \mathbb{R}) tem supremo e ínfimo[ver nota 1] em \overline{\mathbb{R}}, o que faz da reta real estendida um reticulado completo. Este é um dos principais motivos para a introdução dos símbolos -\infty e +\infty.

A partir desta relação de ordem, defini-se a topologia da ordem sobre \overline{\mathbb{R}}. Os intervalos abertos são os subconjuntos de \overline{\mathbb{R}} que podem ser escritos em uma das seguintes formas:

  • (a,b) := \{x \in \mathbb{R}: a \in \mathbb{R}, b \in \mathbb{R} \text{ e } a < x < b\}
  • [-\infty,a) := \{x \in \overline{\mathbb{R}}: a \in \mathbb{R} \text{ e } -\infty \le x < a\}
  • (a,+\infty] := \{x \in \overline{\mathbb{R}}: a \in \mathbb{R} \text{ e } a < x \le +\infty\}

Deste modo, um conjunto U \subset \overline{\mathbb{R}} é aberto se for uma reunião de intervalos dos tipos acima (pois eles formam uma base de abertos para \overline{\mathbb{R}}).

Com esta topologia, as noções de limite envolvendo o infinito podem ser definidas de forma unificada a partir da definição topológica de limite.

Observe que ao fazer a interseção de \mathbb{R} com intervalos abertos de \overline{\mathbb{R}} se obtém um intervalo aberto de \mathbb{R}, ou seja, um conjunto da forma (a,b), (-\infty,a) ou (a,+\infty). Levando em conta que estes intervalos formam uma base de abertos para a topologia usual de \mathbb{R}, segue que tal topologia é induzida pela que se definiu sobre \overline{\mathbb{R}} anteriormente e que a inclusão x \in \mathbb{R} \mapsto x \in \overline{\mathbb{R}} é contínua. Do mesmo modo, a topologia usual sobre \overline{\mathbb{R}}_+ é a induzida pela topologia usual de \overline{\mathbb{R}}.

As operações aritméticas de \mathbb{R} podem ser parcialmente estendidas para \overline{\mathbb{R}} da seguinte maneira[1]:


\begin{align}
       a + \infty =       +\infty + a & =   +\infty, & a & \neq -\infty \\
       a - \infty =       -\infty + a & =   -\infty, & a & \neq +\infty \\
a \cdot \pm\infty = \pm\infty \cdot a & = \pm\infty, & a & \in (0, +\infty] \\
a \cdot \pm\infty = \pm\infty \cdot a & = \mp\infty, & a & \in [-\infty, 0) \\
a \cdot   +\infty =   +\infty \cdot a & =   0, & a & = 0
\end{align}

Aqui, a + \infty significa tanto a + (+\infty) quanto a - (-\infty) e a -\infty significa tanto a - (+\infty) quanto a + (-\infty).

Também será convencionado que |\pm \infty| = + \infty.[2]

Quando se restringe as operações apenas ao conjunto \overline{\mathbb{R}}_+, vale:

a + \infty = \infty + a = \infty, a \in \overline{\mathbb{R}}_+
 a \cdot \infty = \infty \cdot a =
\begin{cases}
  \infty, & \mbox{se } a \in (0, +\infty] \\
  0,      & \mbox{se } a = 0
\end{cases}

Por mais estranho que possa parecer a definição de 0 \cdot \infty (ou \infty \cdot 0) como sendo 0, verifica-se facilmente que, com esta escolha, em \overline{\mathbb{R}}_+ continuam valendo as propriedades comutativa, associativa e distributiva, sem qualquer restrição. Vale ressaltar, no entanto, que as "leis de cancelamento" devem ser usadas com cuidado, pois:

  • a + b = a + c \Rightarrow b = c, apenas no caso em que a < \infty
  • ab = ac \Rightarrow b = c, somente quando se tem 0 < a < \infty

As expressões 1 / 0, \infty - \infty e \pm \infty/ \pm \infty (chamadas de "formas indeterminadas") serão deixadas indefinidas, como é de costume em outros textos da área. As regras acima podem ser intuídas a partir das propriedades usuais de limites que tomam valores infinitos, presentes nos textos de cálculo.

Com as definições dadas, \overline{\mathbb{R}} não é um corpo nem mesmo um anel. Apesar disto, ele ainda possui diversas propriedades bastante convenientes:

  • a + (b + c) e (a + b) + c ou são iguais ou são ambos indefinidos.
  • a + b e b + a ou são iguais ou são ambos indefinidos.
  • a \times (b \times c) e (a \times b) \times c ou são iguais ou são ambos indefinidos.
  • a \times b e b \times a ou são iguais ou são ambos indefinidos
  • a \times (b + c) e (a \times b) + (a \times c) são iguais se ambos estiverem definidos.
  • Se a = b e se tanto a + c quanto b + c estiverem definidos, então a + c = b + c.
  • Se a = b e c > 0 e tanto a \times c quanto b \times c estiverem definidos, então a \times c = b \times c.

