Medida e integração/A reta real estendida
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No estudo da teoria da medida, é comum lidar com sequências e séries de funções. Como se sabe da análise real, algumas vezes os termos de uma sequência assumem valores arbitrariamente grandes e este é um dos casos em que se diz que a sequência não converge. Entretanto, em certos contextos é extremamente útil considerar este tipo de sequência como sendo convergente, pois os seus termos "tendem a infinito" ou se "aproximam do infinito". O problema é que o "infinito" não faz parte do conjunto dos números reais, então para que esta noção possa ter um sentido mais preciso, costuma-se definir um novo conjunto a partir dos números reais e dos elementos
e
de modo que este seja uma extensão da reta real:
- Definição 2.23
A reta real estendida
é o conjunto 
- Obs. 2.24: Por simplicidade, também poderá ser usada a notação
para o elemento
de
A reta real estendida também costuma ser denotada por ![\left[-\infty, \infty\right].](http://upload.wikimedia.org/math/f/0/e/f0e54b495984834f0a671442fa03ceb3.png)
Em capítulos posteriores será considerado frequentemente o subconjunto
da reta real estendida definido por
.
Há outros motivos importantes para se considerar o
ao longo da teoria da medida, por exemplo:
- É de interesse poder integrar funções sobre conjuntos que tenham "medida infinita": perceba que
tem, intuitivamente, comprimento infinito; - Mesmo quando se pretende fazer a integração de funções que tomam valores reais, pode ocorrer que ao considerar uma sequência de funções
o valor de
ou de
seja infinito em alguns pontos
Em tais situações, caso não se trabalhe com o
, se perde uma parte da elegância e simplicidade dos principais resultados sobre convergência (por exemplo, o teorema da convergência monótona e a "integração termo a termo" de séries de funções). Torna-se então mais conveniente a introdução do símbolo
e de algumas convenções para se fazer cálculos envolvendo este símbolo.
Na próxima seção serão definidas algumas estruturas que facilitam o uso de
uma relação de ordem, uma topologia e também uma aritmética.
Índice |
[editar] Ordem, topologia e aritmética na reta real estendida
A retal real estendida se torna um conjunto totalmente ordenado definindo
para todo número real a. Analogamente, a ordem sobre
é induzida ordem de
ou seja, para cada
se tem 
Com esta ordem, se
e X não é limitado superiormente, isto é, se para todo
existe algum
tal que x > y, então
Analogamente, se X não é limitado inferiormente, então
Deste modo, todo subconjunto não vazio de
(e, em particular, de
) tem supremo e ínfimo[ver nota 1] em
o que faz da reta real estendida um reticulado completo. Este é um dos principais motivos para a introdução dos símbolos
e 
A partir desta relação de ordem, defini-se a topologia da ordem sobre
Os intervalos abertos são os subconjuntos de
que podem ser escritos em uma das seguintes formas:
Deste modo, um conjunto
é aberto se for uma reunião de intervalos dos tipos acima (pois eles formam uma base de abertos para
).
Com esta topologia, as noções de limite envolvendo o infinito podem ser definidas de forma unificada a partir da definição topológica de limite.
Observe que ao fazer a interseção de
com intervalos abertos de
se obtém um intervalo aberto de
ou seja, um conjunto da forma (a,b),
ou
Levando em conta que estes intervalos formam uma base de abertos para a topologia usual de
segue que tal topologia é induzida pela que se definiu sobre
anteriormente e que a inclusão
é contínua. Do mesmo modo, a topologia usual sobre
é a induzida pela topologia usual de 
As operações aritméticas de
podem ser parcialmente estendidas para
da seguinte maneira[1]:
Aqui,
significa tanto
quanto
e
significa tanto
quanto 
Também será convencionado que
[2]
Quando se restringe as operações apenas ao conjunto
vale:
Por mais estranho que possa parecer a definição de
(ou
) como sendo 0, verifica-se facilmente que, com esta escolha, em
continuam valendo as propriedades comutativa, associativa e distributiva, sem qualquer restrição. Vale ressaltar, no entanto, que as "leis de cancelamento" devem ser usadas com cuidado, pois:
apenas no caso em que 
somente quando se tem 
As expressões 1 / 0,
e
(chamadas de "formas indeterminadas") serão deixadas indefinidas, como é de costume em outros textos da área. As regras acima podem ser intuídas a partir das propriedades usuais de limites que tomam valores infinitos, presentes nos textos de cálculo.