Em geral, todas as regras usuais de aritmética continuam válidas em \overline{\mathbb{R}}, desde que todas as expressões envolvidas estejam definidas.

Na próxima seção será considerado uma σ-álgebra que pode ser definida de modo muito natural a partir da topologia de um conjunto: Se (X, \mathcal{C}) é um espaço topológico, tem-se em particular que \mathcal{C} \subset \mathcal{P}(X). Neste caso, conforme se demonstrou na Proposição 1.21 existe a menor σ-álgebra sobre X que contém \mathcal{C}, que é \langle \mathcal{C} \rangle. Isto motiva a próxima definição.

[editar] Conjuntos de Borel

Definição 2.25

Seja (X,\mathcal{C}) um espaço topológico. A σ-álgebra \mathcal{B}_X: = \langle \mathcal{C} \rangle gerada pela topologia \mathcal{C} é denominada \boldsymbol{\sigma}-álgebra de Borel. Qualquer elemento desta σ-álgebra é chamado de conjunto de Borel de \boldsymbol{(X,\mathcal{C})} ou boreliano de \boldsymbol{(X,\mathcal{C})}.[3]

  • Obs. 2.26: Quando a topologia estiver subentendida, será dito simplesmente "conjunto de Borel de X" ou "boreliano de X". Se não houver risco de confusão, pode-se denotar a σ-álgebra \mathcal{B}_X simplesmente por \mathcal{B}.
  • Obs. 2.27: Considerando que os abertos da topologia são mensuráveis, os seus complementares são também mensuráveis pela propriedade 2 da definição de σ-álgebra. Consequentemente, as reuniões eumeráveis de conjuntos fechados também são mensuráveis, conforme a propriedade 3 da mesma definição. Além disso, da observação 1.4 segue que as interseções enumeraveis de abertos também são elementos da \boldsymbol{\sigma}-álgebra de Borel.

Conforme se aprende em topologia, se (X,\mathcal{C}) e (Y,\mathcal{C}') são espaços topológicos, e f:X \mapsto Y é uma função contínua, então a pré-imagem f − 1(A) de qualquer aberto A \in \mathcal{C}' é um aberto da topologia \mathcal{C}. Neste caso, levando em conta que \mathcal{C} \subset \mathcal{B}_X, se conclui que f^{-1}(A) \in \mathcal{B}_X, para qualquer A \in \mathcal{C}'. Isto significa que f é mensurável em relação a \mathcal{B}_X e \mathcal{C}'. Estas funções mensuráveis recebem os nomes específicos, conforme a próxima definição.

Definição 2.28

Sejam (X,\mathcal{C}) e (Y,\mathcal{C}') espaços topológicos. Uma função Borel mensurável é qualquer função contínua f:X \mapsto Y. Se Y=\mathbb{K}, tais funções são denominadas funções de Borel ou ainda aplicações de Borel.

Proposição 2.29

Seja (X, \mathfrak{M}) um espaço mensurável. Se (Y,\mathcal{C}) é um espaço topológico e f: X \mapsto Y é uma função entre estes espaços, então:

  1. M_f : = \{E \in \mathcal{P}(Y)| f^{-1}(E) \in \mathfrak{M}\} é uma σ-álgebra sobre Y;
  2. Se f é mensurável (em relação a \mathfrak{M} e \mathcal{C}) então \mathcal{B}_Y \subset M_f e f^{-1} \in \mathfrak{M}, para qualquer que seja E \in \mathcal{B}_Y;
  3. Se Y = \overline{\mathbb{R}} e f^{-1}((a,\infty]) \in \mathfrak{M} para todo a \in \mathbb{R}, então f é mensurável.

A última propriedade da proposição anterior costuma ser usada para verificar se determinada função que toma valores reais é ou não mensurável[4].

A próxima definição apresenta alguns conceitos relacionados a ideia de limite: os limites de oscilação. Sua importância será notada no decorrer do estudo de sequências, tanto numéricas quanto de funções.

Definição 2.30

Seja (x_n)_{n \in \mathbb{N}} uma sequência em \overline{\mathbb{R}}, o limite inferior de \boldsymbol{(x_n)_{n \in \mathbb{N}}} é o elemento de \overline{\mathbb{R}} dado por

\liminf_{n\rightarrow\infty}x_n=\sup_{n \in \mathbb{N}}\,\inf_{m\geq n}x_m=\sup\{\,\inf\{\,x_m:m\geq n\,\}:n \in \mathbb{N}\,\}
Analogamente, o limite inferior de \boldsymbol{(x_n)_{n \in \mathbb{N}}} é o elemento de \overline{\mathbb{R}} dado por
\limsup_{n\rightarrow\infty}x_n=\inf_{n \in \mathbb{N}}\,\sup_{m\geq n}x_m=\inf\{\,\sup\{\,x_m:m\geq n\,\}:n \in \mathbb{N}\,\}
Proposição 2.31

Uma sequência (x_n)_{n \in \mathbb{N}} de \overline{\mathbb{R}} é convergente se, e somente se,

A seguir serão definidas algumas operações que se costuma fazer com funções com imagem na reta real estendida. A essência de tais operações é "tomar um limite em cada ponto do domínio da função". A definição 2.31 formaliza esta ideia:

Definição 2.33

Seja (f_n)_{n \in \mathbb{N}}uma sequência de funções definidas em um subconjunto X de \overline{\mathbb{R}}. Definem-se as funções \inf f_n, \sup f_n, \liminf f_n e \limsup f_n, de X em \overline{\mathbb{R}} através das fórmulas:

Além disso, se em cada x \in X existe \lim_{n\rightarrow\infty}f_n(x), define-se \lim f_n, o limite pontual da sequência fn no ponto x, como sendo:

Proposição 2.39

Seja (X, \mathfrak{M}) um espaço mensurável e considere para cada n \in \mathbb{N} uma função f_n : X \mapsto \overline{\mathbb{R}}. Se fn é mensurável, para todo n \in \mathbb{N}, então as funções \inf f_n, \sup f_n, \liminf f_n e \limsup f_n são mensuráveis.[5]

Corolário 2.40

Seja (X, \mathfrak{M}) um espaço mensurável e considere para cada n \in \mathbb{N} uma função mensurável f_n : X \mapsto \mathbb{C}. Se (f_n)_{n \in \mathbb{N}} converge pontualmente para f, então f é mensurável.[6]

Corolário 2.41

Seja (X, \mathfrak{M}) um espaço mensurável. Se f: X \mapsto \overline{\mathbb{R}} e g: X \mapsto \overline{\mathbb{R}} são mensuráveis então as funções min{f,g} e max{f,g} são mensuráveis.[7]

No desenvolvimento da teoria de integração, será importante considerar os seguintes tipos particulares de funções da forma min{f,g} e max{f,g}:

Definição 2.42

Seja X um conjunto, f : X \mapsto \overline{\mathbb{R}} uma função e 0 : X \mapsto \overline{\mathbb{R}} a função nula. A parte positiva de f é a função definida por

f + : = max{f,0}

Analogamente a parte negativa de f é a função definida por

f : = − min{f,0} = max{ − f,0}

Lema 2.45

Seja X um conjunto, f : X \mapsto \overline{\mathbb{R}} uma função e 0 : X \mapsto \overline{\mathbb{R}} a função nula. Então:

  1. f^{+} \ge 0
  2. f^{-} \ge 0
  3. | f | = f + + f
  4. f = f +f
  5. Se X é um espaço mensurável e f é mensurável, então f + , f , e | f | são mensuráveis;[8][ver nota 2]
  6. Se X é um espaço mensurável e tanto f + quanto f são mensuráveis, então f e | f | são mensuráveis;
  7. Se f = gh, com g \ge 0 e h \ge 0 então f^{+} \le g e f^{-} \le h.

Obs. 2.46: O último item do Lema 2.45 pode ser interpretado da seguinte maneira: f + e f são as menores funções não-negativas cuja diferença é f. Neste sentido, pode-se dizer que a representação f = f +f é mínima.

[editar] Notas

  1. Lembre-se que em \mathbb{R} só os conjuntos limitados possuem esta propriedade
  2. Note que aqui é usada a convenção |\pm \infty| = + \infty.

[editar] Referências

  1. Ver também: Isnard (2007), pág. 60.
  2. Conforme Isnard (2007), pág. 61, Corolário 5.7.
  3. Ver também Isnard (2007), pág. 116.
  4. Compare a Definição 1.9 com a definição de Isnard (2007), pág. 57.
  5. No livro de Isnard (2007), este teorema corresponde às proposições 5.6 (pág. 61) e 5.10 (i) (pág. 63).
  6. No livro de Isnard (2007), este corolário corresponde ao item (ii) da proposição 5.10 (pág. 63).
  7. No livro de Isnard (2007), este corolário aparece como caso particular do item (ii) na proposição 5.6 (pág. 61).
  8. No livro de Isnard (2007), este item corresponde ao corolário 5.7 (pág. 61).