Com as definições dadas,
não é um corpo nem mesmo um anel. Apesar disto, ele ainda possui diversas propriedades bastante convenientes:
- a + (b + c) e (a + b) + c ou são iguais ou são ambos indefinidos.
- a + b e b + a ou são iguais ou são ambos indefinidos.
e
ou são iguais ou são ambos indefinidos.
e
ou são iguais ou são ambos indefinidos
e
são iguais se ambos estiverem definidos.- Se a = b e se tanto a + c quanto b + c estiverem definidos, então a + c = b + c.
- Se a = b e c > 0 e tanto
quanto
estiverem definidos, então
.
Em geral, todas as regras usuais de aritmética continuam válidas em
desde que todas as expressões envolvidas estejam definidas.
Na próxima seção será considerado uma σ-álgebra que pode ser definida de modo muito natural a partir da topologia de um conjunto: Se
é um espaço topológico, tem-se em particular que
Neste caso, conforme se demonstrou na Proposição 1.21 existe a menor σ-álgebra sobre X que contém
que é
Isto motiva a próxima definição.
[editar] Conjuntos de Borel
- Definição 2.25
Seja
um espaço topológico. A σ-álgebra
gerada pela topologia
é denominada
-álgebra de Borel. Qualquer elemento desta σ-álgebra é chamado de conjunto de Borel de
ou boreliano de
[3]
- Obs. 2.26: Quando a topologia estiver subentendida, será dito simplesmente "conjunto de Borel de X" ou "boreliano de X". Se não houver risco de confusão, pode-se denotar a σ-álgebra
simplesmente por 
- Obs. 2.27: Considerando que os abertos da topologia são mensuráveis, os seus complementares são também mensuráveis pela propriedade 2 da definição de σ-álgebra. Consequentemente, as reuniões eumeráveis de conjuntos fechados também são mensuráveis, conforme a propriedade 3 da mesma definição. Além disso, da observação 1.4 segue que as interseções enumeraveis de abertos também são elementos da
-álgebra de Borel.
Conforme se aprende em topologia, se
e
são espaços topológicos, e
é uma função contínua, então a pré-imagem f − 1(A) de qualquer aberto
é um aberto da topologia
Neste caso, levando em conta que
se conclui que
para qualquer
Isto significa que f é mensurável em relação a
e
Estas funções mensuráveis recebem os nomes específicos, conforme a próxima definição.
- Definição 2.28
Sejam
e
espaços topológicos. Uma função Borel mensurável é qualquer função contínua
Se
tais funções são denominadas funções de Borel ou ainda aplicações de Borel.
- Proposição 2.29
Seja
um espaço mensurável. Se
é um espaço topológico e
é uma função entre estes espaços, então:
é uma σ-álgebra sobre Y;- Se f é mensurável (em relação a
e
) então
e
para qualquer que seja 
- Se
e
para todo
então f é mensurável.
| Demonstração |
|---|
| Esta demonstração é deixada a cargo do leitor. Sinta-se livre para melhorar a qualidade deste texto, incluindo-a neste módulo. |
A última propriedade da proposição anterior costuma ser usada para verificar se determinada função que toma valores reais é ou não mensurável[4].
A próxima definição apresenta alguns conceitos relacionados a ideia de limite: os limites de oscilação. Sua importância será notada no decorrer do estudo de sequências, tanto numéricas quanto de funções.
- Definição 2.30
Seja
uma sequência em
o limite inferior de
é o elemento de
dado por
é o elemento de
dado por
| Demonstração |
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A seguir serão definidas algumas operações que se costuma fazer com funções com imagem na reta real estendida. A essência de tais operações é "tomar um limite em cada ponto do domínio da função". A definição 2.31 formaliza esta ideia:
- Definição 2.33
Seja
uma sequência de funções definidas em um subconjunto X de
Definem-se as funções
e
de X em
através das fórmulas:
Além disso, se em cada
existe
define-se
o limite pontual da sequência fn no ponto x, como sendo:
- Proposição 2.39
Seja
um espaço mensurável e considere para cada
uma função
Se fn é mensurável, para todo
então as funções
e
são mensuráveis.[5]
| Demonstração |
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- Corolário 2.40
Seja
um espaço mensurável e considere para cada
uma função mensurável
Se
converge pontualmente para f, então f é mensurável.[6]
| Demonstração |
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- Corolário 2.41
Seja
um espaço mensurável. Se
e
são mensuráveis então as funções min{f,g} e max{f,g} são mensuráveis.[7]
| Demonstração |
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No desenvolvimento da teoria de integração, será importante considerar os seguintes tipos particulares de funções da forma min{f,g} e max{f,g}:
- Definição 2.42
Seja X um conjunto,
uma função e
a função nula. A parte positiva de f é a função definida por
f + : = max{f,0}
Analogamente a parte negativa de f é a função definida por
f − : = − min{f,0} = max{ − f,0}
- Lema 2.45
Seja X um conjunto,
uma função e
a função nula. Então:


- | f | = f + + f −
- f = f + − f −
- Se X é um espaço mensurável e f é mensurável, então f + , f − , e | f | são mensuráveis;[8][ver nota 2]
- Se X é um espaço mensurável e tanto f + quanto f − são mensuráveis, então f e | f | são mensuráveis;
- Se f = g − h, com
e
então
e 
| Demonstração |
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Obs. 2.46: O último item do Lema 2.45 pode ser interpretado da seguinte maneira: f + e f − são as menores funções não-negativas cuja diferença é f. Neste sentido, pode-se dizer que a representação f = f + − f − é mínima.
[editar] Notas
- ↑ Lembre-se que em
só os conjuntos limitados possuem esta propriedade - ↑ Note que aqui é usada a convenção

[editar] Referências
- ↑ Ver também: Isnard (2007), pág. 60.
- ↑ Conforme Isnard (2007), pág. 61, Corolário 5.7.
- ↑ Ver também Isnard (2007), pág. 116.
- ↑ Compare a Definição 1.9 com a definição de Isnard (2007), pág. 57.
- ↑ No livro de Isnard (2007), este teorema corresponde às proposições 5.6 (pág. 61) e 5.10 (i) (pág. 63).
- ↑ No livro de Isnard (2007), este corolário corresponde ao item (ii) da proposição 5.10 (pág. 63).
- ↑ No livro de Isnard (2007), este corolário aparece como caso particular do item (ii) na proposição 5.6 (pág. 61).
- ↑ No livro de Isnard (2007), este item corresponde ao corolário 5.7 (pág. 61).


![(a,+\infty] := \{x \in \overline{\mathbb{R}}: a \in \mathbb{R} \text{ e } a < x \le +\infty\}](http://upload.wikimedia.org/math/2/c/7/2c77f78908f7980b4f107930614f1d64.png)
![\begin{align}
a + \infty = +\infty + a & = +\infty, & a & \neq -\infty \\
a - \infty = -\infty + a & = -\infty, & a & \neq +\infty \\
a \cdot \pm\infty = \pm\infty \cdot a & = \pm\infty, & a & \in (0, +\infty] \\
a \cdot \pm\infty = \pm\infty \cdot a & = \mp\infty, & a & \in [-\infty, 0) \\
a \cdot +\infty = +\infty \cdot a & = 0, & a & = 0
\end{align}](http://upload.wikimedia.org/math/b/2/0/b205eb6691cc1edb4f7d6d40672611f6.png)

![a \cdot \infty = \infty \cdot a =
\begin{cases}
\infty, & \mbox{se } a \in (0, +\infty] \\
0, & \mbox{se } a = 0
\end{cases}](http://upload.wikimedia.org/math/8/6/b/86bdf08f3052ff08902387557df1ecda.png)







